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Resenha livro: Nelson’s Old Testament Survey

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  Autor: Paul R. House (edições clássicas também associadas à tradição editorial Thomas Nelson) Ano de publicação (original): 1981 (edições revistas posteriores) Idioma original: Inglês Edição em português (Brasil): Título: Panorama do Antigo Testamento Editora: Vida Ano de publicação em português: 2002 (edições posteriores revisadas) Introdução Nelson’s Old Testament Survey é um manual clássico de introdução ao Antigo Testamento, amplamente utilizado em seminários, institutos bíblicos e cursos de formação cristã ao redor do mundo. A proposta do livro é oferecer uma visão panorâmica, clara e fiel das Escrituras hebraicas, sem perder o compromisso com a inspiração bíblica e a unidade teológica do texto. Diferente de abordagens excessivamente críticas, a obra preserva uma leitura respeitosa e confessional do Antigo Testamento. Estrutura e número de capítulos O livro é organizado em capítulos correspondentes a cada livro do Antigo Testamento , totalizando 39 capítul...

Resenha: A Biblical Theology of the Old Testament

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  Autores: obra coletiva (diversos estudiosos do Antigo Testamento) Ano de publicação (original): 1991 (edições variam conforme organizador) Idioma original: Inglês Edição em português: Não há edição integral publicada oficialmente em português no Brasil Introdução A Biblical Theology of the Old Testament é uma obra acadêmica de referência, concebida para apresentar uma visão abrangente, coerente e biblicamente fundamentada da teologia do Antigo Testamento. Diferentemente de manuais meramente históricos ou críticos, o livro parte do pressuposto de que o Antigo Testamento possui unidade teológica e mensagem viva para a fé do povo de Deus. Seu objetivo é mostrar como os textos veterotestamentários revelam progressivamente o caráter, os propósitos e a ação redentora de Deus. Estrutura e número de capítulos O livro é organizado em capítulos temáticos , escritos por especialistas em diferentes áreas do Antigo Testamento. Os capítulos iniciais tratam das bases metodológicas...

Torre de Babel: Gênesis 11 não condena a tecnologia, mas a pretensão humana

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 O episódio da Torre de Babel, em Gênesis 11 , costuma ser lido de forma superficial: Deus teria se incomodado com uma torre alta demais, ou com o avanço tecnológico de uma civilização antiga. No entanto, a exegese clássica — especialmente como apresentada em Gênesis: Introdução e Comentário — revela algo muito mais profundo e atual: Babel não é o pecado da técnica, mas da autonomia coletiva sem Deus . O texto não critica a capacidade humana de construir, mas a motivação que sustenta essa construção. “Façamos um nome para nós” A chave interpretativa do texto está na própria declaração do povo: “Façamos para nós um nome”. No Antigo Testamento, “nome” está diretamente ligado a: identidade, autoridade, memória, legado. Ao decidir “fazer um nome”, a humanidade expressa o desejo de autofundação . É a tentativa de construir identidade, segurança e permanência sem referência a Deus . Kidner observa que Babel representa a ambição de uma unidade humana baseada no orgul...

Genealogias que pregam: Por que Gênesis não usa listas de nomes por acaso

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Para muitos leitores modernos, as genealogias de Gênesis parecem interrupções cansativas na narrativa: longas listas de nomes e idades que, à primeira vista, pouco acrescentam à história. Contudo, na leitura exegética clássica — como destaca Gênesis: Introdução e Comentário — essas genealogias não são apêndices burocráticos. Elas são teologia condensada em forma de nomes . Nada em Gênesis está ali apenas para “registrar dados”. As genealogias pregam , silenciosamente. Genealogia como estrutura teológica No mundo antigo, genealogias não serviam apenas para traçar descendência biológica. Elas tinham funções claras: preservar identidade, legitimar promessas, mostrar continuidade histórica. Em Gênesis, elas fazem algo ainda mais profundo: costuram a promessa de Deus através do tempo . Entre Adão e Noé, e depois entre Noé e Abraão, o texto constrói uma linha contínua que afirma que a história humana não está à deriva. Kidner observa que as genealogias funcionam como ponte...

A serpente sem nome: Por que Gênesis 3 não chama a serpente de Satanás

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Um detalhe silencioso — e profundamente teológico — do livro de Gênesis é que, no relato da queda, a serpente nunca é identificada explicitamente como Satanás . Em Gênesis 3 , o texto hebraico se limita a chamá-la de nachash , isto é, “serpente”, acrescentando apenas um adjetivo moral: ela era “mais astuta” do que os outros animais do campo. Esse silêncio não é descuido. Ele é intencional . A exegese clássica, especialmente como apresentada em Gênesis: Introdução e Comentário , insiste que Gênesis não inicia a Bíblia com uma demonologia desenvolvida, mas com algo ainda mais sério: a responsabilidade humana diante da tentação . O termo nachash e sua sobriedade A palavra hebraica nachash não carrega, em si mesma, uma identidade demoníaca explícita. Ela designa um animal real, conhecido no mundo antigo, frequentemente associado à astúcia. O texto não diz que a serpente é um demônio disfarçado, nem que Satanás “entra” nela. Esse dado confronta leituras apressadas que importam para Gênesi...

Imagem de Deus

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  Imagem de Deus: não aparência, mas função O sentido original de tselem Elohim em Gênesis 1:26–28 Um dos conceitos mais citados — e, paradoxalmente, mais mal compreendidos — da Bíblia é a afirmação de que o ser humano foi criado “à imagem e semelhança de Deus”. Em leituras modernas, essa expressão costuma ser associada à autoestima, à racionalidade ou até a traços físicos espiritualizados. Contudo, a exegese clássica, especialmente como apresentada em Gênesis: Introdução e Comentário , aponta para um caminho muito mais antigo, sóbrio e teologicamente robusto: imagem não é aparência, é vocação . Gênesis não está descrevendo como Deus é, mas o que o homem foi chamado a fazer . O peso da palavra tselem A palavra hebraica tselem (imagem) aparece em outros contextos do Antigo Testamento e, de forma consistente, está ligada à ideia de representação visível de autoridade . No mundo do Antigo Oriente Próximo, reis colocavam estátuas — suas “imagens” — em territórios distantes para sina...

Gênesis não começa com o tempo, mas com ordem

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O silêncio teológico de Gênesis 1:1–2 e a soberania que antecede tudo Quando abrimos a Bíblia em Gênesis 1:1 , somos tentados a ler o texto com lentes modernas: “No princípio” parece, à primeira vista, uma afirmação científica sobre o início do tempo. No entanto, a tradição exegética clássica — especialmente aquela preservada em Gênesis: Introdução e Comentário — nos convida a algo mais profundo e reverente: Gênesis não se apressa em explicar quando tudo começou, mas se concentra em afirmar quem governa tudo o que existe. Esse detalhe, frequentemente ignorado, é decisivo. O texto bíblico não inaugura a Escritura com cronologias, medições ou disputas cósmicas. Ele começa com autoridade , ordem e intencionalidade . O que o texto hebraico realmente diz O hebraico de Gênesis 1:1–2 apresenta uma estrutura simples e poderosa. Não há descrição de batalha, nem genealogia de deuses, nem personificação do caos. Encontramos, sim, a expressão tohu va-bohu , geralmente traduzida como “sem...

O que significa, de fato, ser perdoado?

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Todos nós falhamos. Ferimos pessoas, erramos o alvo, carregamos culpas antigas e marcas que o tempo não apaga com facilidade. Isso faz parte da condição humana desde o Éden. A pergunta que atravessa as Escrituras, porém, não é se o ser humano cai, mas como relações quebradas podem ser restauradas — com Deus e com o próximo. Quando falamos de perdão, muitas vezes usamos uma linguagem superficial, quase terapêutica. Contudo, no mundo bíblico, especialmente no universo judaico em que Jesus viveu, o perdão é um conceito profundamente relacional, comunitário e histórico . Ele não nasce de abstrações, mas de alianças, rupturas e reconciliações reais. Perdão na Bíblia Hebraica: mais do que “esquecer” Na Bíblia Hebraica, o perdão não é apresentado como um simples “apagar da memória”. O verbo hebraico salach (סָלַח), geralmente traduzido como “perdoar”, aparece quase sempre tendo Deus como sujeito. Ele descreve um ato soberano de misericórdia que remove o peso da culpa , mas não nega a re...

Caim: religioso, não ateu: O pecado “à porta” e a psicologia moral de Gênesis 4

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Entre os relatos mais conhecidos — e, ao mesmo tempo, mais simplificados — de Gênesis está a história de Caim e Abel. Costuma-se resumir o episódio como um conflito entre um homem mau e outro bom, ou como a rejeição de um sacrifício “errado”. No entanto, a leitura exegética clássica revela algo bem mais profundo: Caim não é um incrédulo; ele é religioso . E é justamente isso que torna o texto tão perturbador. Na análise cuidadosa apresentada em Gênesis: Introdução e Comentário , Gênesis 4 se destaca por oferecer uma das descrições mais antigas e sofisticadas da dinâmica interna do pecado — uma verdadeira psicologia moral, rara na literatura antiga. Caim adora — e isso muda tudo O texto afirma que Caim trouxe uma oferta ao Senhor. Não há indício de idolatria, ateísmo ou desprezo explícito por Deus. Ele cultua. Ele se aproxima. Ele oferece. Esse detalhe é crucial. O problema não está na existência do culto, mas na qualidade da obediência . Abel oferece “das primícias”, enquanto Caim ofe...

Quando Deus age no Cotidiano

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Há histórias bíblicas que não se impõem pela grandiosidade dos milagres visíveis, mas pela profundidade silenciosa do agir de Deus no cotidiano. A narrativa de Rute é uma dessas histórias. Ela nos conduz por campos simples, colheitas comuns e decisões aparentemente pequenas, revelando que a redenção divina costuma florescer onde há fidelidade, temor do Senhor e obediência perseverante. Rute surge no cenário bíblico como alguém que perdeu quase tudo: marido, pátria, proteção social e perspectivas futuras. Viúva, estrangeira e sem garantias, ela poderia ter retornado ao conhecido, ao previsível, ao seguro. No entanto, sua escolha foi permanecer. Permanecer com Noemi, permanecer sob o Deus de Israel, permanecer fiel mesmo quando o caminho parecia estreito e incerto. Essa decisão, tomada longe dos holofotes, se torna o ponto inicial de uma grande obra de redenção. A Bíblia nos mostra que Rute não busca atalhos. Ela não exige direitos, não reivindica privilégios, não se coloca acima das e...

A Tripartição da Lei — Moral, Cerimonial e Civil

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  Desde cedo, a Igreja percebeu que a Lei dada por Deus a Moisés não era um bloco uniforme, mas um conjunto de mandamentos com naturezas distintas. Essa distinção — lei moral, lei cerimonial e lei civil — nunca serviu para dividir o coração da Lei, mas para ajudar o povo de Deus a compreender como cada parte se aplica ao longo da história da salvação. Essa visão honrada pelos séculos preserva o respeito pela Antiga Aliança e a continuidade da revelação divina. 1. Lei Moral — O caráter eterno de Deus revelado A Lei Moral expressa os princípios eternos do caráter do Senhor e, por isso, nunca muda . Ela é resumida nos Dez Mandamentos e reafirmada por Cristo nos dois grandes mandamentos: amar a Deus e amar ao próximo. Características: Universal e irrevogável. Aplica-se a todos os povos, em todas as épocas. Revela o padrão de santidade do próprio Deus. Cristo não a aboliu; antes, a cumpriu perfeitamente (Mateus 5:17). A tradição da Igreja sempre viu a Lei Moral c...

O perigo da naturalização do feminicídio

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Ela caiu do alto, não por acidente, mas por um ato de violência fria e calculada. Seu corpo foi esmagado, pisoteado, despedaçado, irreconhecível aos olhos humanos. Mas a tragédia não termina na morte física; o silêncio que a segue, a naturalização de sua dor, é outra forma de brutalidade. Este é o eco de um feminicídio que atravessa séculos, do Antigo Testamento até hoje, quando algumas mortes de mulheres são vistas como “merecidas”, enquanto outras provocam indignação. Jezabel, rainha de Israel, viveu um destino cruel. Traída por aqueles em quem confiava, lançada do alto de seu palácio, esmagada por cavalos, seu corpo foi degradado, e nem a sepultura lhe foi concedida (2Rs 9.33-35). Muitos, inclusive dentro das igrejas, justificam sua morte, lembrando que era idólatra, estrangeira, mulher de poder. Mas ao naturalizar sua morte como consequência de sua vida, ignoramos que Deus não mede o valor de uma vida pela religião, origem ou posição social. Jezabel é reduzida a uma lição moral, q...

A mulher estrangeira como símbolo do perigo espiritual durante o exilio

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A mulher estrangeira como símbolo do perigo espiritual Introdução No período do exílio (século VI a.C.), a queda de Judá foi interpretada como consequência da idolatria. As mulheres estrangeiras passaram a ser retratadas como sedutoras e corruptoras. Dalila – a filisteia sedutora 📖 Juízes 16.16-17 (ARA) – “Dalila o importunava todos os dias... Descobriu-lhe todo o coração.” Origem: Filístia. História: Traiu Sansão, entregando-o aos filisteus. Símbolo: A mulher estrangeira associada à traição e corrupção. Jezabel – a fenícia idólatra 📖 2 Reis 9.33 (ARA) – “Lançai-a daí abaixo... e Jeú a atropelou.” Origem: Sidônia (Fenícia). História: Esposa do rei Acabe, introduziu o culto a Baal. Símbolo: Idolatria e violência contra os profetas do Senhor (1Rs 18.4). Atalia – a usurpadora 📖 2 Reis 11.16 (ARA) – “E lançaram mão dela... ali a mataram.” Origem: Fenícia-Israel (filha de Jezabel). História: Usurpou o trono de Judá e exterminou descendentes reais. Símbolo: Idolatria e destrui...

Habacuque e Zacarias: Vozes Proféticas

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  A Bíblia reúne, no Antigo Testamento, doze livros conhecidos como Profetas Menores . Dois deles se destacam por sua profundidade espiritual, intensidade poética e poder de confrontar e consolar ao mesmo tempo: Habacuque e Zacarias . Apesar de viverem em contextos distintos, ambos os profetas carregam uma mensagem que transcende o tempo: Deus governa a história, mesmo quando ela parece fora de controle. 📖 O Livro de Habacuque 1. Autor e Contexto Habacuque foi um profeta que viveu provavelmente no final do século VII a.C., durante os dias finais do Reino de Judá, pouco antes da invasão babilônica (c. 605–597 a.C.). Ao contrário de outros profetas, ele não fala diretamente ao povo, mas trava um diálogo íntimo com Deus. Seu nome, חֲבַקּוּק (Ḥavaqquq) , pode significar "abraçador" ou "aquele que luta com Deus", o que é adequado à sua postura questionadora. 2. Estrutura e Mensagem O livro é composto por apenas três capítulos , com uma estrutura singular: Cap. ...