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segunda-feira, 1 de abril de 2013

A vida e morte de um mártir moderno - Dietrich Bonhoeffer


Nascido na riqueza Dietrich Bonhoeffer caminhava para uma carreira brilhante como teólogo, até passar a ver a vida sob a perspectiva daqueles que sofrem, na Alemanha nazista. Isso lhe custou a vida.
Por Christian History & Biography
Por Geffrey B. Kelly

Em 1942, o pastor luterano Dietrich Bonhoeffer enviou um presente de Natal à sua família e amigos que estiveram envolvidos em um fracassado plano para matar Hitler. Era um ensaio intitulado After Ten Years (Depois de dez anos). Nele, Bonhoeffer lembrou a seus companheiros de conspiração dos ideais pelos quais eles estavam dispostos a dar suas vidas. Em suas palavras: “Nós aprendemos, de uma vez por todas, a ver os grandes eventos da história do mundo de baixo para cima, das perspectivas dos proscritos, suspeitos, maltratados, impotentes, oprimidos e injuriados – em resumo, da perspectiva daqueles que sofrem”.

Conforme ele analisava as várias razões pelas quais eles tinham que matar Hitler e derrubar o governo nazista, Bonhoeffer lhes falava do exemplo de Cristo. Jesus, de boa vontade, arriscou sua vida defendendo os pobres e proscritos de sua sociedade – mesmo ao custo de uma violenta morte.

Na época de sua prisão, a vida de Bonhoeffer tinha se tornado uma jornada de entrelaçamento, na qual ele tinha entrado por causa desta “visão de baixo para cima”. Sua opção de vida lhe tirou de uma confortável posição de professor universitário à liderança isolada de uma oposição minoritária dentro de sua igreja contra seu governo. Ele saiu da segurança de um refúgio fora do país para a vida perigosa de um conspirador. Ele desceu dos privilégios do ministério eclesiástico e o respeito dado a uma família nobre, para sua árdua prisão e mais tarde sua morte como traidor de seu país.

Determinação de aço - Poucas pessoas teriam predito que o jovem Bonhoeffer terminaria como um conspirador político. Nascido em Breslau, em 1906, Dietrich era o quarto filho homem e sexto filho dentre todos (sua irmã gêmea, Sabine, nasceu momentos depois). Sua mãe, Paula von Hase, era filha de um pregador da corte do Kaiser Wilhelm II. O pai de Dietrich, Karl Bonhoeffer, era um famoso médico psiquiatra e professor universitário.

Quando era um rapazinho de 14 anos, Dietrich surpreendeu sua família declarando que não queria nada mais do que ser um ministro da igreja. Este anúncio provocou uma pequena consternação entre seus irmãos homens. Um estava destinado a ser físico, o outro, advogado; ambos eram pessoas de sucesso, para quem o serviço na igreja parecia um trabalho que não simbolizava uma alta responsabilidade para a burguesia, era algo inferior a eles e sua capacidade. Seu pai sentiu-se da mesma forma, mas ficou em silêncio, preferindo conceder a seu filho a liberdade de cometer seus próprios erros. Quando sua família criticou a igreja como egoísta e covarde, um lampejo da determinação de aço de Dietrich surgiu dele a frase: “Neste caso, eu a reformarei!”.

Um “milagre teológico” - Seguindo um costume de família, o jovem Dietrich estudou na Universidade de Tübingen por um ano antes de mudar para a Universidade de Berlim, onde morava a família. Na universidade, ele veio a estar sob a influência do conhecido historiador da igreja Adolf von Harnack e Karl Holl, um estudioso sobre Lutero. Von Harnack considerou Bonhoeffer como um grande historiador da igreja em potencial, capaz de um dia subir no seu próprio pódio.

Para tristeza de von Harnack, Bonhoeffer dirigiu suas energias do mundo acadêmico para o campo dogmático. Seu maior interesse ficava nos assuntos da Cristologia e da Eclesiologia. Sua dissertação, The Communion of Saints (A comunhão dos santos), foi completada em 1927, quando ele tinha apenas 21 anos. Karl Barth a celebrou com um “milagre teológico”.

Nesta dissertação, Bonhoeffer declara numa sonora frase que a igreja é “Cristo existindo em comunidade”. A igreja para ele não é nem uma sociedade ideal, sem necessidade de reforma, nem o ajuntamento de uma elite cheia de dons. Pelo contrário, ela é tanto uma comunhão de pecadores capazes de seres infiéis ao evangelho, quando é uma comunhão de santos para quem servir um ao outro deve ser uma alegria.

Triste encontro com a pobreza - Como ainda não estava na idade mínima para ordenação e precisava de experiência prática, Bonhoeffer interrompeu sua carreira acadêmica. Ele aceitou uma indicação como pastor-assistente numa igreja em Barcelona que tendia para as necessidades espirituais da comunidade de negócios alemã.

Seus meses na Espanha (1928–29) coincidiram com as primeiras repercussões da Grande Depressão, dessa forma a vida de pastor em Barcelona deu a Bonhoeffer seu primeiro triste encontro com a pobreza. Ele ajudou a organizar um programa que sua igreja estendeu aos desempregados. Em desespero, ele mesmo implorou por dinheiro à sua família para este propósito. Num sermão memorável, ele lembrou ao seu povo que “Deus caminha entre nós em forma humana, falando a nós naqueles que cruzam nosso caminho, sejam eles estranhos, mendigos, doentes, ou mesmo naqueles mais perto de nós em nosso dia a dia, tornando-se a ordem de Cristo em nossa fé nele”.

De volta à Alemanha, Bonhoeffer voltou sua atenção para sua “segunda dissertação” – exigida para conseguir uma designação na universidade. Publicada como um livro em 1931, Act and Being (Ser e agir) externamente parece ser um rápido tour de filosofias e teologias de revelação. Se a revelação é “agir”, então a Palavra eterna de Deus interrompe a vida da pessoa de um modo direto, intervindo muitas vezes quando menos se espera. Se a revelação é “ser”, então é a presença contínua de Cristo na igreja. Através de todas as análises cruzadas deste livro, nós também detectamos a luta profunda de Bonhoeffer entre o conforto do status acadêmico e o perturbador chamado de Cristo para ser um cristão genuíno.

Primeira visita à América - Tendo assegurada sua indicação para a universidade, Bonhoeffer decidiu então aceitar uma bolsa de pesquisa Sloane. Esta lhe ofereceu um ano de estudos adicionais no Union Theological Seminary, em Nova York. Mais tarde ele descreveu este ano acadêmico de 1930–31 como “uma grande libertação”.

A princípio, Bonhoeffer olhou preocupadamente para o Seminário de Teologia União, julgando que ele fosse tão permeado de humanismo liberal que tivesse perdido suas amarras teológicas. Mas cursos com Reinhold Niebuhr e longas conversas com seu amigo mais próximo, o americano Paul Lehmann, trouxeram sensibilidade aos problemas sociais.

As amizades de Bonhoeffer no Union Seminary influenciaram-no profundamente. Elas alimentaram sua crescente paixão pelas preocupações do Sermão do Monte. Através de um aluno negro do Alabama, o reverendo Frank Fisher, Bonhoeffer experimentou em primeira mão o racismo opressivo sofrido pela comunidade negra do Harlem.

Admirando os serviços desta igreja, que valorizavam a vida, ele levou gravações dos negro spirituals para a Alemanha para tocar para seus alunos e seminaristas. Ele falou aos alunos freqüentemente sobre a injustiça racial na América, prevendo que o racismo se tornaria “um dos problemas futuros mais críticos para chamada igreja branca”.

Outro amigo, o pacifista francês Jean Lasserre, levou Bonhoeffer a transcender sua ligação natural à Alemanha para assumir um compromisso maior com a causa da paz mundial. Bonhoeffer tornou-se devoto da resistência pacífica ao mal, e mais tarde ele defendeu com veemência a paz em encontros ecumênicos. Para Bonhoeffer, a guerra claramente negava o evangelho; nela os cristãos matavam uns aos outros para ideais alardeados que só mascaravam objetivos políticos mais sinistros.

As pessoas perceberam as mudanças na perspectiva de Bonhoeffer em sua volta à Universidade de Berlim. Seus alunos o descreveram como diferente de seus colegas, estes mais enfadonhos e desinteressados. Tentando explicar o que houve com ele, Bonhoeffer disse simplesmente que tinha se tornado cristão. Como ele mesmo disse, ele esteve pela primeira vez na sua vida “no trilho certo”, dizendo ainda: “Eu sei que por dentro serei realmente claro e honesto somente quando eu tiver começado a levar a sério o Sermão do Monte”.

Palestrante universitário eletrizante - Retornando da América, Bonhoeffer fez uma pausa na Universidade de Bonn, onde ele finalmente conheceu o teólogo Karl Barth. Os escritos de Barth tinham impressionado o mundo teológico e cativado Bonhoeffer durante seus anos de estudante em Berlim. Os dois ficaram amigos, então. Barth apreciava os alertas incisivos de Bonhoeffer sobre a acomodação das ideologias políticas na religião organizada. Bonhoeffer começou a usar Barth como um meio de divulgação de suas opiniões, confiando nas avaliações maduras de Barth sobre como contra-atacar as concessões da igreja ao nazismo.

Sendo o professor mais jovem da faculdade, Bonhoeffer ficou conhecido pelo seu jeito de ir até o fundo de uma questão e abordar os assuntos na sua revelância atual. Um aluno escreveu que sob a direção de Bonhoeffer “cada frase encontrava seu lugar; havia uma preocupação pelo que me perturbava, e de fato, todos nós jovens, o que perguntávamos e o que queríamos saber”. Mas a carreira de ensino de Bonhoeffer foi ofuscada pela ascensão de Hitler ao poder. Os alunos atraídos pelo nazismo o evitavam.

Alguns dos cursos de Bonhoeffer na universidade durante este período foram publicados como livros desde então. Em The Nature of the Church, (A natureza da igreja), Bonhoeffer observou que a igreja ficou à deriva; ela, com muita freqüência, buscou o conforto dos privilegiados. A igreja, ele disse aos seus alunos, tinha que confessar a fé em Jesus com coragem incomum e rejeitar sem hesitação toda idolatria secular.

Em suas palestras sobre Cristologia, publicada como Christ the Center (Cristo o centro), Bonhoeffer insistiu com seus alunos a responder perguntas perturbadoras: Quem é Jesus, no mundo de 1933? Onde Ele pode ser achado? Para ele, o Cristo de 1933 era o judeu perseguido e o dissidente na luta da igreja.

Durante os anos na universidade, Bonhoeffer também achou tempo para ensinar em uma favela de Berlin. Para ser mais envolvido na vida destes alunos, ele se mudou para a sua vizinhança, visitou suas famílias e os convidou a passar finais de semana num chalé alugado na montanha. Depois da guerra, um destes alunos lembrou que “a turma dificilmente ficava agitada”.

Crescente luta da igreja - Durante este período, muitos cristãos dentro da Alemanha adotaram o Socialismo Nacional de Hitler como parte de seu credo. Conhecidos como “cristãos alemães”, seu porta-voz Hermann Grüner, deixou claro o que eles defendiam:
“O tempo se completou em Hitler para as pessoas na Alemanha. É por causa de Hitler que Cristo, Deus, o ajudador e remidor, tornou-se eficaz entre nós. Portanto, o Socialismo Nacional é cristianismo positivo em ação... Hitler é o modo do Espírito e da vontade de Deus para o povo alemão entrar na igreja de Cristo”.

Ordenado em 15 de novembro de 1931, Bonhoeffer, com seu grupo de “Jovens Reformadores”, tentou persuadir delegados nos sínodos da igreja a não votar em candidatos pró-Hitler. Num sermão memorável, logo antes das eleições na igreja em julho de 1933, Bonhoeffer apelou: “Igreja, permaneça uma igreja! Confesse, confesse, confesse!” Apesar dos seus esforços, os cristãos alemães elegeram como Bispo Nacional um simpatizante do nazismo, Ludwig Müller. Numa carta à sua avó, em agosto daquele ano, Bonhoeffer afirmou com franqueza: “O conflito é realmente ser Alemão ou ser Cristão e o quanto antes este conflito ficar às claras, melhor”.

Em setembro de 1933, o conflito ficou às claras. No “Sínodo Marrom” naquele mês (chamado assim porque muitos dos religiosos usavam uniformes nazistas marrons e faziam a saudação nazista), a igreja adotou a “Frase Ariana”, que negava o púlpito a ministros ordenados que tivessem sangue judeu. O amigo mais próximo de Bonhoeffer, Franz Hildebrandt, foi afetado pela legislação (junto com muitos outros). A Frase Ariana dividiu a Igreja Protestante alemã.

Defesa aberta dos judeus - A primeira reação pública de Bonhoeffer à legislação anti-semita chegou logo. Em abril de 1933, ele falou a um grupo de pastores sobre “A Igreja e a questão judaica”. Neste sermão, ele pediu as igrejas para, em primeiro lugar, desafiar com ousadia o governo que justifica tais leis, obviamente imorais. Segundo, ele exigiu que a igreja viesse em socorro das vítimas – batizadas ou não. Finalmente, ele declarou que a igreja devia “travar as rodas” do governo se a perseguição aos judeus continuasse. Muitos dos que ali estavam saíram correndo, convencidos de que tinham ouvido a incitação para um motim.

Logo após o Sínodo Marrom, Bonhoeffer e um herói da Primeira Guerra Mundial, o pastor Martin Niemöller, formaram a “Liga de Emergência dos Pastores”. Eles defendiam a luta para repelir a Frase Ariana, e no fim de setembro, tinham obtido 2.000 assinaturas. Mas, para decepção de Bonhoeffer, mais uma vez os bispos da igreja continuaram em silêncio.

No Sínodo de Barmen, de 29 a 31 de maio de 1934, entretanto, a nova “Igreja Confessante” (aqueles pastores que se opuseram à Frase Ariana e outras políticas nazistas) afirmaram a agora famosa Confissão de Fé de Barmen. Concebida em grande parte por Karl Barth, sua associação do Hitlerismo com idolatria fez simpatizantes entre os homens marcados pela Gestapo, e dentre outras coisa dizia: “Nós repudiamos o falso ensino de que há áreas em nossa vida que não pertencem a Jesus Cristo, mas a outros senhores…”

Abandonando uma carreira promissora - Uma vez que os cristãos alemães estavam agora entrincheirados em posições de liderança na igreja, Bonhoeffer foi rejeitado para um pastorado me uma igreja local. Os comentários contra ele apontaram sua posição radical e intempestiva às políticas governamentais. E ele foi considerado muito ligado ao seu amigo cristão-judeu, Franz Hildebrandt. A assustadora “nazificação” das igrejas deixou Bonhoeffer sentindo-se isolado e incapaz de esboçar uma oposição destemida a Hitler dentre os pastores.

Em sua posição de ensino, ele sentiu que a universidade tinha se ligado indesculpavelmente ao sentimento popular que exaltava Hitler como salvador político. Ele ficou perturbado também pela falta de protesto diante do afastamento de professores judeus. Estas frustrações facilitaram a decisão de deixar a Alemanha. No outono de 1933, ele assumiu o pastorado de duas igrejas de língua alemã em Londres.

Por causa desta atitude Bonhoeffer foi severamente repreendido por Karl Barth, que achou que ele estivesse fugindo de cena quando ele era mais necessário. Barth acusou Bonhoeffer de privar a luta da igreja de seu “esplêndido arsenal teológico” e de sua “correta figura alemã”.

Mas Bonhoeffer ainda não estava abandonando a luta contra o nazismo. De Londres, ele pretendia trazer pressão externa sobre a igreja do Reich Alemão. Numa carta ao líder do Ministério Eclesiástico Estrangeiro, Bonhoeffer recusou a se abster de criticar o governo alemão.

Dietrich Bonhoeffer e outros delegados foram a uma conferência ecumênica em Fano, na Dinamarca, em 1934. Na conferência, Bonhoeffer pregou um sermão aos líderes cristãos de mais de 15 nações. “O mundo está sufocando com armas”, ele disse, “e a desconfiança que salta dos olhos de cada ser humano é assustadora. As trombetas da guerra podem tocar amanhã”. Nesta ocasião, ele insistiu para que os cristãos falassem contra a guerra e ousassem pelo “grande empreendimento” da paz.

Buscando para o mundo o apoio da igreja - Era no nível ecumênico que Bonhoeffer esperava continuar mais efetivamente na luta da igreja. Ele tinha sido indicado secretário da juventude para a Aliança Mundial para Promover a Amizade Internacional através das Igrejas (um precursor do Conselho Mundial das Igrejas). Neste papel, ele ajuntou as igrejas internacionais para fazer um forte protesto anti-nazismo, para apoiar a Igreja Confessante e para expulsar a igreja do Reich do movimento ecumênico.

Suas atividades levaram a uma amizade duradoura com o bispo inglês George Bell. Bell era presidente do Conselho Universal Cristão para a Vida e Trabalho, que trabalhava de perto com a Aliança Mundial. Ele apoiava a luta de Bonhoeffer para que a Igreja Confessante fosse reconhecida como a única representante da igreja protestante na Alemanha.

Os esforços de Bonhoeffer alcançaram um clímax na conferência de 1934 em Fano, na Dinamarca. A Comissão Ecumênica de Jovens, da qual Bonhoeffer fazia parte, surpreendeu os delegados por sua recusa em expressar resoluções em uma polida linguagem diplomática. Além disso, Bonhoeffer queria que as igrejas declarassem não-cristã qualquer igreja que tivesse se tornado meramente uma audiência neutra nas questões políticas. Todos os delegados sabiam que a Igreja do Reich era o alvo de tais resoluções.

A contribuição mais duradoura de Bonhoeffer para esta conferência, entretanto, foi um sermão matinal inesquecível sobre a paz, chamado “A Igreja e os povos do mundo”. Seu aluno, Otto Dudzus relatou que as palavras de Bonhoeffer deixaram os delegados “prendendo a respiração de tanta tensão”. Como poderiam as igrejas justificar sua existência, ele perguntou, se elas não tomavam medidas para impedir a marcha em direção a outra guerra? Ele exigiu que o conselho ecumênico se levantasse “para que o mundo, embora esteja rangendo os dentes, tenha que ouvir, para que as pessoas se alegrem por que a igreja de Cristo, no nome de Cristo, tomou as armas das mãos dos seus filhos, proibiu a guerra, proclamou a paz de Cristo contra o mundo irado”. Uma frase deste sermão ficou para sempre marcada nas memórias dos alunos de Bonhoeffer: “Temos que nos atrever pela paz. Este é o grande empreendimento!”. Até mesmo Dudzus lembrou que “Bonhoeffer tinha seguido tanto à frente que a conferência não podia segui-lo”.

Um ousado e ilegal novo seminário - Em 1935, os líderes da Igreja Confessante pediram a Bonhoeffer para dirigir um seminário ilegal perto do mar Báltico. Para a Igreja Confessante, estabelecer seus próprios seminários era um passo ousado. Eles simplesmente contornavam o treinamento típico dos candidatos nas universidades contaminadas pelo nazismo. Com seus próprios seminários, eles podiam ignorar as exigências para que os candidatos provassem seu sangue puro ariano e lealdade ao nazismo como condições para a ordenação. Estes seminários eram apoiados não por ajuda do governo, mas por ofertas de boa vontade.

Os jovens candidatos, que se juntavam primeiro em Zingst, no mar Báltico e mais tarde em uma escola particular abandonada, em Finkenwalde, lembram-se do seminário como um oásis de liberdade e paz. Bonhoeffer estruturava o dia ao redor da oração em comum, meditação, leituras bíblicas e reflexão, serviço fraternal, e suas próprias palestras. Cada dia era aliviado pela recreação, além de cantarem os negro spirituals que Bonhoeffer trouxera da América.

Mas o ponto alto de seu treinamento, eram as palestras de Bonhoeffer sobre discipulado. Elas deram origem ao mais conhecido de seus livros O discipulado. Nele, Bonhoeffer acusou os cristãos de buscarem “graça barata”, que garantia uma salvação na base da barganha, mas não fazia exigências reais às pessoas, envenenando, dessa forma, “a vida de seguir a Cristo”. Ele desafia os leitores a seguir a Cristo até a cruz, a aceitar “a graça de alto preço”, da fé que vive em solidariedade com as vítimas de sociedades sem coração.

A Gestapo fechou o seminário em outubro de 1937. Bonhoeffer tentou então conduzir um “seminário secreto em atividade”. Mas não houve sucesso. O espírito de Finkenwalde sobreviveu, entretanto, no Vida em comunhão. Publicado em 1939, o livro registra as “experiências em comunidade” dos alunos. A igreja, Bonhoeffer acreditava, precisava promover um senso genuíno de comunidade cristã. Sem isso, não poderia testemunhar com eficácia contra a ideologia nacionalista na qual a Alemanha havia sucumbido. A congregação de uma igreja não era para ser fechada em si mesma, mas ser um ponto de apoio para os esgotados espiritualmente e um refúgio para os perseguidos. Através da oração e serviço a igreja podia tornar-se novamente “Cristo existindo como comunidade”.

A falta de coragem da igreja - Os anos de 1937 a 1939 foram particularmente problemáticos para Bonhoeffer e seu papel na luta da igreja. Os líderes da Igreja Confessante pareciam não ter firmeza na questão de ser contra fazer o pacto civil a Hitler. Ele ofereceu aos ministros da Igreja Confessante legitimidade para retomar seu apoio silencioso aos seus planos expansionistas, incluindo a anexação da Áustria. A paz, a respeitabilidade e o patriotismo eram a isca. Bonhoeffer queria que os bispos defendessem o direito dos pastores de se recusarem a fazer o pacto de fidelidade a Adolf Hitler.

Bonhoeffer foi bloqueado, também, em seus esforços para agitar uma oposição mais forte na igreja contra a cruel perseguição aos judeus. Para ele, os sínodos (assembléias) da igreja olhavam apenas os seus próprios interesses. Faltava-lhes o sentimento para assuntos mais urgentes: como contra-atacar o abuso e negação dos direitos civis na Alemanha. Ele censurou publicamente a falta de sensibilidade para com a situação difícil dos pastores aprisionados por suas dissidências.

Se os líderes da igreja levantassem suas vozes em favor dos judeus, Bonhoeffer teria como avaliar o sucesso ou o fracasso do sínodo. “Onde está seu irmão Abel?” - ele perguntava. Os ensaios e palestras de Bonhoeffer deste período exibiam sua indignação contra a covardia dos bispos. Ele freqüentemente citava Provérbios 31:8 – “Erga a voz em favor dos que não podem se defender”, para explicar o motivo de ser a voz de defesa dos judeus na Alemanha nazista.

Em junho de 1938, o Sexto Sínodo da Igreja Confessante reuniu-se para resolver a última crise da igreja. O Dr. Friedrich Werner, comissário do governo, responsável pela Igreja da Prússia, havia ameaçado expulsar qualquer pastor que se recusasse a fazer, como um “presente de aniversário” a Hitler, o juramento de lealdade civil. Ao invés de lutar pela liberdade da igreja, o sínodo transferiu o peso da decisão para cada pastor individualmente. Este resultado caiu nas mãos da Gestapo, que pôde facilmente identificar os poucos desleais que ousaram recusar-se a fazer o juramento. Enfurecido com os bispos, Bonhoeffer questionava, “Será que a Igreja Confessante nunca irá aprender que, em questões de consciência, a decisão majoritária mata o espírito?”

Viagem por engano à América - No outono de 1938, Bonhoeffer sentia que era um homem sem igreja. Ele não conseguia influenciar a Igreja Confessante a tomar coragem e resistir a um governo civil que ele considerava como o mal inerente. Na frente ecumênica, ele havia se mostrado inapto em persuadir a Aliança Mundial das Igrejas a não aceitar a delegação do Terceiro Reich em sua conferência. Como forma de protesto, em 1937, Bonhoeffer renunciou ao cargo de secretário da Aliança Mundial.

Na chamada “Noite de Cristal” (Kristallnacht), em 9 de novembro de 1938, o frenesi do nazismo anti-semita é permitido contra os cidadãos judeus. A polícia observava passivamente as hordas de alemães quebrar as vidraças das casas e das lojas judias e queimar as sinagogas, brutalizando contra os judeus. Bonhoeffer estava fora de Berlim naquela noite, mas voltou rapidamente para aquele cenário. Ele se recusou a acreditar nas tentativas de atribuir tal violência a tão falada maldição divina sobre os judeus por causa da morte de Cristo. Em sua Bíblia, ele sublinhou Salmo 74:8 – “Disseram em seus corações: ‘Vamos acabar com eles! E queimaram todos os santuários do país’”. – e colocou ao lado a data da Noite de Cristal.

Bonhoeffer sentiu um enorme desapontamento com o vergonhoso silêncio que se seguiu por parte da igreja, sobre aquela noite de selvageria. Este foi um dos fatores que o levou a cogitar uma segunda viagem à América. Ele desejava repensar seu compromisso com a Igreja Confessante, o ponto principal de sua oposição a Hitler.

Outra razão para deixar a Alemanha era a iminente convocação às forças armadas para os de sua faixa etária. Bonhoeffer compreendeu que sua recusa a ingressar no exército traria a ira nazista sobre seus colegas da Igreja Confessante. Bonhoeffer também havia entrado em contato com seu cunhado, Hans Von Dohnanyi, almirante Wilhelm Canaris, e o coronel Hans Oster (todos da unidade de inteligência militar ou Abwehr), que estavam preparando um golpe de estado. Ele temia, inconscientemente, atrair a atenção da Gestapo para este plano.

Por todos estes motivos, Bonhoeffer considerava a possibilidade de deixar a Alemanha, desta vez via um tour de palestras pelos Estados Unidos, no verão de 1939. O americano Paul Lehmann, seu amigo íntimo e o seu primeiro professor Reinhold Niebuhr, estavam ansiosos por resgatar Bonhoeffer do destino reservado aos dissidentes na Alemanha Nazista. Por isso arranjaram o tour com a intenção implícita de que, uma vez iniciada a guerra, ele pudesse permanecer na América. Bonhoeffer embarcou para os Estados Unidos em 2 de junho de 1939.

Entretanto, a tranqüilidade desta viagem era perturbada pela lembrança da perseguição que os pastores dissidentes estavam enfrentando. A Godesberg Declaration, de 04 de abril de 1939, impunha a todos os pastores o dever de devotarem-se completamente a “política nacional de trabalho construtivo do Führer”. Tornava-se cada vez mais perigoso ser enumerado como um dos inimigos do Terceiro Reich. Neste período o diário de Bonhoeffer é repleto de expressões de ansiedade. Porque ele havia ido para a América quando era necessário aos cristãos da Alemanha?

Rapidamente Bonhoeffer mudou de idéia e resolveu voltar. Partiu em 08 de julho de 1939, pouco mais de um mês de sua chegada. “Cometi um engano ao vir para a América”, ele escreveu para Reinhold Niebuhr. “Eu tenho que viver este período da história nacional com os cristãos da Alemanha. Eu não terei direito de participar da reconstrução da vida cristã na Alemanha depois da guerra, se não compartilhar das aflições deste tempo com o meu povo”.

Atividades de espionagem - Quando retornou ao seu país, Bonhoeffer foi proibido de ensinar, pregar ou de publicar qualquer coisa sem submeter uma cópia do material para aprovação prévia dos nazistas. Ele também recebeu ordens para se apresentar regularmente à polícia. A liberdade para continuar a escrever veio inesperadamente através do seu recrutamento para uma conspiração. Hans von Dohnanyi e o coronel Hans Oster, figuras de prestígio na inteligência militar alemã, arranjaram para tê-lo figurando como indispensável para as atividades de espionagem que desenvolviam. Como Bonhoeffer estava designado para o escritório em Munique, isto o livrou da prisão e o deixou longe da vigilância da Gestapo em Berlim.

Sua missão ostensiva era espionar para a inteligência através de suas “visitas pastorais” e seus contatos ecumênicos. Todavia, sob esta aparência, Bonhoeffer estava envolvido em reais atividades de espionagem. Sua verdadeira e principal missão era conseguir com os Aliados os termos da rendição, caso o plano contra Hitler fosse bem-sucedido. O ponto alto dessas negociações foi em uma reunião secreta com o Bispo Bell, em Sigtuna – Suíça, em maio de 1942. Bonhoeffer convenceu Bell de que ele poderia acreditar que os conspiradores venceriam o governo nazista, restaurariam a democracia na Alemanha e fariam reparações de guerra. Bell levou estas informações ao Secretário Britânico para Assuntos Exteriores, Anthony Eden, mas os aliados responderam que para a Alemanha só havia a condição para uma “rendição incondicional”.

Quando não estava desperdiçando seu tempo no escritório de Munique, Bonhoeffer ficava em seu quartel-general, localizado nas vizinhanças de um mosteiro beneditino. Lá, ele continuava a escrever o que uma vez declarou ser o principal trabalho de sua vida: Ética – obra póstuma reconstruída por Eberhard Bethge. Na verdade, eram os últimos quatro fragmentos dos métodos de construção da ética cristã em meio à crise nacional da Alemanha. Neles, Bonhoeffer criticava a igreja duramente por “não ter levantado sua voz em defesa das vítimas ou... encontrado meios de sair em socorro a elas”. Em uma frase contundente ele declarou a igreja “culpada da morte dos mais fracos e dos mais indefesos irmãos e irmãs de Jesus Cristo”.

Cartas da prisão - Enquanto trabalhava para a Abwehr, Bonhoeffer se envolveu na chamada “Operação 7”: um ousado plano de contrabandear judeus para fora da Alemanha. Isto atraiu suspeitas da Gestapo, e em 05 de abril de 1943, após o fracasso de três atentados contra a vida de Hitler – Bonhoeffer foi preso e encarcerado na prisão militar de Tegel, em Berlim. A princípio, os nazistas tinham apenas acusações vagas contra ele: sua evasão do serviço militar, sua participação na “Operação 7” e suas deslealdades anteriores.

Durante o tempo que passou na prisão, Bonhoeffer escreveu cartas inspirativas e poemas que hoje são considerados como clássicos cristãos. Após a publicação póstuma de Resistência e submissão, por Eberhard Bethge; pessoas de todo o mundo começaram a apreciar a criatividade incansável de Bonhoeffer em busca do significado da fé cristã. Estruturas religiosas sem significado e linguagem teológica abstrata eram respostas insípidas aos clamores das pessoas perdidas em meio ao caos e às mortes nos campos de batalha e campos de concentração.

Nestas cartas, Bonhoeffer também levantava questões perturbadoras que iriam irritar os líderes da igreja. Na carta de 30 de abril de 1944, ele confidencia que “o que mais me preocupa é a questão do que o cristianismo realmente é; ou de fato quem Cristo realmente é, hoje, para cada um de nós”.

Em resposta a esta questão, Bonhoeffer observava que a igreja, ansiosa por manter os privilégios clericais e sobreviver aos anos de guerra com seu status intacto, oferecia apenas, uma religião que servia a interesses próprios, tornando-se um refúgio da responsabilidade pessoal. A igreja falhara em demonstrar qualquer tipo de credibilidade moral em uma “época em que o mundo precisava dela”. A igreja tem que repudiar aqueles “adereços religiosos” que são muitas vezes confundidos erroneamente com a fé autêntica. Para ele, se Jesus é “o homem para os outros”, então a igreja somente poderá ser uma igreja de verdade quando existir para corajosamente servir às pessoas.

Bonhoeffer escreveu, também, cartas à sua noiva, Maria von Wedemeyer. Ele se apaixonara por Maria em 1942, quando conheceu a família dela durante as viagens a serviço da Abwehr. Ele foi atraído por sua beleza, vivacidade e seu espírito independente. Inicialmente, a família dela foi contra a um compromisso entre eles, por ela ser muito mais jovem – ela estava com 18 anos e ele com 37. Ele também estava envolvido em ações secretas que poderiam ser perigosas para ela. Mas após sua prisão, eles anunciaram o noivado publicamente como uma forma de apoio a ele. As visitas de Maria a Bonhoeffer tornaram-se o principal sustento dele durante os primeiros dias sombrios do seu encarceramento.

Uma das cartas que escreveu a Maria, fala do amor dos dois como “um sinal da graça de Deus, e de sua bondade; que nos encoraja a ter fé”. Ele acrescenta ainda, “e eu não falo de uma fé que foge do mundo, mas de algo que faz com que ele sobreviva, e cujo amor e verdade permanecem para o mundo apesar de todo o sofrimento que ele nos traz”.

Campo da morte em Flossenburg - Em 20 de julho de 1944, outro plano para assassinar Hitler falhou. A Gestapo, como resultado de sua rede de investigação, fechou o cerco contra os principais conspiradores, incluindo Bonhoeffer. Ele foi transferido para a prisão da Gestapo em Berlim, em outubro de 1944. Maria e Dietrich Bonhoeffer estavam completamente separados um do outro. Em fevereiro de 1945, Bonhoeffer foi mandado para o campo de concentração de Buchenwald.

Em meio ao caos reinante, por causa do assalto final das tropas aliadas à Alemanha, Maria viajou por todos os campos de concentração entre Berlim e Munique, geralmente a pé, em infrutíferas tentativas de ver Bonhoeffer novamente.

O que sabemos sobre aqueles últimos dias está reunido no livro The Venlo Incident (O incidente de Venlo), escrito por um companheiro de prisão de Bonhoeffer, o oficial da inteligência britânica Payne Best. Bonhoeffer e Payne Best estavam entre os “prisioneiros importantes” levados para Buchenwald. Best escreveu mais tarde sobre Bonhoeffer: “Ele foi um dos poucos homens que conheci para quem o seu Deus era real, e estava sempre junto com ele...”.

No dia 3 de abril, Bonhoeffer e outros presos foram colocados em um vagão de trem e levados para serem exterminados no campo de Flossenbürg. Para transportarem prisioneiros desta maneira, a sentença de morte já havia sido decretada em Berlim. Os guardas da SS cumpririam as formalidades de uma corte marcial, executariam estes inimigos do Terceiro Reich e depois destruiriam seus corpos.

Em 08 de abril, eles alcançaram Schönberg, uma pequenina vila da Bavária, onde os prisioneiros eram amontoados em uma pequena escola usada temporariamente como prisão. Era o primeiro domingo depois da Páscoa, e muitos prisioneiros pediram a Bonhoeffer para liderá-los em culto e orações. Ele aceitou e meditou no livro de Isaías “E por suas chagas fomos curados”. Em seu livro, Best relembra aquele momento: “Ele tocou o coração de cada um, encontrando as palavras certas para expressar o espírito do nosso aprisionamento, os pensamentos e resoluções que isto tinha trazido”.

A quietude foi interrompida assim que a porta foi aberta por dois homens, membros da Gestapo, em trajes civis. Eles ordenaram que Bonhoeffer os seguisse. Para os prisioneiros, isto só podia significar uma única coisa: que ele seria executado em breve. Bonhoeffer arrumou tempo para se despedir de cada um. Puxando Best de lado, ele falou as últimas palavras das quais se têm registro, uma mensagem para seu amigo inglês, o Bispo Bell: “Este é o fim – mas para mim, o início da vida”.

Bem cedo, na manhã de 9 de abril, Bonhoeffer, Wilhelm Canaris, Hans Oster, e mais quatro outros conspiradores foram enforcados no campo de extermínio de Flossenbürg. O médico do campo, que testemunhou as execuções, se lembra de ter visto Bonhoeffer ajoelhar-se e orar antes de ser levado à forca. “Eu fiquei profundamente comovido pela maneira com a qual aquele homem amável orava: tão devotado e tão certo que Deus ouviria sua oração”, ele escreveu. “Naquele lugar de execução, ele novamente fez uma pequena oração e então subiu os degraus para a forca; corajoso e sereno... Nos quase cinqüenta anos em que trabalhei como médico, creio que jamais vi um homem morrer tão completamente submisso à vontade de Deus”.

À distância, soavam os canhões do exército norte-americano do general George Patton. Três semanas depois Hitler cometeria suicídio e, em 7 de maio, a guerra na Europa estaria terminada.

O nazismo contra o qual Bonhoeffer lutou sobrevive no mundo moderno sob outras formas de um mal sistemático. Mas o seu testemunho de Jesus Cristo ainda vive. Bonhoeffer continua a desafiar os cristãos a seguir Jesus até a cruz do genuíno discipulado e a ouvir o clamor dos oprimidos.


Dr. Geffrey B. Kellyé professor de teologia sistemática na La Salle University, na Filadélfia, e autor de “Liberating Faith: Bonhoeffer's Message for Today” (Augsburg, 1984 - Liberando a fé: a mensagem de Bonhoeffer para hoje)

Espírito de Jezabel por Jon Hamilton


(Retirado do livro "A Natureza do nosso inimigo")

Traduzido pela Pra Denise Mardegan

No livro de Apocalipse, o Senhor fala à igreja em Tiatira "No entanto, tenho contra ti que toleras Jezabel, mulher que se diz profetisa Por seu ensino ela engana os meus servos à imoralidade sexual e comer comida sacrificada a ídolos.".(Ap 2:20)À primeira vista, poderíamos perguntar "O quê? Jezebel? Será que ela não morrer de volta no Segundo Reis? Como pode ser Jezabel ameaçando a igreja na Ásia?"

Obviamente, a pessoa literal de Jezabel não estava presente em Tiatira. A referência é um paralelo profético. Assim como João Batista era "Elias", porque ele veio no espírito e poder de Elias, esta pessoa ou influência em Tiatira estava sob o controle espiritual das mesmas influências demoníacas do que Jezebel.

Este espírito obviamente existia muito antes de rainha Jezabel, mas ela estava tão totalmente controlado por esta natureza, que ela se tornou seu homônimo. Na escritura, Herodias também é um tipo de esta força. Como Jezabel contra Elias, assim Herodias em oposição a João Batista. Um terceiro exemplo é encontrado aqui em Apocalipse 02:20

Rainha Jezebel, personagem bíblico, aparece pela primeira vez em I Reis 16, quando ela se casa com Acabe, rei de Israel. Jezabel era filha de Etbaal, o rei e sumo sacerdote do culto a Baal sidônios. O culto a Baal foi intimamente associado à sensualidade obsessiva e atos sexuais, muitas vezes envolvidos. Jezebel, como filha deste reino perverso, foi criado em um ambiente onde o sexo era um caminho para o poder e influência.

Acabe, rei de Israel, foi completamente subjugado e dominado por Jezebel. Jezabel, então, introduziu o culto de Ashtoroth em Israel. Esta deusa, representada na cultura cananéia pela lua, era uma deusa sedenta de poder do amor e da sensualidade. Sacerdotisa-prostitutas encheram seus santuários e atendiam seus adoradores. A atração dessas sacerdotisas, sempre disponíveis para encontros eróticos era mais do que os homens de Israel podiam resistir. Por influência de Jezabel, 10 milhões de israelitas deixaram a adoração a Deus para Baal e Ashtoroth. Apenas 7.000 pessoas em todo o país não foram seduzidos por seu controle.


As características do Espírito de Jezabel

O espírito de Jezabel busca o controle através pela manipulação. Ele tem um profundo ódio pela autoridade espiritual verdadeira, e utiliza a pressão emocional, a feitiçaria e sensualidade obsessiva em sua busca de poder. Também usa a persuasão sutil para ganhar influência e chegar perto de quem está controlado. Em seguida, usa essa posição para obter o dominio gradualmente.

Em hebraico, o nome Jezabel significa literalmente "sem coabitação". Ela não vai viver ou "coabitar" com aqueles que ela não pode dominar e controlar. Controle é o que Jezabel quer mais do que qualquer coisa. Mesmo quando Jezabel parece ser submissa, é geralmente de um plano cuidadosamente forjado para ganhar influência.

Apesar de ser comum para se referir a Jezabel como "ela", é óbvio que devemos concluir que como um espírito, Jezebel é gênero neutro. Jezabel certamente tem tantos escravos como escravas. No entanto, desde Jezebel inicialmente tende a estabelecer o controle sem o uso real da força física, ela é mais facilmente associada com técnicas clássicas de persuasão femininos.

Jezabel gosta de aparecer próximo aos líderes, e usar a sua influência. Ela gosta de usar o poder e a influência de outros para alcançar seus objetivos e controlar seu ambiente. Em 1 Reis 21:08 lemos "Jezabel escreveu cartas em nome de Acabe e as selou com o seu selo, e os enviou aos anciãos e nobres da cidade." Isso é típico de Jezabel. Ela prefere manter-se escondido no fundo, enquanto ela manipula situações e líderes.

Jezebel é muitas vezes associado ao prazer prazer, especialmente sexual. Ela vai usar qualquer forma de sensualidade à sua disposição para ganhar influência e controle. Jezabel usa a sensualidade, mas não se enganem, Jezebel está buscando CONTROLE. Concupiscências são apenas ferramentas utilizadas para enfraquecer os outros para que ela para realizar seu objetivo de controle. Em muitos casos, o sexo não está envolvido.

Maior inimigo de Jezabel é verdadeira autoridade espiritual. Como Jezabel contra Elias e Herodias oposição João Batista, então Jezabel hoje opõe autoridade justa. Em seu coração, ela despreza toda a autoridade moral. .


Jezebel em Sociedade

Na América de hoje, Jezabel é o espírito, arrogante com raiva por trás do aborto, gritando "É a minha escolha! Não me diga o que fazer!" Ela habilmente manipulado debate e se posicionou atrás de assentos do poder.

Ela é o poder por trás do renascimento da feitiçaria em nossa cultura. Ela chama a milhões de adolescentes através da música popular e cinema, dizendo-lhes que a bruxaria nova era irá dar-lhes poder. Ela é a força por trás das linhas directas psíquicas, que controlam e manipulam milhões.Ela é também o espírito no centro de Hollywood. Jezabel é a razão para que muitos homossexuais são atraídos para a indústria do entretenimento, desesperadamente buscando o reconhecimento e aceitação.

Em uma tentativa de enfraquecer a liderança justa, Jezabel é a força que atrai milhões de homens cristãos em horas a frente da televisão. Ela está por trás da explosão da pornografia na Internet. Hoje, ela está atraindo homens de Deus em vidas secretas de escravidão e condenação. Alguns líderes, homens outrora poderosos de oração, são agora muito envergonhado de ainda esgueirar-se para a sala do trono. Eles são martirizados pela condenação. Eles têm sido reduzidos a ser eunucos meros Jezebel. Homens com a convocação de David se tornaram Acabes algemados pelo prazer. (Deus ainda quer libertar estes!)


Jezabel na Igreja



Jezabel não só é visível na sociedade. Jezebel é bastante em casa, no banco da igreja.

1 Reis 21:09 Nessas cartas, ela escreveu: "Proclamar a um dia de jejum e Nabote assento em um lugar de destaque entre as pessoas, mas dois canalhas assento em frente a ele e tê-los testemunhar que ele amaldiçoou a Deus e ao rei Então tomar.. lo e apedrejá-lo até a morte. "

Com um coração de gelo, Jezebel ganhou o controle da vinha de Nabote sob o pretexto de um jejum. De repente, ela tem religião quando ela precisava.

Lembre-se da mulher adúltera em Provérbios 7? Ela atraiu o primeiro homem insensato jovem com "Eu acabei de fazer oferendas a minha paz, e vim procurando por você." Ela fez certo de que ele sabia que ela era uma boa mulher religiosa antes que ela o seduziu! Da mesma forma, Jezebel não a deixa o pecado mesmo estando na igreja.

Jezabel muitas vezes se manifesta em pessoas muito "espirituais". Na Igreja, Jezebel vai primeiro tentar chegar perto do pastor ou outros líderes com lisonjas. Ela vai tentar ganhar a sua confiança. Ela "se diz profetisa" e, muitas vezes manipula os outros com sua espiritualidade. Suas profundas "verdades" geralmente resultam em condenação e encargos para aqueles sob seus cuidados.

Se o pastor, como Elias, vê e se opõe a seus enganos, ele vai encontrar-se em luta por sua vida! Ele pode encontrar-se desempregado! Muitos homens de Deus encontram em sua liderança este domínio.
Enquanto Jezabel muitas vezes alega ter mensagens inspiradas, (ela "se diz profetisa" de acordo com Apocalipse 2:20), ela geralmente desencoraja outras vozes proféticas a menos que estejam sob seu controle. Ela vai tentar levar os líderes a desconfiar dos verdadeiros mensageiros proféticos, que carregam o testemunho de Jesus (Apocalipse 19:10)

Este mesmo espírito de controle pode manifestar-se em formas muito diferentes, mesmo opostas. Por exemplo, um controlador, super-espiritual, será muitas vezes horrorizados quando sua filha cresce para ser sexualmente imoral. Mal sabe ela que ela lançou esse espírito muito na vida de seu filho!


Depressão demoníaca e perda de visão

Por sete anos, Deus cuidadosamente protegeu Elias. Deus o alimentou no deserto. Quando os exércitos de Acabe tentou matar Elias, eles não foram capazes de colocar um dedo sobre ele.
Finalmente, em um confronto no Monte. Carmelo, Elias fez cair fogo do céu e estrondosamente derrotou e matou os sacerdotes de Baal. Todo o Israel caiu a seus pés em arrependimento, adorando o Deus verdadeiro. Elias era o homem da hora. Ele foi inocentado, vitorioso, e claramente no comando.No entanto, quando Jezabel mandou Elias uma única ameaça, ele de repente virou covarde e fugiu para o deserto. Ansioso, deprimido e infeliz, ele implorou a Deus para matá-lo!

Pense sobre isso. Não faz sentido. Elias usufruiu de proteção sobrenatural por sete anos. Ele observou fogo cair do céu e derrotar seus inimigos, mas quando uma mulher sozinha o ameaçou uma vez, ele perdeu todos os fragmentos de visão e fugiu. Ele gemia de auto-piedade e depressão, implorando a Deus para matá-lo!

Este é um grande exemplo de Jezabel demoníaco poderoso "unção" para intimidar, criar medo e levar os homens de Deus a fugirem. Jezebel rouba sua visão. Jezebel vai mesmo fazer você ficar deprimido e ansioso mesmo quando não há nada de muito diferente em suas circunstâncias. Se houver circunstâncias difíceis, esse espírito vai dizer que eles são insuperáveis, impossível, e avassaladora. Jezebel vai fazer você se sentir como se estivesse morrendo, quando na realidade, você é um homem de Deus.

Jezabel vai atacar os principais líderes em sua área por meio de intimidação. Aqueles sob ataque pode despertar uma manhã para descobrir que é preciso esforço para respirar. Toda a alegria parece afastar-se. A vida espiritual parece irrelevante. Vozes demoníacas vai ecoar em suas mentes "que há algo de errado com você!" Eles podem de repente encontrar-se em ansiedade irracional, temendo a tragédia ou a morte. Muito do que é chamado de "depressão" no ministério é simplesmente Jezebel!Jezabel quer paralisar de medo, condenação, depressão, apatia ou o que for preciso, até que se retirar. A única resposta para aqueles sob ataque de Jezabel é a perseverança na batalha. Temos de nos manter no curso, não importa quanto tempo leva!

Isto é Guerra

A guerra continua até hoje entre Jezabel e Elias. Como todas as guerras, há vítimas. Líderes às vezes caem. Soldados às vezes se escondem. Jezabel quer manter a igreja dentro de seus limites atuais. Ela não quer ver a igreja se expandir.

Uma vitória de Jezabel - O Exemplo de Gales

O grande avivamento galês de 1904 é um exemplo brilhante de um verdadeiro movimento de Deus. Ele tem sido chamado de "Pentecostes maior do que Pentecostes". Infelizmente, a morte do renascimento é também um excelente exemplo de como funciona o ataque Jezabel contra a igreja.

Em apenas dois anos, mais de 100.000 pessoas foram salvas. A sociedade foi revolucionada. Cidades inteiras não resgistraram nenhuma prisão por mais de um ano. Os departamentos de polícia foram obrigados a demitir funcionários ociosos. Equipes esportivas profissionais dissolvida porque ninguém estava disposto a perder a igreja para ir a um jogo. Cultos ocorriam praticamente todo o dia e houve manifestações da presença de Deus e poder.

Quando Deus começa uma obra, ele geralmente começa com um homem. Durante o reavivamento galês que o homem era Evans Roberts. Evans tinha apenas 26 anos na época. A maioria de seus líderes estavam apenas no final da adolescência e juventude. Evans estava profundamente dedicado ao Senhor, ea sua devoção a esperar no Senhor lançou uma chuva de bênçãos que era uma maravilha para a Igreja. Pastores e líderes de todo o mundo transmitido ao País de Gales para contemplá-la.

Muitas pessoassurgiram nesta época. Entre estes estava uma bem-à-mulher chamada Jessie Penn-Lewis. Durante anos Penn-Lewis tinha se considerava um professor de Bíblia, mas ela nunca tinha encontrado uma ampla aceitação por seus ensinamentos. Ela tinha sido amplamente rejeitada ou ignorada pela maioria dos líderes da igreja no País de Gales. Na primeira, Jessie Penn-Lewis apareceu como um amiga e financiador de Evans Roberts. Ela ganhou sua confiança, e começou a falar em sua vida.

Amigos de longa data de Evans Roberts expressaram preocupações pois ele começou a se isolar, mas Roberts confiava Penn-Lewis completamente.

Sra. Penn-Lewis começou a expressar sua "preocupação" com Evans que, com grande sucesso o movimento, a glória talvez estivesse indo pra Evans Roberts, em vez de ser para Deus. O pensamento de roubar a glória de Deus horrorizou o sincero jovem. Ele começou a pensar que, talvez, ele devesse dar um tempo. Penn-Lewis Evans convenceu Roberts a retirar se do ministério público, e se mudar para a casa dela.


Evans Roberts nunca mais voltou para o ministério


. O renascimento galês terminou rapidamente e em silêncio.

Depois de um curto período de tempo na casa de Penn-Lewis, Evans Roberts começou a ter graves crises de depressão. Muitas vezes, ele era incapaz de sair da cama por dias em um tempo. Ele parecia nervoso e ansioso. Pelos padrões de hoje ele estava em depressão clínica grave.

Enquanto isso, Penn-Lewis começou a escrever artigos e cartas em nome de Evans Roberts, e em seu nome. Estes foram publicados em ambos Roberts e nome de Penn-Lewis, e, eventualmente, em seu nome sozinho. De acordo com muitos ex-colaboradores próximos de Evans Roberts, algumas das obras atribuídas a ele não poderia ter sua aprovação. Algumas publicações foram muito críticos em relação a outros movimentos, especialmente os pentecostais emergentes. Infelizmente, poucas pessoas foram capazes de ver ou falar com Evans Roberts. Ele foi mantido guardado na casa de Penn-Lewis. Ele estava completamente dominado.

Evans Roberts passou muitos anos sombrios da depressão na casa de Jezabel. Felizmente, ele finalmente rompeu todos os laços com Penn-Lewis, mas não até que sua saúde estava totalmente afetada e seu ministério apenas uma sombra de sua antiga glória.

Evans Roberts fez contribuições em dois anos de ministério. Sua memória deve ser honrada. No entanto, ele é uma triste lembrança do velho provérbio "Idade e traição sempre derrotar juventude e entusiasmo." Um renascimento que em 24 meses viu 100.000 salvações e uma glória maior do que alguns chamaram de Pentecostes, foi destruída por um único servo inconsciente de Jezebel, buscando o controle, a fim de obter o reconhecimento e aceitação.

Destronando Jezebel

Primeiro, temos de nos livrar de de Jezebel. Não podemos expulsar a luxúria quando abrigar luxúria em nossas vidas. Nós não podemos derrubar um espírito de controle, se usarmos a manipulação e hype para controlar nossas congregações. Devemos examinar nossos próprios caminhos, e se arrependam de Jezabel.

Em segundo lugar, é preciso ter um Jeú. Embora Elias fosse inimigo de Jezabel, levou Jeú a acabar com Jezabel.

Jeú não mostrou misericórdia para Jezebel. Quando ele se aproximou Jezreel aqueles que viram o seu carro notou que ele "anda furiosamente" (2 Reis 9:20) Quando os outros ofereceram paz e compromisso, Jeú respondeu: "Como pode haver paz enquanto as prostituições e bruxarias de Jezabel são muitos?" (2 Reis 9:22)

Jeú não descansaria até que Jezebel estivesse morta. Seus prazeres não poderia atraí-lo. Suas ameaças não o deteve. Ele não iria tolerar Jezabel.

Jesus diz que também não pode tolerar Jezabel. (Apocalipse 2:20) Temos de aprender a força profética da palavra "Não!" Devemos dar nenhum motivo!

Quando Jezabel tentou cativar Jeú, ele nem sequer se permitir ser arrastado para conversar com ela. Em vez disso, ele pediu que seus eunucos para lançar-la a partir de sua varanda. Aqueles com a Jeú unção vai chamar a escravos emasculados de Jezebel, e eles também irá lançar seu baixo!


NÃO DEVEMOS TOLERAR JEZABEL!!!!!!

Perguntas que Deus fará a você

Deus não vai perguntar que tipo de carro você costumava dirigir...
Mas vai perguntar quantas pessoas necessitando de ajuda você transportou.

 
Deus não vai perguntar qual o tamanho da sua casa...
Mas vai perguntar quantas pessoas você abrigou nela.

 
Deus não vai fazer perguntas sobre as roupas do seu armário...
Mas vai perguntar quantas pessoas você ajudou a vestir.

 
Deus não vai perguntar o montante de seus bens materiais...
Mas vai perguntar em que medida eles ditaram sua vida.

 
Deus não vai perguntar qual foi o seu maior salário...
Mas vai perguntar se você comprometeu o seu caráter para obtê-lo.

 
Deus não vai perguntar quantas promoções você recebeu...
Mas vai perguntar de que forma você promoveu os outros.

 
Deus não vai perguntar qual foi o título do cargo que você ocupava...
Mas vai perguntar se você desempenhou o seu trabalho com o melhor de suas habilidades.

 
Deus não vai perguntar quantos amigos você teve...
Mas vai perguntar para quantas pessoas você foi amigo.

 
Deus não vai perguntar o que você fez para proteger seus direitos...
Mas vai perguntar o que você fez para garantir os direitos dos outros.

 
Deus não vai perguntar em que bairro você morou...
Mas vai perguntar como você tratou seus vizinhos.

 
Deus não vai perguntar quantos diplomas você conquistou...
Mas vai perguntar como você usou seu conhecimento para o bem comum.

 
Deus não vai perguntar quantos hectares tinha sua propriedade...
Mas vai perguntar se você ajudou a proteger o meio-ambiente.

 
Deus não vai perguntar quantas pessoas você atraiu para a igreja...
Mas vai perguntar como você influenciou o Mundo à sua volta.

 
Deus não vai perguntar que herança você deixou para seus filhos...
Mas vai perguntar que legado deixou para as próximas gerações.

 
E eu me pergunto: Que tipo de respostas terei para dar? Talvez Ele nem faça pergunta alguma. Bastaria Seu olhar perscrutante para que todas essas perguntas nos viessem à mente num abrir e piscar de olhos. E você, está pronto pra encontrar-se com Deus?

 
Fonte: Cristianismo Subversivo

Exegese do texto do Filho Pródigo


Este artigo procura fornecer por meio do instrumental exegético e da mediação do conceito de fronteira uma análise do contexto da narrativa parabólica que se encontra no evangelho de Lucas 15. 11-32. Tal parábola evidencia um conflito entre dois grupos em busca da identidade dentro de uma comunidade cristã em Antioquia.

Uma rápida visão acerca da estrutura de Lc 15. 11-32 O trecho de Lc 15. 11-32 apresenta uma parábola dupla, e cada metade tem a sua estrutura própria. A primeira metade encontra-se nos versículos 11-24 e a segunda nos versículos 25-32. As duas partes são semelhantes, mas diferentes. Bailey organiza essa parábola dupla em estrofes que combinam uma com a outra usando paralelismo invertido ou em degrau e outras correspondências semânticas. Dessa forma, a estrutura da primeira metade é a seguinte:

A - Havia um homem que tinha dois filhos

1 Um filho é perdido (v.12)

2 Bens gastos com uma vida cara (v.13)

3 Tudo perdido (v.14)

4 O grande pecado; cuidar de porcos para os gentios (v.15)

5 Total rejeição (v.16)

6 Mudança de mente (v.17)

6’ Arrependimento inicial (v.18-19)

5’ Total aceitação (v.20)

4’ O grande arrependimento (v.21)

3’ Tudo ganho; restaurado a filiação(v.22)

2’ Bens usados na alegre celebração (v.23)

1’ Um filho é achado (v.24).

A segunda metade é uma repetição da primeira. O princípio da inversão é usado outra vez. Vejamos sua estrutura literária.

B - Ora, o filho mais velho estava nos campos

1 Ele vem (v.25, 26)

2 Teu irmão- ileso- uma festa (v.27)

3 Um pai vem para reconciliar (v.28)

4 Queixa I (como me tratas) (v.29)

4’ Queixa II (como tratas a ele) (v.30)

3’ Um pai tenta reconciliar (v.31)

2’ Teu irmão- ileso- uma festa (v.32)

1’ ............................ (faltando)

As ligações entre as estrofes são claras. No centro apoteótico as duas queixas combinam linha a linha em paralelismo em degrau. Na estrofe 3 o pai vem para reconciliar-se, enquanto que na 3’ ouvimos um discurso de reconciliação. A estrofe 2 é
um relatório da festa dado por um rapaz, e em 2’ o pai defende o fato de ter iniciado esses mesmos eventos. O término está faltando: não há estrofe 1’, algo está inacabado.

Não à exclusão
A porção bíblica de Lc 15.11-32 é uma narrativa parabólica. Tal narrativa trata de um acontecimento de caráter único e não costumeiro o qual é narrado pormenorizadamente. Constata-se uma tendência de apresentar os personagens em determinada relação social (estrutura: superior, inferior; ou direito, subalterno), por exemplo, a figura paterna. Com freqüência são apresentados dois grupos, um dos quais é preciso escolher. O seu fundo literário geral é o gênero das fábulas antigas, na medida que se referem as seres humanos. Muitas dessas fábulas começam, como a parábola de Lc 15.11-32, com "havia um homem". As narrativas parabólicas raramente são autônomas com relação ao contexto e tem amiúde função retórica, argumentativa. Para a apreciação sistemática das parábolas, isso acarreta a necessidade de se prevenir contra a tendência de isolá-las de seu contexto. Tal isolamento teria por conseqüência a superestimação do peso teológico da parábola. Trata-se de problemas fundamentais como a riqueza, a compaixão com os irmãos e com o próximo em geral e a justificação da abertura para pecadores e pagãos. E sempre está em jogo a unidade da comunidade. Não se justifica a oposição daqueles que já estão dentro há mais tempo contra a admissão ou equiparação de novatos menos privilegiados.

Situando o evangelho
Não há consenso acerca da autoria, do local da composição e da datação do evangelho de Lucas. Diante da impossibilidade de identificação do autor, o mais sensato seria admitir como Kummel que somente uma coisa se pode afirmar com certeza a respeito da sua autoria: trata-se de um cristão proveniente da gentilidade.m relação ao local de autoria, situo este evangelho na cidade de Antioquia, visto que o Livro de Atos guarda uma forte memória da igreja localizada nesta cidade (Atos 11.19-26; 13.1-3) e também por possuir todos os aspectos de uma cidade fronteiriça. 5 Assim como não há consenso quanto a localização do evangelho de Lucas, também não há quanto a sua datação. Mesters o situa em torno do ano de 85.6 Storniolo entre 80 e 90.7 No entanto, uma posição mais cautelosa nos leva a datá-lo entre os anos 70 e 90.


Entre dois mundos
Herdeiro do pensamento paulino anti-romano, o autor de Lucas inverte a cosmovisão de sua época de que Roma seria o centro do mundo habitado e que a Judéia seria apenas um local desprezível nos confins da terra. Para ele o centro ou a "polis" passara a ser a Judéia em detrimento de Roma (asty). Entre estes dois extremos situava-se a cidade de Antioquia (khora), lugar em que provavelmente foi composta a obra de Lucas-Atos e uma região onde as comunidades eram diásporas e as fronteiras na realidade não imobilizavam, mas, curiosamente eram constantemente atravessadas. A obra de Lucas reflete as características de fronteira fluída desta região. Assim, para o autor de Lucas Jerusalém seria a polis, Antioquia a khora e as regiões do mediterrâneo incluindo Roma a asty.

Em Antioquia se deu a interseção entre o cristianismo judeu e o cristianismo do mediterrâneo. Este encontro não envolveu apenas pessoas como também raças, continentes e culturas. Por ser uma comunidade fora do controle de Jerusalém, a comunidade de Antioquia representava um cristianismo marginal (não oficial) e, por isso, mais aberto ao mundo do que o cristianismo praticado pela comunidade judaico- cristã. Era uma comunidade mista na qual conviviam no mesmo espaço gentios e judeus, ricos e pobres, homens e mulheres. Por conta disso, havia tensões internas e externas que sacudiam o seio desta comunidade. Os conflitos produzidos no interior da comunidade de Antioquia eram o reflexo da elaboração de fronteiras9 entre grupos, principalmente entre o cristianismo judaico e o greco-romano. O evangelho de Lucas é o resultado de um processo sincrético que procura resolver estas constantes tensões.

O conflito na comunidade lucana parece gravitar em torno da aceitação na comunidade de um grupo de pessoas oriundas do mundo gentílico que não cumpriam as exigências das leis de pureza judaicas. Estas leis tinham grande importância porquanto eram símbolos da identidade de grupo dos judeus.10 Após a guerra Judaica e a destruição do templo, o conceito de pureza, que era espacial-geográfico, passa a ser ritual. O conceito de sagrado, que era ligado à terra e ao espaço, passa a se ligar, a práticas rituais ligadas a pureza. Assim, a violência e a exclusão eram dirigidas a todos que não cumpriam os princípios de pureza.11

Em contraste a postura judaica exclusivista, o autor de Lucas nos apresenta parábolas que denunciam tal arbitrariedade e propõe uma inversão da posição dos judeus em relação aos gentios. O cumprimento cego das exigências da lei pelos judeus não alegraria a Deus. A celebração da vinda do reino tomou lugar na participação da mesa de Jesus com os rejeitados, por isso, o zelo excessivo no cumprimento da lei judaica tornou-se uma barreira separando os gentios rejeitados e os judeus contribuindo para ausência deste último grupo na mesa.ejamos, então, o que o texto nos fala.



Pai e filhos (parte I)
15.11-24

A parábola em estudo inicia no v.11 com um "um certo homem" que era pai de dois filhos. Ao introduzir os dois filhos no início do relato, o autor prepara o leitor para o papel que ambos desempenharão na trama.

No verso 12 somos confrontados com o filho mais jovem pedindo sua parte da herança. As leis a respeito de tais transações não são muito claras, porém é bastante claro que a pretensão do filho mais novo era desrespeitosa e irregular. De acordo com a lei mosaica que pode ter sido designada para proteger o direito do irmão mais velho contra o favorecimento do filho mais novo, o irmão mais velho tinha direito ao dobro da herança (Dt 21.17). Segundo J. Jeremias havia duas formas de transmissão de posse de pai para filho: por testamento ou por doação entre vivos. Neste último o interessado recebia imediatamente o capital e somente depois da morte do pai recebia o gozo do uso. O filho recebia o direito de posse, seu pai não podia vender os campos, e não o direito de dispor, se o filho vendesse a propriedade, o comprador tomaria posse somente depois da morte do pai. Portanto, o gozo do uso ficava com o pai até a sua morte.13

Apesar dessas provisões Sirach, um sábio judeu (190 a. C.) previne contra a prática repartir a herança enquanto o pai ainda está vivo ligando isto a questão da honra do pai.
14 Isto nos levanta a suspeita de que tal prática seria comum. No entanto Bailey em sua analise cultural do Oriente Médio demonstra que tal prática era algo irregular ao extremo. Ele admite que o texto de Sirach não demonstra que o procedimento era comum. Antes, reflete a postura predominante da comunidade. Além disso, o texto de Sirach apresenta o pai distribuindo uma herança e não um filho pedindo por ela. De fato, o filho mais novo desejava a morte do pai, porquanto a noção de passar uma herança enquanto alguém estava em boa saúde era algo impensável.[O filho mais novo estava quebrando os laços familiares e tratando o seu pai como se estivera morto. Assim sendo, a resposta do pai no v.12b é muito apropriada, "e ele lhes dividiu a vida


Dividir a herança enquanto o pai estivesse vivo era um grande insulto e o irmão mais velho deveria recusar a petição de seu irmão e intervir como um conciliador. Por sua vez, o pai cede ao filho a posse e a disposição dos bens demonstrando um ato de amor sem precedente que dá liberdade até para rejeitar a pessoa que ama enquanto o filho mais velho aceita silenciosamente sua parte negando-se a desempenhar o seu papel de conciliador deixando evidente que havia problemas no seu relacionamento tanto com seu pai quanto com seu irmão. Ambos os filhos fracassaram na tentativa de viverem juntos, em unidade com seu pai. 17

A ação do filho mais jovem relata seu distanciamento e alienação progressiva de sua família, má administração de sua herança e decadência em pobreza e privação. O v.13 nos informa primeiramente que ele ajuntou
seus bens e partiu para uma terra distante cw,ran makra.n19.. A fim de entendermos este termo é necessário que haja uma compreensão do que viria a ser uma polis grega. Para Chevitarese, a polis era um espaço territorial urbano marcado pela ação e tensão sociopolítica. Apresentava posições marcadamente conservadoras baseadas em relações fundadas nos valores de honra e vergonha. A polis também possuía uma Khora que era sua zona rural a qual fazia fronteira com a asty ou terras marginais. Esta área por causa da imprecisão fronteiriça era um lugar de intensas disputas e um lugar onde as fronteiras eram fluídas.20

Ao contrário da polis, nesta zona fronteiriça as posições não eram conservadoras, porquanto refletiam a interação vivida com as outras terras marginais. Nesta zona fronteiriça havia espaço para a ação no manejo da cultura;

Para o autor de Lucas esta "terra distante" representava uma terra gentílica, a própria Antioquia, por ser uma cidade fronteiriça. Além disso, representava a alienação do filho mais novo de sua família. J. Jeremias demonstra que não havia nada de errado com a emigração no primeiro século, devido a fome freqüente na palestina e as condições de vida mais favoráveis nas grandes cidades comerciais, muitas pessoas mudaram-se para o exterior.


Em segundo lugar, o v.13 nos informa que ele gasta rapidamente sua herança "vivendo dissolutamente". Ademais, o começo de uma grande fome levou o jovem a enfrentar grave necessidade.

Finalmente no v.15, sem o apoio da família, ele procura trabalho com um cidadão local. Trabalhar para um gentio era algo proibido para um judeu (At 10.28), um fato exemplificado pela sua baixa consideração pelos coletores de impostos (Lc 15.1). Desesperado, o jovem aceita alimentar os porcos, animal considerado impuro e, por isso, um trabalho degradante para um judeu (Lev 11.7; Dt 14.8; 1 Mac 1.47). Portanto, esse rapaz se viu forçado a romper com a tradicional prática e vida judaica (sábado, etc.).24

O v.16 retrata de forma dramática a completa queda e a desesperada necessidade enfrentada pelo filho mais novo, o fato de ninguém lhe dar comida o levou a desejar s
atisfazer-se com alfarrobas que os porcos comiam. A necessidade de ter o que comer fez com que o filho mais novo perdesse a sua dignidade e recebesse tratamento pior do que os porcos. Essa era a condição de vida de milhões de pessoas no império. Segundo Crossan, no Mediterrâneo oriental, a luta pelo controle do pouco excedente agrário existente era, em geral, mais impiedosa nos limites das grandes cidades. As vítimas eram, de maneira quase inevitável, os camponeses; e o resultado era a condição crônica de escassez e desnutrição, sempre prestes a se transformar em fome e epidemia. Se existia, a abundância só se encontrava entre os ricos e seus clientes nas cidades. É provável que neste ponto da parábola, o autor faz uma crítica ao sistema econômico greco-romano que favorecia uma pequena elite em detrimento da grande maioria da população que vivia na miséria.
Não há consenso quanto ao que realmente são estas alfarrobas, no entanto, Bailey sugere que seja simplesmente um arbusto no qual os porcos podem cavoucar a terra procurando as suas bagas. Elas podem ser comidas pelo seres humanos, mas é amarga e não tem valor nutritivo. O pródigo não conseguiu encher o estômago com elas.





No v.17 através de um solilóquio, um dispositivo narrativo comum nas parábolas lucanas, podemos ver diretamente o coração do personagem (ex. Lc 12.17-19). Assim, o rapaz repensa a sua situação, "cai em si" e percebe que é melhor voltar para casa. Porquanto, na casa de seu pai até mesmo os trabalhadores mi,sqioi tinham abundância de comida. Para Jeremias a expressão "e caindo em si" eivj e`auto.n de. evlqw.n tanto em hebraico como em aramaico aponta para o significado de "converter-se".27 Aqui a fome do rapaz estimula o arrependimento. Não existe uma dicotomia entre fome e arrependimento. No entanto, existe uma tensão no entendimento representado nas três parábolas de Lucas 15. Nas duas primeiras parábolas, a ovelha e a moeda são simplesmente encontradas, elas não desempenham um papel ativo. Porém, na parábola ora estudada o filho realiza o movimento inicial e é incondicionalmente recebido pelo seu pai.

O monólogo prossegue no v.18, o rapaz resolve despertar da sua letargia e desespero, isto fica evidente pela expressão "levantar-me-ei e irei" avnasta.j poreu,somai. A frase "pequei contra o céu e contra ti" h[marton eivj to.n ouvrano.n kai. evnw,pio,n sou 10

(revela a percepção de que o erro cometido não era apenas contra o seu pai pois ele havia violado o quinto mandamento (Dt 5.16).

O rapaz finaliza seu pensamento no v.19, aqui dominado pela vergonha ele não se vê no direito de ser restaurado como filho e sim como "um dos trabalhadores assalariados"
e[na tw/n misqi,wn de seu pai. Sendo assim, no v.20, ele decide levantar e voltar para seu pai. Aqui o ponto de vista muda do filho para o pai.

Ao avistar seu filho, "porém ainda distante" Eti de. auvtou/ makra.n avpe,contoj, o pai não se contenta em esperar passivamente, ele corre para encontrá-lo e o abraça calorosamente. Observe que o pai vai ao encontro do filho enquanto estava ainda distante, isto é, na Khora e não na polis. A reconciliação não se dá na polis e sim na Khora. Na antiga Palestina, o fato de um homem correr era visto como inconveniente ou como uma perda de dignidade.28 O pai estava preparado a violar tradições para reconciliar e dar boas vindas ao seu filho que se encontrava perdido.

28 The New Interpret’s Bible, p. 302.

29 Cf. BAILEY, As parabolas de Lucas, p. 230.

O caráter do pai é definido pelas expressões "teve compaixão" evsplagcni,sqh, "inclinou sobre seu pescoço" evpe,pesen evpi. to.n tra,chlon e "beijou repetidamente" katefi,lhsen refletindo, assim, seu coração compassivo, uma compaixão que precede a confissão do seu filho. A atitude amorosa do pai ao abraçar e beijar seu filho considerado imundo, e, conseqüentemente morto pelas leis de pureza judaicas, era uma crítica contra a postura judaica de violência e exclusão dirigida aqueles que não se enquadravam nas regras de pureza. O perdão imerecido era o oposto do que era esperado. Em vez de provar a hostilidade, o rapaz entra na aldeia sob o cuidado e proteção do pai.29

A seguir, o pai passa instrução para que seus servos peguem a melhor túnica, um anel e sandálias para seu filho. É um sinal para o resto da aldeia de que o rapaz será tratado como filho novamente (Gen 41.42; 1 Mac 6.14-15). Ele é um homem livre, um convidado honrado, um filho. A demonstração do extremo amor do pai continua (v.23). 11

O pedido para matar um novilho cevado30 representa o clímax de sua hospitalidade. Para Greg Forbes o verbo "regozijemo-nos" euvfranqw/men que encerra este versículo é de extrema importância, pois:

30 Cf. FORBES, Greg. Repentance and Conflict in the Parable of the Lost Son (Luke 15.11-32), in: Journal of the Evangelical Theological Society, n.42, 1999, p. 221. mo,scon era um animal novo ou um novilho e ser engordado siteuto,n seria um animal mantido para ocasião especial.

31 Id. Ibid., p. 221.

32 SCOTT, B. B. Hear Then the Parable. Minneapolis, Fortress, p. 119.

33 É provável que a palavra pai,dwn signifique "menino" ao invés de "servo" porquanto ele responde "seu pai" em vez de "meu mestre".

"aponta para uma celebração comunal, um tema que conecta cada uma das três parábolas deste capítulo. O banquete serve como uma oportunidade para reconciliar o rapaz com a aldeia inteira. Além do que, a celebração e a imagem festiva contrasta com as alfarrobas e ajuda a sublinhar as extremidades do perdido-achado, do pecado-arrependimento e da alienação e restauração. Dando o contexto de perdão-salvação, a imagem aqui pode também carregar ecos do banquete messiânico" ( Lc 13.28-29; 14.15-24).31

As palavras do pai no v.24 traduz o motivo da festa "porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado". O jovem rapaz estava culturalmente e fronteiriçamente "morto" nekro.j e completamente "perdido" avpolwlw.j, portanto, separado da comunhão da sua família e do amor de seu pai. No entanto, esta situação aparentemente irreversível se reverteu. Por isso, a celebração inicia.

Pai e filhos (parte II)

15.25-32.

A celebração serve como estímulo para a segunda parte da parábola. No verso 25, a cena muda para o filho mais velho que está voltando de seu trabalho no campo. Esta imagem evoca o quadro de um filho ainda em casa, porém distante de seu pai.32 Ao se aproximar ele ouve a celebração, música sumfwni,aj e dança corw/n. Ele chama um dos meninos33 e pergunta o que estava acontecendo (v.26). 12

A resposta segue no v.27 "teu irmão está presente, e matou teu pai o novilho cevado, porque em boa saúde o recebeu de volta". No v.28 o filho mais velho irado, pelo rápido perdão oferecido ao seu irmão, recusa entrar na casa para participar da celebração. O imperfeito "queria" h;qelen capta sua persistente recusa em entrar para juntar-se na celebração.34 Novamente a trama é caracterizada pela distância e separação entre o filho e o pai. Bailey observa que a ira e a recusa de participar da celebração eram insultos profundos contra o pai diante do público.35 Contudo, o paralelismo continua quando mais uma vez o pai se humilha ao sair de sua casa para se encontrar com seu filho, uma demonstração de amor inesperado. Em vez de censurar seu filho ele suplica para que entre. O imperfeito "continuava a rogar" pareka,lei corresponde a h;qelen. A recusa persistente do filho vem ao encontro da persistente suplica do pai.36

34 Cf. FORBES, Repentance and Conflict in Parable of the Lost Son, p. 222.

35 BAILEY, As parabolas de Lucas, p. 242.

36 Cf. FORBES, Repentance and Conflict in Parable of the Lost Son, p. 222.

37 The New Interpret’s Bible, p. 303.

38 THAYER, Joseph Henri. A Greek-English Lexicon of the New Testament. International Bible Translator, 1998, edição eletrônica,verbete 4349.

Aqui no verso 29 o filho mais velho começa a dar forma a sua ira. Em todo o tempo o irmão mais novo se dirige a seu pai respeitosamente "Pai", mesmo em seu solilóquio (v. 12, 18, 21). Entretanto, seu irmão mais velho recusa em reconhecer sua relação com o seu pai e com o seu irmão. Ele abre seu discurso com a palavra "veja" ivdou. em vez de "Pai" path.r.37 Mesmo assim, o irmão mais velho julgava-se um filho modelo e servidor de seu pai. O uso do verbo "sirvo" dou,louj demonstra que ele não entendia o que significava a relação entre pai e filho. De fato, ambos os filhos acreditavam de forma errônea que o seu pai os aceitariam por agirem como servos. A ironia lucana transparece na continuação do discurso do filho mais velho.

Pouco depois de envergonhar seu pai em público, ele alega que nunca havia desobedecido uma só das ordens de seu pai. Indignado, no v.30, ele dirige suas criticas a seu irmão referindo-se de forma depreciativa "este teu filho" ui`o,j sou ou-toj preocupando-se apenas com a propriedade desperdiçada com as meretrizes. A palavra "meretrizes" pornw/n metaforicamente pode assumir o significado de "idolatria (Ap 17.5)"38. Talvez esta palavra foi inserida aqui não simplesmente para denotar "uma 13

mulher que vende seu corpo", mas, faz menção de forma pejorativa a nação gentílica considerada idolatra e impura pelos judeus. Em sua fala final o filho mais velho novamente demonstra a sua decepção por seu pai ter matado um novilho cevado para festejar o retorno de seu irmão, na sua concepção, este ato demonstrara certa preferência do pai pelo seu filho mais novo.

Embora o filho mais velho não tenha se dirigido ao pai de forma respeitosa "Pai", a primeira palavra do pai "filho"
te,knon demonstra todo o seu afeto por ele (v.31). A sentença quiástica sublinha o relacionamento entre eles: "tu sempre comigo estas e tudo o que é meu é teu." Com efeito, o pai relembra ao filho mais velho que por direito tudo lhe pertence porquanto seu irmão mais novo já havia recebido a sua parte na herança. As ações do pai demonstram o seu amor por ambos os filhos. O novilho cevado não foi morto porque o pai tinha alguma preferência pelo filho mais novo, mas porque ele havia retornado com vida (v.32). Neste mesmo verso o pai não está somente justificando a festa, antes está convidando o seu filho mais velho a juntar-se a celebração. Com a frase "esse teu irmão" avdelfo,j sou ou-toj o pai enquadra o filho mais velho na mesma categoria do mais novo, eles são irmãos, e relembra o relacionamento que o filho mais velho teimava ignorar (v.30). O mais velho não tem o direito de fazer distinção. Se ele quer tê-lo como pai é mister que também aceite a seu irmão. A parábola não diz qual foi a resposta final do irmão mais velho. Ela deixa em aberto. Caberia ao leitor da parábola a tarefa de dar a resposta.

Conclusão
Assim sendo, nas entrelinhas de nosso texto podemos vislumbrar lampejos do contexto em que estava inserida uma comunidade cristã fronteiriça. A atitude do pai amoroso, do filho mais novo e do filho mais velho nos remete respectivamente a ação de Deus, da comunidade greco-romana e da comunidade judaica em Antioquia. Ambas as comunidades tinham posições antagônicas acerca da identidade da comunidade cristã. A proposta mais tolerante da comunidade greco-romana entrava em conflito com as leis de pureza dos judeus cristãos, as quais tornavam a comunidade judaica menos flexível a incorporação de gentios. Os judeus cristãos enrijeceram fronteiras geográficas e mentais que os distanciavam da prática da comunhão de mesa com os gentios da 14

comunidade. Eles queriam evitar qualquer processo de assimilação, porquanto correriam o risco de perder a sua própria identidade.39 Devido ao conflito gerado na comunidade de Antioquia, o autor lucano apresenta um projeto audacioso e inclusivo para ambos os grupos. Sua intenção era romper as fronteiras que geravam violência e exclusão. Tanto o filho que estava geograficamente longe de Deus (na asty=mundo greco-romano) quanto o que estava perto (na polis=Jerusalém) desobedeceram ao mandamento divino. O perdão do pai, Deus, seria somente concedido por meio do reconhecimento de tal erro (na Khora=Antioquia) e da comunhão de mesa e, dessa forma, ambos seriam aceitos pelo pai no banquete messiânico.40

39 COMBLIN, José. Atos dos Apóstolos-vol. 1:1-12. Petrópolis, Vozes, 1988, p. 13.

40 Id. Ibid., p. 13.
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