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Mostrando postagens com o rótulo Torá

Entendendo Deuteronômio

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Este é um tema essencial para uma compreensão sólida da Bíblia: entender Deuteronômio em seus próprios termos, sem impor leituras harmonizadoras que vêm da tradição posterior . Essa reflexão resgata uma visão tradicional, valorizando o texto em seu contexto original e seu modo clássico de transmissão. 1. O nome e o conceito tradicional: Deuteronômio como "Repetição da Lei" (Mishnê Torá) O nome “Deuteronômio” vem do grego e significa “segunda lei” ou “repetição da lei”. Em hebraico, o livro é chamado Devarim (“palavras”), o que destaca que é uma coletânea de discursos de Moisés. Tradicionalmente, entende-se que Moisés está repetindo e explicando as leis já dadas no Sinai, antes da entrada em Canaã, uma espécie de revisão para o povo. 2. O livro, porém, apresenta-se de forma diferente Deuteronômio não se apresenta como uma repetição nem como uma revisão. Pelo próprio texto, especialmente em Deut 5:1–6:1, Moisés transmite todas as leis que recebeu em Horebe (...

A Lei da Torá sobre as Cidades Refúgios

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Hoje, um senhor bateu ao meu portão vendendo pão de mel — deliciosos, por sinal. Seu rosto trazia marcas profundas, não apenas de tempo, mas de dor. Descobri que, há alguns meses, ele foi atropelado por um motorista embriagado. Sobreviveu, mas carrega sequelas graves: a bacia fraturada, tímpano estourado, dificuldades neurológicas visíveis, e agora precisa urgentemente de uma tomografia craniana. Enquanto ele luta para se sustentar vendendo doces, o motorista responsável está livre. Conseguiu reunir testemunhas que afirmaram que a vítima teria tentado se matar. O processo? Arquivado. Nenhuma responsabilização. Nenhum pedido de perdão. Nenhuma reparação. Mas… e se esse senhor tivesse morrido naquele dia? Será que o motorista responderia por homicídio? E mesmo que respondesse, seria apenas mais um número nas estatísticas de um sistema que pune ou absolve sem transformar? Essa história me fez lembrar de um antigo sistema da Torá — as Cidades de Refúgio . Quando alguém tirava a vida de ...

O Evangelho de Mateus à Luz do Judaísmo do Primeiro Século

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O Evangelho de Mateus se destaca entre os quatro evangelhos canônicos por sua profunda conexão com o contexto judaico do primeiro século. Desde a sua abertura com a genealogia de Yeshua até a narrativa de Sua ressurreição, o autor emprega uma linguagem, símbolos e temas que ressoariam fortemente com os judeus de sua época. Para uma compreensão mais profunda desse evangelho, é essencial considerar sua historicidade, teologia e etimologia, bem como o modo como os leitores originais teriam interpretado sua mensagem. Contexto Histórico e Judaísmo do Primeiro Século Mateus escreveu seu evangelho em um período de intensa agitação sociopolítica e religiosa. O judaísmo do primeiro século era diversificado, composto por grupos como os fariseus, saduceus, essênios e zelotes, cada um com suas próprias interpretações da Torá e expectativas messiânicas. O Templo de Jerusalém ainda estava em pé até sua destruição no ano 70 d.C., e a Lei Mosaica continuava sendo o eixo da vida religiosa e cultural ju...

Paulo, o Judeu

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O apóstolo Paulo é uma das figuras mais influentes do Cristianismo, mas também uma das mais mal compreendidas. Como um judeu fariseu do primeiro século, nascido em Tarso e educado sob os pés de Gamaliel, Paulo viveu em uma encruzilhada de culturas – profundamente enraizado na tradição judaica, mas também imerso no mundo helenístico e romano. Isso influenciou sua forma de pensar e ensinar, especialmente no que diz respeito à relação dos seguidores de Cristo entre as nações com a Torá de Israel. O Contexto Socioeconômico e Cultural do Primeiro Século O Império Romano dominava a maior parte do mundo conhecido, incluindo a Judeia, onde o judaísmo florescia em meio a constantes tensões políticas e religiosas. Havia diferentes correntes dentro do judaísmo: os fariseus, que enfatizavam a Torá oral e escrita; os saduceus, que controlavam o Templo e rejeitavam a tradição oral; e os essênios, que viviam retirados da sociedade. Além disso, havia os judeus da diáspora, como Paulo, que mantinham ...

O Conceito de "Racional" para Judeus, Gentios e Gregos

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  Para entender o que Paulo quis dizer ao falar sobre culto racional ( λογικὴ λατρεία, logikē latreia ) em Romanos 12:1, é essencial analisar como os judeus e os gentios (especialmente os gregos) entendiam a razão ( logos ) e a adoração ( latreia ). 1. O Racional para os Judeus: Sabedoria e Obediência à Lei No pensamento judaico, a racionalidade estava ligada à sabedoria (chochmá, חָכְמָה) e à obediência à Torá . Para os judeus, ser "racional" não significava apenas ter lógica ou argumentação intelectual, mas sim viver de acordo com a vontade de Deus revelada nas Escrituras. A Sabedoria como Caminho Racional O livro de Provérbios ensina que o verdadeiro entendimento vem do temor do Senhor: "O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo é entendimento." (Provérbios 9:10) Ser sábio, para um judeu, significava aplicar a Lei de Deus à vida cotidiana. O Serviço a Deus como Expressão de Razão Para os judeus, a adoração ( latreia ) envolvia sac...

O Sinal na Mão e Frontais dos Olhos em Êxodo

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A interpretação do conceito da "marca da besta" em Apocalipse, quando analisada sob a luz das Escrituras, revela um significado profundo e conectado à tradição judaica. Apocalipse 13:16 descreve a marca sendo colocada na “mão direita ou na testa”, ecoando os mandamentos de Deus registrados na Torá: “Você os atará como um sinal em sua mão e eles serão como frontal entre os seus olhos” (Deuteronômio 6:8; cf. 11:18). Esse versículo é a base para a prática dos Tefilin (תפילין), pequenas caixas contendo textos bíblicos que os judeus colocam na testa e no braço durante as orações. No Novo Testamento grego, os Tefilin são chamados de “filactérios” (φυλακτήρια; Mt 23:5). Até os dias de hoje, judeus observantes mantêm essa prática como um sinal visível de sua aliança com Deus. Em contraste, a "marca da besta" apresentada em Apocalipse representa uma inversão desse conceito: um sinal de lealdade não a Deus, mas ao sistema maligno personificado pela besta. De uma perspectiva...

O Contexto Judaico da Marca da Besta

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O estudo da “marca da besta” em Apocalipse, à luz da tradição hebraica, revela um rico pano de fundo simbólico e espiritual que ajuda a interpretar esse conceito de forma mais precisa. No judaísmo, marcas, sinais e selos desempenham papéis significativos em narrativas de aliança e identidade. Esses elementos são frequentemente usados para comunicar a fidelidade a Deus, a separação do mal e o compromisso com a Torá. Apocalipse, com sua linguagem altamente simbólica, utiliza essas imagens com profundidade, ecoando práticas e conceitos judaicos enraizados na Torá e nos Profetas. A Marca e os Selos no Judaísmo Em Apocalipse 13:16-17, a marca da besta é descrita como sendo essencial para comprar ou vender, indicando um controle totalitário sobre a economia e a sociedade. Contudo, o conceito de uma marca ou sinal na mão e na testa é claramente um empréstimo da Torá, onde Deus ordena que Seus mandamentos sejam “atados como um sinal” na mão e como “frontais” entre os olhos (Deuteronômio 6:8; 1...