Histórias e Mitologias na Criação da Bíblia
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A formação da Bíblia, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, é um dos processos mais fascinantes e complexos da história religiosa. Ao longo dos séculos, surgiram várias histórias e mitologias em torno da sua criação, canonização e transmissão. Algumas dessas histórias refletiam o desejo de exaltar a santidade das Escrituras, enquanto outras foram frutos de mal-mitosentendidos ou simplificações excessivas. Neste artigo, vamos explorar algumas dessas narrativas e esclarecer o que é mito e o que é realidade sobre a criação da Bíblia.
1. O Mito da Septuaginta Milagrosa
Uma das histórias mais conhecidas na formação da Bíblia é a lenda da Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento. Segundo a tradição judaica e cristã, o rei Ptolemeu II, no século III a.C., convocou 70 (ou 72) estudiosos judeus para traduzirem a Torá (os primeiros cinco livros da Bíblia) do hebraico para o grego. A lenda afirma que os estudiosos trabalharam de forma independente e, após 70 dias, produziram traduções idênticas, sem qualquer erro. Essa narrativa tornou-se amplamente difundida como prova da inspiração divina por trás da tradução.
No entanto, historiadores mostram que essa história é mais uma lenda do que um fato histórico. A tradução da Septuaginta foi um processo muito mais longo e envolveu várias etapas, com diferenças significativas entre manuscritos. Embora a Septuaginta tenha desempenhado um papel fundamental na disseminação das Escrituras entre judeus helenizados e cristãos, seu processo de tradução não foi milagroso, como sugere o mito.
2. O Mito da Canonização Instantânea
Outro mito comum é a ideia de que o cânon — ou seja, a lista dos livros que compõem a Bíblia — foi definido de maneira rápida e definitiva, por meio de um único concílio ou decisão instantânea. Algumas versões populares até sugerem que os livros foram jogados ao chão, e aqueles que não caíram fechados foram incluídos no cânon.
Na verdade, o processo de formação do cânon da Bíblia foi longo e gradual, envolvendo séculos de debates. No caso do Antigo Testamento, o cânon foi desenvolvido ao longo do tempo, tanto no judaísmo quanto entre os primeiros cristãos, com algumas diferenças entre o cânon hebraico e o grego (Septuaginta). O Novo Testamento, por sua vez, começou a ser formado nos primeiros séculos da era cristã, mas só foi consolidado oficialmente no final do século IV, com concílios como os de Hipona (393 d.C.) e Cartago (397 d.C.).
A aceitação dos livros como Escritura sagrada envolveu critérios rigorosos, como a autoria apostólica, o uso nas igrejas cristãs e a conformidade com a doutrina. Alguns livros, como Hebreus e Apocalipse, foram amplamente debatidos antes de serem aceitos. Assim, o processo foi muito mais deliberado e espiritual do que essas lendas populares sugerem.
3. O Mito da Tradução Perfeita da Vulgata
Outro mito envolve a tradução da Bíblia para o latim, conhecida como Vulgata, feita por São Jerônimo no século IV. Algumas histórias populares sugerem que a Vulgata foi inspirada diretamente por Deus e que sua tradução foi perfeita, sem necessidade de correções.
Jerônimo, porém, sabia das dificuldades desse projeto e admitiu que enfrentou desafios ao comparar diferentes manuscritos hebraicos, gregos e latinos. A Vulgata passou por várias revisões ao longo dos séculos. Embora tenha se tornado a tradução oficial da Igreja Católica e sido amplamente reverenciada, sua criação foi um processo humano, sujeito a erros e revisões, como qualquer tradução.
4. O Apocalipse e os Debates sobre sua Inclusão
O livro de Apocalipse (ou Livro de Revelação) também foi alvo de controvérsias. Ao contrário da ideia de que ele foi imediatamente aceito por todas as comunidades cristãs, o Apocalipse foi amplamente debatido antes de ser incluído no Novo Testamento. Algumas igrejas o consideravam problemático devido à sua linguagem simbólica e complexa. Isso levou a uma hesitação sobre sua inclusão no cânon, especialmente nas igrejas orientais.
Eventualmente, o Apocalipse foi aceito, mas apenas após muita discussão e interpretação. O mito de sua aceitação imediata não reflete as nuances históricas e teológicas que rodearam a inclusão desse livro no cânon.
5. A Bíblia como um Texto Imutável
Outro equívoco comum é a crença de que a Bíblia, desde o momento em que foi escrita, permaneceu completamente imutável ao longo dos séculos. A realidade é que o processo de cópia e transmissão dos manuscritos bíblicos envolveu variações e erros, já que, antes da invenção da prensa, as Escrituras eram copiadas manualmente.
Estudiosos da crítica textual comparam milhares de manuscritos antigos para tentar reconstruir o texto original o mais precisamente possível. Embora essas variações não alterem a mensagem geral das Escrituras, mostram que o processo de transmissão foi humano e envolveu alterações ao longo do tempo.
Conclusão
As histórias e mitologias em torno da criação da Bíblia muitas vezes refletem o desejo das comunidades de fé de engrandecer e proteger a santidade das Escrituras. Embora esses mitos possam ser inspiradores, eles não correspondem à realidade histórica. A verdadeira formação da Bíblia foi um processo complexo e gradual, marcado por discernimento cuidadoso, debates teológicos e o trabalho dedicado de líderes religiosos e estudiosos.
Entender a verdadeira história da Bíblia, sem mitos ou distorções, pode aprofundar o apreço pelo texto sagrado. Longe de ser desvalorizada por sua história humana, a Bíblia é um testemunho da persistência da fé e do compromisso das comunidades religiosas em preservar e transmitir a Palavra de Deus. O estudo cuidadoso da história de sua criação só reforça o impacto duradouro das Escrituras na vida espiritual de milhões de pessoas ao longo dos séculos.
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