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Fé no Cotidiano: Quando o Trabalho se Torna Vocação

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  Desde os tempos mais antigos, o trabalho fez parte da experiência humana. Antes mesmo da queda, o ser humano foi colocado no mundo com a responsabilidade de cultivar, guardar e desenvolver a criação. O trabalho, portanto, não surge como punição, mas como expressão da vocação humana. Ainda assim, ao longo do tempo, criou-se uma separação artificial entre fé e trabalho, como se a vida espiritual estivesse restrita ao culto e a vida profissional pertencesse a um campo neutro ou meramente secular. A tradição cristã sempre ofereceu uma visão mais ampla. A fé histórica compreende que toda a vida é vivida diante de Deus. Não existe espaço verdadeiramente neutro, pois toda realidade está sob sua soberania. Assim, o trabalho cotidiano — seja ele manual, intelectual, doméstico ou profissional — pode e deve ser vivido como expressão de obediência, responsabilidade e serviço. Um dos grandes equívocos modernos é associar vocação apenas a atividades religiosas formais. Essa compreensão empo...

Pensar com Fé: Recuperando a Mente Cristã em Tempos de Superficialidade

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 Ao longo da história cristã, a fé nunca foi compreendida como oposição ao pensamento. Pelo contrário, a tradição cristã sempre reconheceu que amar a Deus envolve também a mente. A fé bíblica não nasce da ignorância, mas da revelação; não se sustenta na superficialidade, mas na verdade. Ainda assim, em muitos contextos atuais, observa-se um empobrecimento do pensamento cristão, como se refletir, estudar e discernir fossem atividades secundárias na vida espiritual. Esse fenômeno não surgiu por acaso. Vivemos em uma cultura marcada pela pressa, pela fragmentação da atenção e pela valorização da experiência imediata. Nesse ambiente, o pensamento profundo parece cansativo, e a reflexão paciente é vista como perda de tempo. A espiritualidade, então, corre o risco de ser reduzida a sentimentos momentâneos, slogans religiosos ou respostas prontas, desconectadas da realidade e da verdade. A fé cristã histórica sempre caminhou em sentido oposto. Desde os primeiros séculos, a igreja compre...

Resenha da obra de James W. Sire: Habitos da mente: pensar criticamente em um mundo pós cristão.

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 SIRE, James W. Hábitos da mente: pensar cristãmente em um mundo pós-cristão . São Paulo: Vida Nova, 2010. Em Hábitos da mente , James W. Sire, filósofo cristão amplamente reconhecido por seus estudos sobre cosmovisão, propõe uma reflexão profunda sobre a formação intelectual do cristão em um contexto cultural marcado pelo relativismo, pelo pragmatismo e pela fragmentação do pensamento. A obra parte do diagnóstico de que o cristianismo contemporâneo, embora ativo no campo da espiritualidade, tem apresentado fragilidade no exercício do pensamento crítico e disciplinado. Sire argumenta que a fé cristã histórica sempre valorizou a mente como instrumento essencial do discipulado. Para o autor, amar a Deus envolve também aprender a pensar de modo coerente, responsável e fiel à verdade. Nesse sentido, o livro apresenta uma crítica ao anti-intelectualismo presente em setores do evangelicalismo moderno, bem como à dicotomia entre fé e razão herdada da modernidade. A obra é estruturada e...

Resenha Obra de Michal Horton: Evangélicos, católicos e os obstáculos à unidade.

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 HORTON, Michael. Evangélicos, católicos e os obstáculos à unidade . São Paulo: Vida Nova, 2017. 64 p. Michael Horton, teólogo reformado e professor de teologia sistemática, é conhecido por sua defesa consistente da ortodoxia protestante histórica. Em Evangélicos, católicos e os obstáculos à unidade , o autor analisa criticamente as tentativas contemporâneas de aproximação entre o evangelicalismo e o catolicismo romano, especialmente à luz de documentos ecumênicos produzidos nas últimas décadas. A obra se insere no debate teológico sobre unidade cristã, verdade doutrinária e identidade confessional. O livro está organizado em seis capítulos, além de uma conclusão e bibliografia. Horton inicia discutindo o escândalo das divisões visíveis no cristianismo e o apelo moderno por unidade, ressaltando que tal unidade não pode ser construída à custa do evangelho. Em seguida, examina se os evangélicos podem ser considerados “católicos” no sentido histórico do termo, argumentando que a Ref...

Unidade Cristã: Quando a Verdade Sustenta a Comunhão

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Ao longo da história da igreja, a unidade sempre foi um anseio profundo do coração cristão. Desde as palavras de Jesus em sua oração sacerdotal — “para que todos sejam um” — até os desafios enfrentados pela igreja contemporânea, a busca pela comunhão permanece central. No entanto, essa unidade nunca foi pensada como algo superficial, meramente institucional ou emocional. A unidade cristã verdadeira sempre esteve ancorada na verdade do evangelho. Nos primeiros séculos, a igreja enfrentou perseguições externas e conflitos internos. Ainda assim, manteve-se unida não por uniformidade cultural ou política, mas por uma fé comum, cuidadosamente preservada. Credos, confissões e concílios surgiram não como instrumentos de divisão, mas como salvaguardas da fé recebida “uma vez por todas”. A unidade era protegida pela clareza doutrinária, não pelo silêncio teológico. Com o passar do tempo, especialmente na modernidade, a ideia de unidade passou a ser reinterpretada. Em um mundo cansado de conf...

O Evangelho Além das Ilusões: Redescobrindo a Boa Notícia que Sustenta a Fé

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  Ao longo das gerações, o evangelho foi proclamado como a mensagem central da fé cristã. Ele não surgiu como uma proposta motivacional nem como um recurso para tornar a vida mais confortável. Desde o início, foi anunciado como uma notícia — não uma técnica, não um método, não um programa de aperfeiçoamento humano. O evangelho sempre tratou de Deus, de sua ação soberana na história e de sua graça oferecida a pessoas incapazes de salvar a si mesmas. Entretanto, em muitos contextos contemporâneos, essa mensagem tem sido gradualmente substituída por discursos que prometem soluções rápidas, sucesso pessoal e bem-estar emocional. O evangelho, assim, passa a ser avaliado não por sua fidelidade, mas por sua utilidade. Quando isso acontece, ele deixa de confrontar e passa apenas a confortar; deixa de transformar e passa a entreter. A fé cristã histórica sempre reconheceu que a boa notícia só é realmente boa quando entendemos a gravidade da condição humana. A Escritura nunca minimizou o pro...

Paixão, Aliança e Misericórdia: Deus nas Histórias da Bíblia

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 A Bíblia não trata os relacionamentos humanos de forma ingênua. Especialmente quando fala de sexualidade, desejo e vínculos conjugais, o texto sagrado recusa simplificações. Em vez de esconder fracassos, expõe conflitos, quedas morais e alianças quebradas. E, justamente nesses cenários delicados, revela algo surpreendente: Deus continua presente, falando, corrigindo e oferecendo restauração. O desejo é apresentado como força poderosa. Pode ser expressão de amor dentro da criação divina, mas também se torna destrutivo quando se afasta dos limites da aliança. As Escrituras não celebram impulsos desordenados; mostram suas consequências. Vergonha, perda, violência emocional e ruptura aparecem como alertas claros de que a sexualidade, quando dissociada da fidelidade, gera dor real. Ao mesmo tempo, a Bíblia não fecha a porta para quem caiu. Em narrativas marcadas por encontros ilícitos, traições e escolhas impulsivas, surge repetidamente o chamado ao arrependimento. A confissão sincer...