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Fé que cresce

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  A maturidade espiritual cristã não é medida pela quantidade de conteúdos consumidos, mas pela transformação concreta da vida à luz das Escrituras. Vivemos em uma geração amplamente exposta a devocionais rápidos, frases motivacionais e experiências religiosas intensas, porém muitas vezes desconectadas de arrependimento, obediência e perseverança. O resultado é uma fé verbalmente confiante, mas fragilmente enraizada. O Novo Testamento não trata a vida cristã como um estado emocional a ser mantido, mas como um caminho a ser percorrido com temor, fidelidade e constância. A Escritura apresenta o crescimento espiritual como um processo que envolve confrontação do coração, renovação da mente e submissão progressiva à vontade de Deus. Jesus não convidou discípulos a sentirem algo, mas a segui-lo. Seguir implica renúncia, discernimento, correção e disposição para ser moldado. A maturidade cristã exige que o crente abandone leituras ingênuas da fé, reconheça suas áreas de autoengano e acei...

Azeite que flui do secreto

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  A narrativa que sustenta esta reflexão  encontra-se em 2 Reis 4:1–7 , quando a viúva de um dos filhos dos profetas clama ao profeta Eliseu diante de uma crise extrema. Seu marido havia morrido, as dívidas permaneciam, e seus filhos corriam o risco de serem levados como escravos. Diante da pergunta do profeta — “Que te hei de fazer? Dize-me, que é o que tens em casa?” — ela responde com simplicidade e quase vergonha: “Tua serva não tem nada em casa, senão uma botija de azeite” (2 Rs 4:2). É a partir desse “quase nada” que Deus inicia o milagre. Eliseu então orienta algo aparentemente estranho à lógica humana: “Vai, pede emprestadas vasilhas a todos os teus vizinhos, vasilhas vazias, não poucas. Então entra, e fecha a porta sobre ti e sobre teus filhos, e deita o teu azeite em todas aquelas vasilhas” (2 Rs 4:3–4). O texto faz questão de frisar: vasilhas vazias, e não poucas . Na leitura pastoral, essas vasilhas representam vidas , famílias , filhos , casamentos feridos , pa...

A Santidade que se Aprende no Caminhar Diário

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A santidade cristã não nasce de impulsos ocasionais, mas de uma vida moldada diariamente pela obediência perseverante. As Escrituras ensinam que Deus opera essa transformação ao longo do tempo, enquanto o crente responde com temor e dependência (cf. Fp 2:12–13). Não se trata de alcançar perfeição imediata, mas de seguir uma direção clara e constante: afastar-se do pecado e aproximar-se de Deus. Existe uma diferença decisiva entre desejar santidade e empenhar-se por ela. O desejo pode surgir em momentos de emoção espiritual; o empenho se manifesta nos hábitos mantidos quando não há entusiasmo. A maturidade cristã se constrói nos meios ordinários da graça: leitura diligente da Palavra, oração regular, vigilância sobre pensamentos e atitudes, fidelidade à comunhão da igreja. Esses caminhos antigos, tantas vezes negligenciados, continuam sendo instrumentos eficazes para a formação do caráter. A santidade prática inclui conflito real. A nova vida em Cristo não elimina imediatamente as incl...

Construindo um Legado que Permanece: caráter, tempo e fidelidade diante de Deus

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Viver o presente com intensidade não é incompatível com assumir responsabilidade pelo futuro. A fé cristã, desde o início, sempre compreendeu a vida como uma jornada contínua, cujas escolhas produzem efeitos que ultrapassam o momento imediato. Na Escritura, viver não é apenas existir, mas cooperar conscientemente com aquilo que permanecerá depois de nós. Todo ser humano constrói um legado — pela obediência ou pela omissão, pela fidelidade ou pela negligência. Na perspectiva bíblica, legado não se define por visibilidade ou feitos extraordinários, mas pela formação do caráter. Abraão não construiu sua herança apenas por ter recebido promessas, mas por ter aprendido a caminhar com Deus ao longo de décadas, entre esperas, deslocamentos e renúncias. Seu legado não foi apenas uma terra, mas uma fé transmitida às gerações. A Escritura deixa claro que Deus se importa menos com a rapidez dos resultados e mais com a solidez do que será transmitido. O tempo, nesse processo, não é um obstáculo...

Resenha da obra de Lichale Horton: Bom demais para ser verdade

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 HORTON, Michael. Bom demais para ser verdade: encontrando esperança num mundo de ilusões . São Paulo: Vida Nova, 2010. Nesta obra, Michael Horton examina criticamente o cenário religioso contemporâneo marcado pelo pragmatismo, pelo moralismo terapêutico e pela centralidade do indivíduo. O autor argumenta que grande parte do cristianismo moderno abandonou o evangelho histórico em favor de mensagens utilitaristas, centradas na autoajuda, no sucesso pessoal e na experiência subjetiva. Horton estrutura sua análise demonstrando como a cultura pós-moderna moldou a teologia popular, substituindo categorias bíblicas como pecado, graça, arrependimento e redenção por discursos de autoestima, prosperidade e bem-estar emocional. Para o autor, essa distorção resulta em um “evangelho” que parece atraente, mas que carece do conteúdo redentor da fé cristã histórica. O eixo central da obra é a defesa do evangelho como boa notícia objetiva: a obra consumada de Cristo em favor de pecadores incapa...

Onde está teu coração?

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 Ao longo da história da fé cristã, poucas perguntas foram tão incisivas quanto aquela que convida o ser humano a olhar para dentro e reconhecer sua real condição diante de Deus. Essa pergunta não busca informação, mas consciência. Ela interrompe a rotina, atravessa as justificativas e expõe o lugar onde o coração realmente está. A vida espiritual corre o risco de se tornar mecânica. Práticas religiosas podem continuar, palavras corretas podem ser repetidas, e ainda assim o coração pode estar distante. O exame espiritual sempre foi um exercício valorizado pela fé cristã histórica, não como fonte de culpa constante, mas como caminho de alinhamento. Parar, refletir e reconhecer onde estamos é um ato de honestidade diante de Deus. Essa reflexão exige silêncio. Em um mundo ruidoso e acelerado, o silêncio se tornou raro, mas necessário. É nele que as motivações são reveladas, os afetos são avaliados e as prioridades são expostas. O coração, quando não examinado, tende a se acomodar. Q...

Fidelidade a Deus em Meio ao Mundo

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 Viver no mundo sem pertencer a ele sempre foi um dos maiores desafios da fé cristã. Desde os tempos bíblicos, o povo de Deus aprendeu que a fidelidade não se mede pela distância física da sociedade, mas pela lealdade do coração. A Escritura nunca chamou o crente ao isolamento, mas à distinção. Essa distinção é interior, ética e espiritual. O mundo, entendido como um sistema de valores que ignora ou resiste ao governo de Deus, exerce pressão constante sobre a consciência. Essa pressão se manifesta de muitas formas: normalização do pecado, relativização da verdade, inversão de valores e desprezo pela obediência. O risco não está apenas na oposição aberta, mas na acomodação silenciosa que se disfarça de adaptação. A fidelidade cristã exige discernimento. Nem tudo o que é permitido convém; nem tudo o que é aceito culturalmente edifica espiritualmente. A fé madura aprende a fazer escolhas que nem sempre são compreendidas ou aprovadas. Amar a Deus implica, muitas vezes, dizer não ao q...