Onde está Deus no Livro de Ester?



Introdução
Quando os justos governam, o povo se alegra; quando os perversos estão no poder, o povo geme.
Proverbios 29:2 NVT


Foi em um período como este que Ester e Mordecai viveram. O rei Xerxes era um governante cruel. O autor do livro descreve Xerxes como um homem insensato, mencionando que ele provavelmente pediu à rainha Vashti para se apresentar diante de seus convidados embriagados, sem roupas, e a depôs quando ela recusou.

Xerxes era imaturo e um péssimo governante: ele desperdiçou os recursos dos impostos do povo em festas que se estendiam por meses, apenas para exibir sua riqueza e impressionar seus convidados com a grandiosidade de seu império.

Xerxes era idólatra: ele não adorava o Deus verdadeiro. Quando enfrentava questões urgentes, consultava astrólogos e magos, que ofereciam conselhos baseados na observação dos fenômenos celestes.

Xerxes era corrupto: ele aceitou o suborno de Hamã em troca de autorização para realizar um genocídio contra os judeus. Os dez mil talentos de prata que Hamã ofereceu pesavam cerca de 375 toneladas, o equivalente a dois terços da receita anual do império persa. (Sua recusa à prata de Hamã, na realidade, era apenas uma formalidade educada do protocolo oriental, sem que isso realmente significasse uma rejeição do pagamento).

Sem dúvida, Satanás explorou as fraquezas no caráter do rei para arquitetar um plano com o objetivo de eliminar os judeus, pois é por meio deles que o Messias virá. Sabemos que Deus utiliza pessoas para cumprir Seus desígnios. Da mesma forma, Satanás também usou diferentes indivíduos ao longo da história (como Judas, em Lucas 22:3). No livro de Ester, tanto Xerxes quanto Hamã se tornam instrumentos de Satanás, mas vemos como Deus usou uma mulher para frustrar esse plano maligno.

Embora alguns pregadores deem grande ênfase às virtudes das pessoas que salvaram os judeus da ameaça de genocídio, este sermão foca na providência de Deus e em Sua capacidade de cumprir Sua vontade, mesmo através das imperfeições de Seu povo.


A mão invisivel de Deus:
Leia: Ester 1: 1-22

O livro de Ester é frequentemente analisado pela ausência de qualquer menção direta a Deus, o que é possivelmente devido ao fato de que, durante esse período, Deus permaneceu em silêncio, enquanto o pecado de Israel contra Ele atingia seu ápice. No entanto, esse silêncio não implica que Deus estivesse inativo. (Ele não abandonou Seu povo, deixando-o à mercê de um rei pagão.) Na verdade, Deus estava trabalhando nos bastidores, de maneira silenciosa e oculta para o Seu povo.

Ele sabia que a própria sobrevivência de Israel estava ameaçada (mesmo antes de lançar as fundações da Terra). Antes de Ester ser formada no ventre de sua mãe, Deus já havia planejado usá-la para cumprir Sua missão de resgatar Seu povo bem debaixo do nariz do rei.

Sua ação invisível é clara quando observamos o destronamento da rainha Vashti e a busca por uma nova soberana. Em vez de procurar uma jovem com origem nobre e respeitável, características que Ester não possuía, os conselheiros buscavam apenas duas qualidades: que fosse atraente e virgem. No perfeito plano de Deus, Ester não era apenas atraente, mas incrivelmente bonita.


Lição: O atributo paternal de Deus é a razão pela qual Ele trabalhou silenciosamente nos bastidores para libertar Seu povo. Embora a ideia de um Deus paternal não seja explicitamente atribuída a Ele no Antigo Testamento, Sua natureza paterna pode ser observada em muitas de Suas palavras e ações, especialmente no livro de Ester. Embora tenha usado os babilônios para disciplinar Israel, Ele jamais permitiu que Seu povo fosse consumido por essas nações invasoras.

A beleza da disciplina divina é que ela não é fruto de ódio por Seus filhos, mas de um ato corretivo movido por um amor profundo por nós. A disciplina de Deus é temporária, pois Ele sempre restaura os que são disciplinados. (Ilustração: "A mão beijada"). O Novo Testamento também confirma essa verdade (Hebreus 12:6). Infelizmente, muitos perderam a fé em Deus enquanto Ele aguardava o momento certo para trazer a restauração após 70 anos.

A lição a ser aprendida aqui é que, por mais dolorosa e frustrante que possa parecer, não devemos desanimar de Deus quando Ele nos disciplina. Sua disciplina não tem o objetivo de nos abandonar, mas de nos corrigir e nos devolver ao caminho certo. Quanto mais cedo nos arrependemos, mais rapidamente Ele nos restaura.

No entanto, a disciplina não é a única razão para o silêncio de Deus. A edificação espiritual do crente é outra razão pela qual Ele pode permanecer em silêncio em tempos de crise (1 Reis 19:11-12).

Talvez alguns de vocês se sintam como se estivessem orando há anos sem receber uma resposta. Mas Deus nunca chega cedo demais nem tarde demais. O fato de Sua oração não ter sido respondida ainda não significa que Ele esteja inativo em sua vida. Na verdade, Ele está se preparando para enviar uma resposta, de uma maneira muito mais gloriosa do que podemos imaginar.


O bem e o mal
Leia: Ester 2: 1-23

Mordecai acreditava que o fim justificava os meios. Ele provavelmente se preocupava com o futuro de Ester, pois era o único protetor que ela tinha, e sabia que, após sua morte, ninguém mais cuidaria dela. Quando o rei anunciou a busca por uma nova rainha, Mordecai viu nisso uma oportunidade. Ele orientou Ester a esconder sua verdadeira identidade para evitar ser desqualificada. (Enquanto outros pais mantinham suas filhas em segredo, foi por isso que uma busca precisou ser feita.)

No entanto, Ester também não era uma judia totalmente comprometida. Ela seguiu as instruções de Mordecai à risca, mas, ao contrário de Daniel, Sadraque, Mesaque e Abednego, ela comprometeu sua caminhada com Deus (Ester 2:8). Ela violou as leis dietéticas e se casou com um rei pagão. Esse cenário certamente nos leva a questionar por que Deus colocou Ester em uma situação tão comprometedora.

A resposta pode ser encontrada em Gênesis 50:20: “Você, na verdade, planejou o mal contra mim, mas Deus o usou para o bem, para realizar o que vemos hoje, a preservação da vida de muitos.” Foi a falta de fé de Mordecai em Deus que colocou Ester nessa situação, não a vontade de Deus. Deus, na verdade, permitiu essa circunstância e usou a posição elevada de Ester como rainha para um bem maior, salvando muitas vidas (Ester 4:14c).

Lição: Como cristãos, devemos aprender a reconhecer a mão de Deus mesmo no meio do crescente pecado global e das catástrofes. Essas coisas não devem nos deixar ansiosos nem preocupados com o futuro. A presença de pessoas carnais na igreja não deve nos desmotivar a seguir a Deus de todo o coração, pois Deus é plenamente capaz de trazer o bem de toda situação difícil.

Nós somos seus instrumentos
Leia: Ester 4: 1-17

Deus tem a capacidade de usar qualquer pessoa para cumprir Seus propósitos. Ele não está limitado a usar apenas Ester (na verdade, Ele usou até um burro em uma ocasião - Números 22:28). Contudo, Deus repreende a desobediência. O modo como Ele tratou aqueles que se recusaram a seguir Seu chamado sustenta essa ideia (Moisés - Êxodo 4:14, Jonas - Jonas 1:4-5). Ester também demonstrou relutância e, em grande parte, agiu por interesse próprio (Ester 4:11).

Deus utiliza diferentes métodos para levar as pessoas à obediência. Em Êxodo, Ele próprio repreendeu Moisés (Êxodo 4:14). No livro de Jonas, Deus usou uma tempestade para convencer o profeta a cumprir sua missão (Jonas 1:4-7). No livro de Ester, Deus usou Mordecai, um homem ímpio, para corrigir Ester e levá-la à obediência.

Outro tema importante no livro de Ester é a providência divina, que acompanha aqueles que Deus escolhe para cumprir Seus planos (Jonas 1:17). O resultado da história teria sido muito diferente se não fosse a graça e o favor que Deus concedeu a Ester aos olhos do rei, quando ela entrou sem ser convocada em seu átrio (Ester 5:2).

Lição: Ser um instrumento de Deus é a maior honra que qualquer ser humano pode ter. Ester teve o privilégio de desempenhar um papel central na maior missão de resgate que o mundo já conheceu. No entanto, devido à sua atitude negligente, ela não percebeu que era o Senhor Todo-Poderoso quem a estava usando para Sua glória.

Ela só respondeu à situação de necessidade após uma repreensão de Mordecai (Ester 4:13). Mesmo quando finalmente concordou em interceder pelo povo judeu, foi porque não teve outra escolha (Ester 4:16d). Se Ester tivesse reconhecido o chamado divino em sua vida e obedecido por submissão a Deus, sua história teria sido muito diferente.

Em tudo o que fazemos, incluindo o ministério, devemos entregar nosso coração. O perigo de obedecer por obrigação é que nunca encontraremos verdadeira satisfação no trabalho que fazemos para Deus. Por isso, Ester não se contentou apenas em libertar seu povo, mas escreveu um decreto autorizando os judeus a massacrar e saquear seus inimigos, com a permissão do rei.


Conclusão

As práticas morais e éticas de Mordecai e Ester, em muitos aspectos, são questionáveis, e isso pode fazer com que o livro de Ester pareça destoar das demais escrituras sagradas. O fato de Ester ter se casado com um rei pagão, escondido sua identidade e violado leis dietéticas levanta questionamentos sobre a pureza da sua ação e sobre como ela se alinha aos padrões de justiça e retidão que Deus instrui em outras partes da Bíblia. Da mesma forma, as decisões de Mordecai, como aconselhar Ester a ocultar sua herança judaica para aumentar suas chances de ser escolhida como rainha, também podem parecer moralmente duvidosas.

No entanto, uma análise mais profunda do livro de Ester revela que, ao contrário de outras obras literárias ou religiosas que tentam embelezar ou ocultar os erros e falhas de seus personagens, os escritores bíblicos nunca hesitaram em mostrar as falhas do povo de Deus. O texto bíblico não oculta as imperfeições dos heróis da fé, mas, em vez disso, expõe esses erros de forma honesta e crua, reconhecendo que, apesar de suas falhas, Deus continua a trabalhar de maneiras misteriosas e poderosas. Este aspecto da Bíblia não deve ser ignorado, pois ele reflete a realidade de que as pessoas de Deus não são perfeitas e muitas vezes falham, mas é justamente nessas falhas que o poder e a graça divinos podem ser manifestos.

Quando Deus, o autor das escrituras, inspirou os seres humanos a escrever os textos bíblicos, Ele garantiu que tanto os feitos grandiosos quanto as falhas e fraquezas humanas estivessem presentes. A inclusão de episódios embaraçosos ou difíceis de entender, como as ações de Mordecai e Ester, serve a um propósito claro: oferecer uma lição de humildade e compreensão. O livro de Ester, por exemplo, nos ensina que, mesmo em situações difíceis e complexas, quando as pessoas de Deus tomam decisões nem sempre ideais, Ele é capaz de usar essas circunstâncias para cumprir Seus planos redentores.

Em vez de esconder os erros, a Bíblia nos mostra que até mesmo as escolhas equivocadas podem ser transformadas por Deus para o bem maior. O livro de Ester, assim como muitos outros na Bíblia, serve como um exemplo poderoso de como Deus usa os instrumentos imperfeitos e os momentos de crise para revelar Sua soberania e Seu plano divino para o mundo. Dessa forma, o livro de Ester, com suas falhas e suas escolhas questionáveis, não só faz parte das escrituras sagradas como também desempenha um papel fundamental em nos ensinar sobre a graça, a providência e a capacidade de Deus de redimir até as situações mais complicadas.

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