O Evangelho de Mateus à Luz do Judaísmo do Primeiro Século
O Evangelho de Mateus se destaca entre os quatro evangelhos canônicos por sua profunda conexão com o contexto judaico do primeiro século. Desde a sua abertura com a genealogia de Yeshua até a narrativa de Sua ressurreição, o autor emprega uma linguagem, símbolos e temas que ressoariam fortemente com os judeus de sua época. Para uma compreensão mais profunda desse evangelho, é essencial considerar sua historicidade, teologia e etimologia, bem como o modo como os leitores originais teriam interpretado sua mensagem.
Contexto Histórico e Judaísmo do Primeiro Século
Mateus escreveu seu evangelho em um período de intensa agitação sociopolítica e religiosa. O judaísmo do primeiro século era diversificado, composto por grupos como os fariseus, saduceus, essênios e zelotes, cada um com suas próprias interpretações da Torá e expectativas messiânicas. O Templo de Jerusalém ainda estava em pé até sua destruição no ano 70 d.C., e a Lei Mosaica continuava sendo o eixo da vida religiosa e cultural judaica.
O público-alvo de Mateus parecia ser principalmente judeus que criam em Yeshua como o Messias e gentios que estavam aprendendo a viver a fé em um contexto judaico. Seu evangelho busca mostrar que Jesus não apenas cumpre as profecias messiânicas, mas também é a realização da promessa divina feita a Abraão e Davi.
A Genealogia Messiânica
Mateus inicia seu evangelho com uma genealogia (Mateus 1:1-17), enfatizando que Jesus é descendente de Abraão e Davi. A estrutura genealógica organizada em três grupos de 14 gerações não é acidental; o número 14 corresponde ao valor numérico do nome Davi (דוד) na gematria hebraica. Assim, Mateus aponta desde o início que Jesus é o herdeiro legítimo do trono davídico.
Além disso, a inclusão de mulheres na genealogia—Tamar, Raabe, Rute e Bate-Seba—desafia convenções tradicionais e sugere um Messias que transcende barreiras culturais e sociais. Todas essas mulheres estavam envolvidas em situações moralmente questionáveis ou eram gentias, destacando a universalidade da mensagem messiânica.
O Sermão do Monte e a Nova Torá
O Sermão do Monte (Mateus 5–7) é frequentemente visto como um paralelo a Moisés recebendo a Torá no Monte Sinai. Assim como Moisés apresentou os mandamentos da Aliança, Jesus, no monte, apresenta um ensinamento que não revoga a Lei, mas a cumpre e aprofunda (Mateus 5:17). A estrutura das bem-aventuranças e a ênfase na justiça superior (Mateus 5:20) refletem conceitos essenciais da tradição rabínica.
Jesus usa uma linguagem que seus ouvintes judeus reconheceriam, como a referência à "paz" (שָׁלוֹם, shalom) e ao "Reino dos Céus", um eufemismo para o Reino de Deus usado em círculos judaicos para evitar pronunciar o nome divino.
O Ministério de Jesus: Galileia e Jerusalém
A escolha de Jesus em iniciar seu ministério na Galileia não é aleatória. A Galileia era um centro de diversidade cultural, com forte influência helenística, mas também um local onde muitos judeus esperavam um renascimento espiritual. Os milagres e ensinos de Jesus nessa região mostram um Messias acessível às massas, mas também profundamente enraizado na tradição profética.
Ao se mover para Jerusalém, Jesus confronta diretamente as autoridades religiosas e os sistemas de poder no Templo, ecoando os profetas que denunciaram a corrupção e chamaram Israel ao arrependimento.
Paixão e Ressurreição à Luz da Tradição Judaica
A narrativa da paixão de Jesus ressoa fortemente com imagens do Servo Sofredor em Isaías 53 e do justo perseguido nos Salmos. A crucificação, vista por muitos como um sinal de maldição (Deuteronômio 21:23), é transformada em um ato redentor, conforme interpretado pela tradição cristã primitiva.
A ressurreição de Jesus, anunciada no terceiro dia, alude ao padrão bíblico de redenção e renovação, visto em eventos como a libertação de Jonas do grande peixe (Jonas 1:17) e a restauração de Israel.
Conclusão: O Evangelho de Mateus e a Expectativa Messiânica Judaica
Mateus apresenta Yeshua como o Messias prometido, cuja vida, morte e ressurreição cumprem as Escrituras Hebraicas. Ele constrói sua narrativa com base na tradição judaica, destacando Jesus como o novo Moisés, o Filho de Davi e o Servo Sofredor. Seus leitores judeus do primeiro século teriam reconhecido esses padrões e entendido que a mensagem de Jesus não era uma rejeição da Torá, mas sua plena realização.
Compreender Mateus dentro de seu contexto histórico e judaico nos permite apreciar a profundidade de seu testemunho e a habilidade com que ele apresenta Jesus como o cumprimento das esperanças messiânicas de Israel.
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