Bibliologia - Como a Bíblia chegou até nós
Apresentação:
De
onde nos veio a Bíblia? Como podemos ter certeza de que só os
livros
certos foram incluídos na Bíblia? A Bíblia contém erros? Quais são
as
cópias mais antigas da Bíblia de que dispomos? Como podemos ter
certeza
de que o texto da Bíblia não foi mudando ao longo dos anos? Por
que
há tantas traduções da Bíblia, e qual delas devo usar? Essas são apenas
algumas
das muitas perguntas importantes acerca da Bíblia, cujas respostas
são
debatidas neste livro.
Com
simplicidade e clareza, os autores discutem os seguintes
aspectos,
dentre outros: a inspiração, o cânon bíblico, os principais
manuscritos,
a crítica textual, as traduções mais antigas e as versões
modernas.
À medida que vão cobrindo todo o campo da Introdução ao
Estudo
da Bíblia, encontram-se por todas as páginas do livro explicações
cuidadosas dos pontos
mais significativos.
Capítulo 1. O
Caráter da Bíblia
A Bíblia é um livro único. Trata-se de um dos livros mais
antigos do mundo e continua sendo também o mais vendido. É um livro quer tem
como origem o mundo oriental antigo,
porém, o mundo ocidental moderno tem suas bases em seus ensinamentos.
Vamos estudar um pouco deste livro incrível.
A estrutura da Bíblia
A palavra Bíblia
(Livro) entrou para as línguas modernas por
intermédio do francês, passando primeiro pelo latim biblia, com
origem no grego biblos. Originariamente era o nome que se dava à casca de um papiro do
século XI a.C. Por volta do século II d.C, os cristãos usavam a palavra para
designar seus escritos sagrados.
Os dois testamentos da
Bíblia
A Bíblia compõe-se de duas partes principais: o Antigo
Testamento e o Novo Testamento. O Antigo Testamento foi escrito pela comunidade
judaica, e por ela preservado um milênio ou mais antes da era de Jesus.
O Novo Testamento foi composto pelos discípulos de Cristo ao
longo do século I d.C.
A palavra testamento,
que seria mais bem traduzida por
"aliança", é tradução de palavras hebraicas e gregas que significam
"pacto" ou "acordo" celebrado entre duas partes
("aliança"). Portanto, no caso da Bíblia, temos o contrato antigo,
celebrado entre Deus e seu povo, os judeus, e o pacto novo, celebrado entre
Deus e os cristãos.
Estudiosos cristãos frisaram a unidade existente entre esses
dois testamentos da Bíblia sob o aspecto da Pessoa de
Jesus Cristo, que declarou ser o tema
unificador da Bíblia.1 Agostinho dizia que o Novo Testamento acha-se velado no Antigo
Testamento, e o Antigo, revelado no Novo.
As seções da Bíblia
A Bíblia divide-se comumente em 8 seções, 5 no Velho
Testamento e 4 no Novo Testamento:
LIVROS DO ANTIGO TESTAMENTO
|
|||
A Lei (Pentateuco)
|
Poesia
|
||
1. Gênesis
2. Êxodo
3.
Levítico
4. Números
5.
Deuteronômio
|
1. Jó
2. Salmos
3.
Provérbios
4.
Eclesiastes
5. O
Cântico dos Cânticos
|
||
História
|
Profetas
|
||
1. Josué
2. Juízes
3. Rute
4. 1Samuel
5. 2Samuel
6. 1Reis
7. 2Reis
8.
1Crônicas
9.
2Crônicas
10. Esdras
11.
Neemias
12. Ester
|
Maiores
|
Menores
|
|
1. Isaías
2.
Jeremias
3.
Lamentações
4.
Ezequiel
5. Daniel
|
1. Oséias
2. Joel
3. Amós
4. Obadias
5. Jonas
6.
Miquéias
7. Naum
8.
Habacuque
9.
Sofonias
10. Ageu
11.
Zacarias
12.
Malaquias
|
||
LIVROS DO NOVO TESTAMENTO
|
|||
Evangelhos
|
História
|
||
1. Mateus
2. Marcos
3. Lucas
4. João
|
1. Atos
dos apóstolos
|
||
Epístolas
|
|||
1. Romanos
2. 1Coríntios
3. 2Coríntios
4. Gálatas
5. Efésios
6. Filipenses
7. Colossenses
|
8. 1Tessalonicenses
9. 2Tessalonicenses
10. 1Timóteo
11. 2Timóteo
12. Tito
13. Filemom
14. Hebreus
|
15. Tiago
16. 1Pedro
17. 2Pedro
18. 1João
19. 2João
20. 3João
21. Judas
|
|
Profecia
|
|||
1.
Apocalipse
|
|||
LIVROS DOANTIGO TESTAMENTO
A divisão do Antigo Testamento em quatro seções
baseia-se na disposição dos livros por tópicos, com origem na tradução das
Escrituras Sagradas para o grego. Essa tradução, conhecida como a Versão dos septuaginta (LXX),
iniciara-se no século III a.C.
A Bíblia hebraica não segue essa divisão tópica dos
livros, em quatro partes. Antes, emprega-se uma divisão de três partes, talvez
baseada na posição oficial de seu autor.
BÍBLIA HEBRAICA
|
||
LEI (Tora)
|
PROFETAS (Nebhiim)
|
ESCRITOS(Kethubhim)
|
1. Gênesis
2. Êxodo
3.
Levítico
4. Números
5.
Deuteronômio
|
A. Profetas anteriores
1. Josué
2. Juízes
3. Samuel
4. Reis
B. Profetas posteriores
1. Isaías
2.
Jeremias
3.
Ezequiel
4. Os Doze
|
A. Livros poéticos
1. Salmos
2.
Provérbios
3. Jó
B. Cinco rolos (Megilloth)
1. O
Cântico dos Cânticos
2. Rute
3.
Lamentações
4. Ester
5.
Eclesiastes
C. Livros históricos
1. Daniel
2.
Esdras-Neemias
3.
Crônicas
|
Esta é a
disposição encontrada nas edições judaicas modernas do Antigo Testamento. Cf.
The
Holy Scríptures, according to the Masoretic Text e Bíblia
hebraica, organizada por
Rudolph
Kittel e Paul E. Kahle.
|
DISPOSIÇÃO DOS LIVROS DOANTIGO TESTAMENTO
O Novo Testamento faz uma possível alusão a uma
divisão em três partes do Antigo Testamento, quando Jesus disse: "... era
necessário que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés,
nos Profetas e nos Salmos" (Lc 24.44).
A despeito do fato de o Judaísmo ter mantido uma
divisão tríplice até a presente data, a Vulgata latina, de Jerônimo, e as Bíblias posteriores a ela seguiriam o formato
mais tópico das quatro partes em que se divide a septuaginta. Se combinarmos essa divisão com outra, mais
natural e largamente aceita, também de quatro partes, do Novo Testamento, a
Bíblia pode ser divida na estrutura geral e cristocêntrica apresentada no
quadro seguinte.
Ainda que não existam razões de ordem divina para
dividirmos a Bíblia em oito partes, a insistência cristã em que as Escrituras
devam ser entendidas tendo Cristo por centro baseia-se nos ensinos do próprio
Cristo.
Cerca de cinco vezes no Novo Testamento, Jesus
afirmou ser ele próprio o tema do Antigo Testamento (Mt 5.17; Lc 24.27; Jo
5.39; Hb 10.7). Diante dessas declarações, é natural que analisemos essa
divisão das Escrituras, em oito partes, por tópicos, sob o aspecto de seu tema
maior — Jesus Cristo.
Antigo
ANTIGO
TESTAMENTO
|
Lei
História
Poesia
Profecia
|
Fundamento da chegada de Cristo
Preparação para a chegada de Cristo
Anelo pela chegada de Cristo
Certeza da chegada de Cristo
|
NOVO
TESTAMENTO
|
Evangelhos
Atos
Epístolas
Apocalipse
|
Manifestação de Cristo
Propagação de Cristo
Interpretação e aplicação de Cristo
Consumação em Cristo
|
Capítulos e versículos da
Bíblia
As Bíblias mais antigas não eram divididas em
capítulos e versículos. Essas divisões foram feitas para facilitar a tarefa de
citar as Escrituras.
Stephen Langton, professor da Universidade de Paris
e mais tarde arcebispo da Cantuária, dividiu a Bíblia em capítulos em 1227.
Robert Stephanus, impressor parisiense, acrescentou a divisão em versículos em 1551
e em 1955. Felizmente, estudiosos judeus, desde aquela época, adotaram essa
divisão de capítulos e versículos para o Antigo Testamento.
Capítulo 2 - A
inspiração da Bíblia
A característica mais importante da Bíblia não é sua
estrutura e sua forma, mas o fato de ter sido inspirada por Deus. Não se deve
interpretar de modo errôneo a declaração da própria Bíblia a favor dessa
inspiração.
Quando falamos de inspiração, não se trata de
inspiração poética, mas de autoridade divina. A Bíblia é singular; ela foi
literalmente "soprada por Deus". A seguir examinaremos o que
significa isso.
Uma definição de
inspiração
Embora a palavra inspiração seja
usada apenas uma vez no Novo Testamento (2Tm 3.16) e outra no Antigo (Jó 32.8),
o processo pelo qual Deus transmite sua mensagem autorizada ao homem é
apresentado de muitas maneiras. Um exame das duas grandes passagens a respeito
da inspiração encontradas no Novo Testamento, poderá ajudar-nos a entender o
que significa a inspiração bíblica.
Descrição bíblica de Inspiração
Assim escreveu Paulo a Timóteo: "Toda Escritura é
divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para
corrigir, para instruir em justiça" (2Tm 3.16). Em outras palavras, o
texto sagrado do Antigo Testamento foi "soprado por Deus" (gr., theopneustos) e, por
isso, dotado da autoridade divina para o pensamento e para a vida do crente.
A passagem correlata de 1Coríntios 2.13 realça a mesma verdade.
Disto também falamos", escreveu Paulo, "não com palavras de sabedoria
humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais
com as espirituais." Quaisquer palavras ensinadas pelo Espírito Santo são
palavras divinamente inspiradas.
Outra grande passagem do Novo Testamento a respeito da inspiração
da Bíblia está em 2 Pedro 1.21. "Pois a profecia nunca foi produzida por
vontade dos homens, mas os homens santos da parte de Deus falaram movidos pelo
Espírito Santo." Em outras palavras, os profetas eram homens cujas
mensagens não se originaram de seus próprios impulsos, mas foram "sopradas
pelo Espírito". Pela revelação, Deus falou aos profetas de muitas maneiras
(Hb 1.1): mediante anjos, visões, sonhos, vozes e milagres. Inspiração é a
forma pela qual Deus falou aos homens mediante
os profetas. Mais um sinal de que as
palavras dos profetas não partiam deles próprios, mas de Deus é o fato de eles
sondarem seus próprios escritos a fim de verificar "qual o tempo ou qual a
ocasião que o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, ao dar de antemão
testemunho sobre os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e sobre as glorias
que os seguiriam" (l Pe 1.11).
Fazendo uma combinação das passagens que ensinam sobre a inspiração
divina, descobrimos que a Bíblia é inspirada no seguinte sentido: homens
movidos pelo Espírito, escreveram palavras sopradas por Deus, as quais são a
fonte de autoridade para a fé e para a prática cristã.
Definição teológica da
inspiração
Na única vez em que o Novo Testamento usa a palavra inspiração, ela se
aplica aos escritos, não aos escritores. A Bíblia é que é inspirada, e não seus autores
humanos. O adequado, então, é dizer que: o produto e inspirado os
produtores não. Os autores indubitavelmente escreveram e falaram sobre muitas
coisas, como, por exemplo, quando se referiram a assuntos mundanos, pertinentes
a esta vida, os quais não foram divinamente inspirados. Todavia, visto que o
Espírito Santo, conforme ensina Pedro tomou posse dos homens que produziram os
escritos inspirados, podemos, por extensão, referir-nos à inspiração em sentido
mais amplo. Tal sentido mais amplo inclui o processo
total por que alguns homens, movidos pelo
Espírito Santo, enunciaram e escreveram palavras emanadas boca do Senhor; e,
por isso mesmo, palavras dotadas da autoridade
divina.
Inspiração dos originais,
não das cópias
A inspiração e a consequente autoridade da Bíblia não se
estendem automaticamente a todas as cópias e traduções da Bíblia. Só os
manuscritos originais, conhecidos por autógrafos, foram inspirados por Deus. Os
erros e as mudanças efetuados nas cópias e nas traduções não podem ser atribuídos
à inspiração original. Por exemplo, 2Reis 8.26 diz que Azarias tinha 22 anos de
idade quando foi coroado rei, enquanto 2Crônicas 22.2 diz que tinha 42 anos.
Não é possível que ambas as informações estejam corretas. O original é
autorizado; a cópia errônea não tem autoridade.
Outros exemplos desse tipo de erro podem encontrar-se nas atuais
cópias das Escrituras (e.g., cf. I Rs 4.26 e 2Cr 9.25). Portanto, uma tradução
ou cópia só é autorizada à medida que reproduz com exatidão os autógrafos.
Inspiração do ensino, mas
não de todo o conteúdo da Bíblia
Cumpre ressaltar também que só o que a Bíblia ensina foi
inspirado por Deus e não apresenta erro; nem tudo que está na Bíblia
ficou isento de erro. Por exemplo, as Escrituras contêm o relato de muitos atos
maus, mas não as recomenda. Ao contrário, condena essas práticas malignas. A
Bíblia chega a narrar algumas das mentiras de Satanás (e.g., Gn 3.4). Portanto,
a simples existência dessa narração não significa que a Bíblia ensine serem verdadeiras
essas mentiras. A única coisa que a inspiração divina garante aqui é que se
trata de um registro verdadeiro de uma mentira satânica, de
uma perversidade real de Satanás
.
Às vezes não está perfeitamente claro se a Bíblia registra
apenas um mero relato do que alguém disse ou fez, ou se ela está ensinando que devemos
proceder de igual forma. Por exemplo, estará a Bíblia ensinando que tudo quanto
os amigos de Jó disseram é verdade? Seriam todos os ensinos daquele homem
"debaixo do sol", em Eclesiastes, ensino de Deus ou mero registro
fiel de pensamentos vãos? Seja qual for a resposta, o
estudante da Bíblia é admoestado a não julgar verdadeiro tudo
quanto a Bíblia afirma só por ter aparência de verdade. O estudante da Bíblia precisa
procurar seu verdadeiro ensino,
sem atribuir verdade a tudo quanto está
escrito em suas páginas. De fato, a Bíblia registra muitas coisas que ela de
modo algum recomenda, como a asserção: "Não há Deus" (Sl 14.1).
Em todas as passagens, o que a Bíblia está declarando deve ser
estudado com cuidado, a fim de se apurar o que ela está ensinando na verdade.
Só o que a Bíblia ensina é que é inspirado, e não todas as palavras
relacionadas a todo o seu conteúdo.
Evidências da inspiração
da Bíblia
Os
cristãos têm sido desafiados, ao longo dos séculos, a apresentar as nos
alicerces da fé em Cristo, repousou sobre QH ombros dos apologistas cristãos a
tarefa de apresentar evidências da Inspiração divina da Bíblia.
Reivindicar que a
Bíblia é inspirada por Deus é uma coisa, mas comprovar
essa reivindicação é coisa bem diferente.
A reivindicação da Bíblia
quanto à sua inspiração
A inspiração não é algo que meramente os cristãos atribuam à
Bíblia; é reivindicação que a própria Bíblia faz a respeito de si mesma. Há praticamente
centenas de referências no texto da Bíblia que afirmam sua origem divina (v.
caps. 3 e 4).
Apoio à reivindicação
bíblica de inspiração
Os defensores da fé cristã têm reagido a esse desafio de
maneiras variadas. Alguns transformaram o cristianismo num sistema racional,
mas a grande massa de cristãos bem informados, ao longo dos
séculos, tem evitado tanto o racionalismo como o fideísmo. Sem sustentar a
irrevocabilidade absoluta, nem o ceticismo completo, os apologistas cristãos
têm dado "uma razão da esperança que há
neles". A seguir apresentamos uma síntese das evidências da
doutrina bíblica da inspiração.
Evidência Interna da inspiração da Bíblia
Há duas espécies de evidências que se devem levar em conta no
que diz respeito à inspiração da Bíblia: a evidência que brota da própria
Bíblia como evidência externa). Há várias espécies de evidência interna já apresentadas.
A evidência da autoridade que se autoconfirma.
Há quem afirme que a Bíblia fala com autoridade própria, cheia
de convicção, à semelhança do rugido de um leão. O Senhor Jesus enchia as
multidões de grande admiração, porque "os ensinava como tendo
autoridade" (Mc 1.22), e, de modo semelhante, a expressão "assim diz
o Senhor", encontrada nas Escrituras, fala por si mesma. Quando uma voz
falou a Jó, saída de um redemoinho, ficou bem evidente para o patriarca ser a
voz do Senhor (Jó 38).
As palavras das Escrituras não precisam ser defendidas; precisam
apenas ser ouvidas, para que se saiba que são a Palavra de Deus. O modo mais
convincente de demonstrar a autoridade de um leão é soltá-lo. De modo
semelhante, a inspiração da Bíblia não precisa ser defendida; antes, os ensinos
da Bíblia precisam apenas ser explanados. Afirma-se que Deus pode falar mais
eficazmente quando fala por si mesmo. A Bíblia pode defender sua própria autoridade,
desde que sua voz se faça ouvir.
A evidência do testemunho do Espírito Santo.
Intimamente relacionado com a evidência da autoridade das
Escrituras, que se demonstra por si mesma, temos o testemunho do Espírito
Santo. A Palavra de Deus confirma-se perante os filhos de Deus pelo Espírito de
Deus. O testemunho íntimo de Deus no coração do crente, à medida que este vai lendo
a Bíblia, é evidência da origem divina da Bíblia. O Espírito Santo não só dá
testemunho ao crente de que este é filho de Deus (Rm 8.16), mas também afirma
que a Bíblia é a Palavra de Deus (2Pe 1.20,21). O mesmoEspírito que comunica a
verdade de Deus também confirma perante o crente que a Bíblia é a Palavra de
Deus.
A evidência da capacidade transformadora da Bíblia.
Outra evidência denominada "interna" é a capacidade
que tem a Bíblia de converter o incrédulo e de edificá-lo na fé cristã. Assim
diz Hebreus: "A palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que
qualquer espada de dois gumes..." (4.12). Milhares e milhares têm experimentado
esse poder; viciados em drogas têm sido curados pela Palavra; delinqüentes têm sido transformados; o ódio
tem cedido lugar ao amor; tudo isso pela leitura da Palavra de Deus (1Pe 2.2).
A evidência de que Deus atribuiu sua autoridade à Bíblia está em
seu poder evangelístico e edificador.
A evidência da unidade da Bíblia.
Uma evidência mais formal da inspiração da Bíblia está em sua
unidade. Sendo constituída de 66 livros escritos ao longo de 1 500 anos, por
cerca de quarenta autores, em diversas línguas, com centenas de tópicos, é
muito mais que mero acidente que a Bíblia apresente espantosa unidade temática
— Jesus Cristo. Um problema — o pecado— e uma solução — o Salvador Jesus—
unificam as páginas da Bíblia, do Gênesis ao Apocalipse. Se a compararmos a um
manual médico redigido sob tão grande variedade, a Bíblia apresenta marcas notáveis
de unidade divina.
O papel desses autores da Bíblia seria comparável ao de
diferentes escritores que estivessem escrevendo capítulos de uma novela, sem
que tivessem nem mesmo um esboço geral da história. Toda a unidade que a Bíblia
demonstre certamente adveio de algo que se achava fora do alcance de seus
autores humanos.
Evidência externa da inspiração da Bíblia
A evidência interna da inspiração relaciona-se àquilo que o
crente vê ou sente em sua experiência pessoal com a Bíblia. Com a possível
exceção da última evidencia mencionada, a saber, a unidade da Bíblia, a
evidência interna está disponível apenas para os que se acham dentro do
cristianismo. O incrédulo não ouve a voz de Deus, tampouco sente o testemunho
do Espírito de Deus e jamais sente o poder edificador das Escrituras em sua vida.
Se o incrédulo não penetrar pela fé no interior do cristianismo, essa evidência
pouco ou nenhum valor e persuasão terá em sua vida. É aqui, então, que a
evidência externa exerce papel crucial. Funciona como balizas ou sinais que
conduzem ao "interior" da verdadeira vida cristã. Trata-se de testemunho
público de algo inusitado, que serve para atrair a atenção do ser humano para a
voz de Deus nas Escrituras.
A evidência baseada na historicidade da Bíblia.
Grande parte do conteúdo bíblico é história e, por isso mesmo,
passível de constatação.
Existem duas espécies principais de apoio da história bíblica:
os artefatos arqueológicos e os documentos escritos. No que diz respeito aos
artefatos desenterrados, nenhuma descoberta arqueológica invalidou um ensino ou
relato bíblico. Ao contrário, como escreveu Donald J. Wiseman: "A geografia
das terras mencionadas na Bíblia e os remanescentes visíveis da antigüidade
foram gradativamente registrados, até que hoje, em sentido mais amplo, foram
localizados mais de 25 000 locais, nesta região, que datam dos tempos do Antigo
Testamento".10 Aliás,
grande parte da antiga crítica à Bíblia foi firmemente refutada pelas
descobertas arqueológicas que demonstraram a existência da escrita nos dias de
Moisés, a história e a cronologia dos reis de Israel e até mesmo a existência
dos hititas, povo até há pouco só mencionado na Bíblia.
A evidência do testemunho de Cristo.
O testemunho de Cristo é evidência relacionada à da
historicidade dos documentos bíblicos. Visto que o Novo Testamento é
documentado como livro histórico e esses mesmos documentos históricos nos
fornecem o ensino de Cristo a respeito da inspiração da Bíblia, resta-nos
apenas presumir a veracidade de Cristo, para convencer-nos firmemente da
inspiração da Bíblia. Se Jesus Cristo possui alguma autoridade ou integridade
como mestre religioso, podemos concluir que a Bíblia é inspirada por Deus. O
Senhor Jesus ensinou que a Bíblia é a Palavra de Deus.
Se alguém quiser provar ser essa assertiva falsa, deverá
primeiro rejeitar a autoridade que tinha Jesus de se pronunciar sobre a questão
da inspiração.
A evidência da profecia.
Outro testemunho externo dotado de grande força em apoio da
inspiração das Escrituras é o fato da profecia cumprida. De acordo com
Deuteronômio 18, o profeta era tido como falso quando fazia predições que não
se cumprissem. Até o presente momento, nenhuma profecia incondicional da Bíblia
a respeito de acontecimentos ficou sem cumprimento. Centenas de predições,
algumas delas feitas centenas de anos antes de se cumprirem, concretizaram-se
literalmente. A época do nascimento de Jesus (Dn 9), a cidade em que ele
haveria de nascer (Mq 5.2) e a natureza de sua concepção e nascimento (Is 7.14)
foram preditos no Antigo Testamento, bem como dezenas de outras minúcias de sua
vida, morte e ressurreição. Outras profecias, como a da explosão da instrução e
da comunicação (Dn 12.4), a da repatriação de Israel e a da repovoação da Palestina
(Is 61.4), estão sendo cumpridas em nossos dias.
A evidência da influência da Bíblia.
Nenhum outro livro tem sido tão largamente disseminado, nem
exercido tão forte influência sobre o curso dos acontecimentos mundiais do que
a Bíblia. As Escrituras Sagradas têm sido traduzidas em mais línguas, têm sido
impressas em maior número de exemplares, têm influenciado mais o pensamento,
inspirado mais as artes e motivado mais as descobertas do que qualquer outro
livro.
Suas tiragens somam alguns bilhões de exemplares. Os bestsellers que têm
vindo em segundo lugar, ao longo dos séculos, nunca chegam perto do detentor
perpétuo do primeiro lugar, a Bíblia. A influência da Bíblia e de seu ensino
sobre o mundo ocidental está bem à mostra para todos quantos estudam a
história.
A evidência da manifesta indestrutibilidade da Bíblia.
A despeito (ou talvez
por conta) de sua tremenda importância, a Bíblia tem sofrido muito mais ataques
perversos do que seria de esperar, em se tratando de um livro.
No entanto, a Bíblia tem resistido a todos os ataques e a todos
os seus atacantes. Diocleciano tentou exterminá-la (c. 303 d.C); no entanto, a Bíblia
é hoje o livro mais impresso e mais divulgado do mundo.
Críticos da Bíblia no passado tachavam-na de composta, na maior
parte, por historietas mitológicas, mas a arqueologia lhe comprovou a
historicidade. Seus antagonistas atacam seus ensinos, tachando-os de primitivos
e obsoletos, mas os moralistas exigem que seus ensinos a respeito do amor sejam
postos em prática na sociedade moderna. Os céticos têm lançado dúvidas sobre a
confiabilidade da Bíblia; todavia, mais pessoas hoje se convencem de suas
verdades do que em toda a história. Prosseguem os ataques da parte de alguns
cientistas, de alguns psicólogos e de alguns líderes políticos, mas
a Bíblia permanece ilesa, indestrutível.
"Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não
passarão" (Mc 13.31).
A evidência oriunda da integridade de seus autores humanos.
Outros argumentos têm sido formulados para comprovar a
inspiração da Bíblia, mas os principais, os que sustentam o maior peso da
defesa, são esses. Será que esses argumentos provam
que a Bíblia é inspirada? Não.
Não representam provas dotadas de conclusões racionais
inescapáveis. Até mesmo um filósofo amador pode criar contra-argumentos que
neutralizam a lógica da argumentação. E, ainda que tal argumentação comprovasse
a inspiração da Bíblia, não se concluiria daí que os argumentos conseguiriam persuadir e
satisfazer a todos. Em vez disso, temos evidências, testemunhos, testemunhas.
Como testemunhos, precisam ser examinados para uma avaliação global. A seguir,
o júri que existe na alma de cada
pessoa deverá tomar sua decisão — decisão fundada não em provas racionais,
inescapáveis, mas em evidências que ficam "acima de quaisquer dúvidas
racionais".
Você também precisa tomar
sua decisão. Para os que têm a tendência à indecisão, resta o lembrete incisivo
das palavras de Pedro: "Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras
da vida eterna" (Jo 6,68). Em outras palavras, se a Bíblia — com sua
reivindicação categórica de ser inspirada, com suas características
incomparáveis e suas credenciais múltiplas— não for inspirada, então, a quem ou
a que nos dirigiremos? É nela que encontramos as palavras de vida eterna.
6. As características da canonicidade
Como
foi que a Bíblia veio a ser composta de 66 livros? Esse assunto intitula-se canonicidade.
Canonicidade
é o estudo que trata do reconhecimento e da compilação dos livros que nos foram
dados por inspiração de Deus.
Definição de canonicidade
A
palavra cânon deriva do grego kanõn
("cana, régua"), que, por sua vez,
se origina do hebraico kaneh,
palavra do Antigo Testamento que significa
"vara ou cana de medir" (Ez 40.3). Mesmo em época anterior ao cristianismo,
essa palavra era usada de modo mais amplo, com o sentido de padrão ou norma,
além de cana ou unidade de medida. O Novo Testamento emprega o termo em sentido
figurado, referindo-se a padrão ou regra de conduta (Gl 6.16).
Emprego da palavra "cânon" pelo cristão da
igreja primitiva
Nos
primórdios do cristianismo, a palavra cânon significava "regra" de
fé, ou escritos normativos (i.ev as Escrituras autorizadas). Por volta da época
de Atanásio (c. 350), o conceito de cânon bíblico ou de Escrituras normativas
já estava em desenvolvimento.
Alguns sinônimos de canonicidade
A existência de um
cânon ou coleção de escritos autorizados antecede o uso do termo cânon. A comunidade
judaica coligiu e preservou as Escrituras Sagradas desde o tempo de Moisés.
Escrituras Sagradas.
Um
dos conceitos mais antigos de cânon foi o de escritos sagrados. O fato de os
escritos de Moisés serem considerados sagrados se demonstra pelo lugar santo em
que eram guardados, ao lado da arca da aliança (Dt 31.24-26). Depois de o
templo ter sido edificado, esses escritos sagrados foram preservados em seu
interior (2Rs 22.8). A
consideração
especial dada a esses livros especiais mostra que eram tidos como canônicos, ou
sagrados.
Escritos autorizados.
A
canonicidade das Escrituras também é designada autoridade divina. A autoridade
dos escritos mosaicos foi salientada perante Josué e perante Israel (Js 1.8).
Todos os reis de Israel foram exortados a esse respeito: "Quando se
assentar no trono do seu reino, escreverá para si num livro uma cópia desta lei
[...]. Conservará a cópia consigo, e a lera todos os dias de sua vida, para que
aprenda a temer ao Senhor seu Deus, e a guardar todas as palavras desta
lei..." (Dt 17.18,19).
Visto
que esses livros vieram da parte de Deus, vieram revestidos de sua autoridade.
Sendo escritos dotados de autoridade, eram canônicos, i.e., normativos, para o
crente israelita.
Livros que conspurcam as mãos.
Na
tradição de ensino de Israel, surgiu o conceito de livros tão sagrados, ou
santos, que aqueles que os usassem ficariam com as mãos
"conspurcadas". Assim diz o Talmude;
"O evangelho e os livros dos hereges
não maculam as mãos; os livros de Bem Sira quaisquer outros livros que tenham
sido escritos desde sua época não são canônicos" (Tosefta Yadaim, 3,5). Ao
contrário, os livros do Antigo Testamento hebraico na verdade tornam imundas as
mãos, porque são santos. Por isso, só os livros que exigissem que seu leitor
passasse por uma cerimônia especial de purificação é que eram considerados
canônicos.
Livros proféticos.
Como
já dissemos antes (cap. 3), determinado livro só era considerado inspirado se
escrito por um profeta, ou porta-voz de Deus. As obras e as palavras dos falsos
profetas eram rejeitadas e jamais agrupadas e guardadas num lugar santo. De
fato, segundo Josefo , só os livros que haviam sido redigidos durante o período profético,
de Moisés até o rei Artaxerxes, podiam ser canônicos.
Assim
se expressou Josefo: "Desde Artaxerxes até a nossa época tudo tem sido registrado,
mas nada foi considerado digno do mesmo crédito das obras do passado, visto que
a sucessão exata de profetas cessou". Foram, canônicos apenas os livros de
Moisés a Malaquias, pois só esses foram, escritos por homens em sucessão
profética. Do período de Artaxerxes (século IV a.C.) até Josefo (século I d.C),
não houve sucessão profética; por isso, não faz parte do período profético. O Talmude faz a
mesma afirmação, dizendo:
"Até
esta altura [século IV a.C] os profetas profetizavam mediante o Espírito Santo;
a partir desta época inclinai os vossos ouvidos e ouvi as palavras dos
sábios" (Seder Olam Rabba, 30). Portanto, para ser canônico, qualquer
livro do Antigo Testamento deveria vir de uma sucessão profética, durante o
período profético.
A determinação da canonicidade
Essas
considerações em torno da canonicidade ajudam-nos a
esclarecer
o que significa Escrituras canônicas. A confusão existente entre
os
sentidos ativo e passivo da palavra cânon
trouxe ambigüidade à questão
do
que determina a canonicidade de um livro.
Alguns conceitos deficientes sobre o que determina a
canonicidade
Foram
apresentadas várias opiniões a respeito do que determina a canonicidade de um
escrito. Essas posições confunde os cânones, ou regras mediante as quais o
crente descobre que determinado livro é inspirado (sentido passivo da palavra cânon), com os
cânones dos escritos normativos que foram descobertos (sentido ativo da palavra
cânon),
Vamos
examiná-las de modo sucinto.
A concepção de que a idade determina a canonicidade.
A teoria segundo a qual a canonicidade de um livro é determinada
pela sua antigüidade, que tal livro veio a ser venerado por causa de sua idade,
erra o alvo por duas razões. Primeira: muitos livros velhíssimos, como o livro
dos justos e o livro das guerras do Senhor (Js 10.13 e Nm 21.14) nunca foram aceitos
no cânon. Em segundo lugar, há evidências de que os livros canônicos foram
introduzidos no cânon imediatamente, e não depois de haverem envelhecido. E o
caso dos livros de Moisés (Dt 31.24-26), de
Jeremias
(Dn 9.2) e dos escritos do Novo Testamento produzidos por Paulo
(2Pe
3.16).
A concepção de que a língua hebraica determina a
canonicidade.
É insatisfatória
também a teoria segundo a qual os livros que fossem escritos em hebraico, a
língua "sagrada" dos hebreus, seriam considerados sagrados, e os que
houvessem sido escritos em outra língua não seriam introduzidos no cânon. A
verdade é que nem todos os livros redigidos em hebraico foram aceitos, como é o
caso dos livros apócrifos e de outros documentos antigos não-bíblicos (v. Js
10.13). Além disso, há seções de alguns livros aceitos no cânon sagrado que não
foram escritas em hebraico
(Daniel
2.4b— 7.28 e Esdras 4.8— 6.18; 7.12-26 foram escritos em aramaico).
A concepção de que a concordância do texto com a Tora determina a sua canonicidade.
É
uma visão errônea, concernente à Tora
(lei deMoisés).
Nem é necessário mencionar que quaisquer livros que contradigam a Tora deviam
ser rejeitados, tendo em vista a crença de que Deus não poderia contradizer-se
em suas revelações posteriores. Essa
teoria,
porém, despreza duas questões de grande importância. Em primeiro lugar, não era
a Tora que determinava a canonicidade dos escritos que lhe sucederam.
Antes, o fator determinante da canonicidade da Tora era o mesmo
que determinaria a de todas as demais Escrituras Sagradas, a saber, que os
escritos fossem inspirados por Deus. Em outras palavras, a concepção de que a
concordância com a Tora determina a canonicidade de um documento é insatisfatória porque
não explica o que foi que determinou a canonicidade da Tora. Em
segundo lugar, tal teoria é demasiado generalizante. Muitos outros textos que
estavam de acordo com a Tora
não foram aceitos como inspirados. Os pais
judeus criam que seu Talmude e Midrash concordavam com a Tora,
mas jamais os consideraram canônicos. ‘O
mesmo vale dizer de muitos escritos cristãos em relação ao Novo Testamento.
A concepção de que o valor religioso determina a
canonicidade.
Essa é outra
hipótese: que o valor religioso de um livro determina su inclusão no cânon
sagrado. Outra vez temos aqui o carro adiante dos bois.
É axiomático afirmar
que, se um livro não tiver algum tipo de valor espiritual, deve ser rejeitado e
eliminado do cânon. Também é verdade que nem todos os livros que possuem algum
valor espiritual sejam automaticamente canônicos, como o comprovam alguns
tesouros da literatura judeu-cristã, dos quais são alguns apócrifos. O fato
mais importante, no entanto, é que essa teoria faz confusão entre causa e
efeito. Não é o valor religioso que determina a canonicidade de um texto; é sua
canonicidade que determina seu valor religioso. De forma mais precisa, não é o
valor de um livro que determina sua autoridade divina, mas a autoridade divina
é que determina seu valor.
A canonicidade é determinada pela inspiração
Os
livros da Bíblia não são considerados oriundos de Deus por se haver descoberto
neles algum valor; são valiosos porque provieram de Deus — fonte de todo bem. O
processo mediante o qual Deus nos concede sua revelação chama-se inspiração. É
a inspiração de Deus num livro que determina sua canonicidade. Deus dá
autoridade divina a um livro, o os homens de Deus o acatam. Deus revela, e seu
povo reconhece o que o Senhor revelou. A canonicidade é determinada por Deus e
descoberta pelos homens de Deus. A Bíblia constitui o "cânon", ou
"medida" pela qual tudo
mais
deve ser medido e avaliado pelo fato de ter autoridade concedida por Deus.
Sejam quais forem as medidas (i.e., os cânones) usadas pela igreja para descobrir
com exatidão que livros possuem essa autoridade canônica ou normativa, não se deve
dizer que "determinam" a canonicidade dos livros. Dizer que o povo de
Deus, mediante quaisquer regras de reconhecimento, "determina" que
livros são autorizados por inspiração de
Deus
só confunde a questão. Só Deus pode conceder a um livro autoridade absoluta e,
por isso mesmo, canonicidade divina.
O sentido primário da palavra cânon aplicado
às Escrituras é aplicado na acepção ativa, i.e., a Bíblia é a norma que governa
a fé. O sentido secundário, segundo o qual um livro é julgado por certos
cânones e é reconhecido como inspirado (o sentido passivo), não deve ser
confundido com a determinação divina da canonicidade. Só a inspiração divina
determina
a autoridade de um livro, i.e., se ele é canônico, de natureza normativa.
A descoberta da canocnicidade
O
povo de Deus Deus tem desempenhado um papel de cabal importância no processo de
canonização, ao longo dos séculos, ainda que tal papel não tenha natureza determinadora.
A comunidade de crentes arca com a tarefa de chegar a uma conclusão sobre quais
livros são realmente de Deus. A fim de cumprir esse papel, a igreja deve
procurar certos característicos próprios da
autoridade divina. Como poderia alguém reconhecer um livro inspirado só
por vê-lo? Quais são os elementos característicos que distinguem uma declaração
de Deus de um enunciado meramente humano? Vários critérios estavam
em jogo nesse processo de reconhecimento
Os princípios de descoberta da canonicidade
Nunca
deixaram de existir falsos livros e falsas mensagens (v. caps. 8 e
10). Por representarem ameaça constante, fez-se necessário que o povo de
Deus revisse cuidadosamente sua coleção de livros sagrados. Até mesmo
os livros aceitos por outros crentes ou em tempos anteriores foram
posteriormente
questionados pela igreja. São discerníveis cinco critérios básicos,
presentes no processo como um todo: 1) O livro é autorizado — afirma
vir da parte de Deus? 2) É profético
— foi escrito por um servo de Deus?
3) É digno de confiança — fala a verdade acerca de Deus, do homem
etc? 4) É dinâmico — possui o poder de Deus que transforma vidas?
5) É aceito pelo povo de Deus para o qual foi originariamente escrito
— é reconhecido como proveniente de Deus?
A autoridade de um livro. Como demonstramos antes (caps. 3 e 4), cada
livro da Bíblia traz uma reivindicação de autoridade divina. Com freqüência
a expressão categórica "assim diz o Senhor" está presente. Às vezes
o tom e as exortações revelam sua origem divina. Sempre existe uma declaração
divina. Nos escritos mais didáticos (os de ensino), existe uma declaração
divina a respeito do que os crentes devem fazer. Nos livros históricos,
as exortações ficam mais implícitas, e as declarações
autorizadas
são mais a respeito do que
Deus tem feito na história de seu
povo
(que é "a história narrada por Deus"). Se faltasse a um livro a
autoridade de Deus,
esse era considerado não-canônico, não sendo incluído,
no
cânon sagrado.
Vamos
ilustrar esse princípio de autoridade no que se relaciona ao
cânon.
Os livros dos profetas eram facilmente reconhecidos
como
canônicos
por esse princípio de autoridade. A expressão repetida "e o
Senhor
me disse" ou "a palavra do Senhor veio a mim" é evidência
abundante
de sua autoridade divina. Alguns livros não tinham nenhuma
reivindicação
de origem divina, pelo que foram rejeitados
e tidos como
não-canônicos.
Talvez tenha sido o caso do livro dos justos e do livro das
guerras
do Senhor, Outros livros foram questionados
e desafiados quanto à
sua
autoridade divina, mas por fim foram aceitos no cânon. É o caso de
Ester.
Não antes de se tornar perfeitamente patente que a proteção de Deus
e,
portanto, as declarações do Senhor a respeito de seu povo estavam
inqüestionavelmente
presentes em Ester, recebeu este livro lugar
permanente
no cânon judaico. Na verdade, o simples fato de alguns livros
canônicos
serem questionados quanto à sua legitimidade é uma segurança
de
que os crentes usavam seu discernimento. Se os crentes não estivessem
convencidos
da autoridade divina de um livro, este era rejeitado.
A autoria profética de um livro. Os livros proféticos só foram
produzidos
pela atuação do Espírito, que moveu alguns homens conhecidos
como
profetas (2Pe 1.20,21). A Palavra de Deus só foi entregue a seu povo
mediante
os profetas de Deus. Todos os autores bíblicos tinham um dom
profético,
ou uma função profética, ainda que tal pessoa não fosse profeta
por
ocupação (Hb 1.1).
Paulo
exorta o povo de Deus em Gálatas, dizendo que suas cartas
deveriam
ser aceitas porque ele era apóstolo de Cristo. Suas cartas não
foram
produzidas por um homem comum, mas por um apóstolo; não "por
homem
algum, mas por Jesus Cristo, e por Deus Pai, que o ressuscitou
dentre
os mortos" (Gl 1.1). Suas cartas deviam ser acatadas porque eram
apostólicas
— saíram de um porta-voz de Deus, ou profeta de Deus. Todos
os
livros deveriam ser rejeitados caso não proviessem de profetas
nomeados
por Deus; essa era a advertência de Paulo. Os crentes não
deviam
aceitar livros de alguém que falsamente afirmasse ser apóstolo de
Cristo
(2Ts 2.2), conforme advertência de Paulo também em 2Coríntios ti
.13
a respeito dos falsos profetas. As advertências de João sobre os falsos
messias
e para que os crentes provassem os espíritos enquadram-se nessa
mesma categoria (1Jo
2.18,19 e 4.1-3). Foi por causa desse princípio
profético que a
segunda carta de Pedro foi objetada por alguns da igreja
primitiva.
Enquanto os pais da igreja não ficaram convencidos de que essa
carta
não havia sido forjada, mas de fato viera da mão do apóstolo Pedro,
como
seu primeiro versículo o menciona, ela não recebeu lugar permanente
no
cânon cristão.
A confiabilidade de um livro. Outro sinal característico da inspiração
é
o ser um livro digno de confiança. Todo e qualquer livro que contenha
erros
factuais ou doutrinários (segundo o julgamento de revelações
anteriores)
não pode ter sido inspirado por Deus. Deus não pode mentir; as
palavras
do Senhor só podem ser verdadeiras e coerentes.
À
vista desse princípio, os crentes de Beréia aceitaram os ensinos de
Paulo
e pesquisaram as Escrituras, para verificar se o que o apóstolo estava
ensinando
estava de fato de acordo com a revelação de Deus no Antigo
Testamento
(At 17.11). O mero fato de um texto estar de acordo com uma
revelação
anterior não indica que tal texto é inspirado. Mas a contradição
de
uma revelação anterior sem dúvida seria indício de que o ensino não era
inspirado.
Grande
parte dos apócrifos foi rejeitada por causa do princípio da
confiabilidade.
Suas anomalias históricas e heresias teológicas os
rejeitaram;
seria impossível aceitá-los como vindos de Deus, a despeito de
sua
aparência de autorizados. Não podiam vir de Deus e ao mesmo tempo
apresentar
erros.
Alguns
livros canônicos foram questionados
com base nesse mesmo
princípio.
Poderia a carta de Tiago ser inspirada, se contradissesse o ensino
de
Paulo a respeito da justificação pela fé e nunca pelas obras? Até que a
compatibilidade
essencial entre os autores se comprovasse, a carta de Tiago
foi
questionada por alguns estudiosos. Outros questionaram Judas por
causa
de sua citação de livros não-confiáveis, pseudepigráficos (vv 9,14).
Desde
que ficasse entendido que as citações feitas por Judas 1 não podiam
conferir
nenhuma autoridade àqueles livros, assim como as citações feitas
por
Paulo, de poetas não-cristãos (v. tb. At 17.28 e Tt 1.12), não poderia
conferir
a esses nenhuma autoridade, nenhuma razão haveria para que a
carta
de Judas fosse rejeitada.
A natureza dinâmica de um livro. O quarto teste de canonicidade, às
vezes menos explícito
do que alguns dos demais, era a capacidade do texto
de
transformar vidas: "... a palavra de Deus é viva e eficaz..." (Hb
4.12). O
resultado
é que ela pode ser usada "para ensinar, para repreender, para
corrigir,
para instruir em justiça" (2Tm 3.16,17).
O
apóstolo Paulo revelou-nos que a habilidade dinâmica das
Escrituras
inspiradas estava implicada na aceitação
das Escrituras como
um
todo, como mostra 2Timóteo 3.16,17. Disse Paulo a Timóteo: "... as
sagradas
letras [...] podem fazer-te sábio para a salvação..." (v. 15). Em
outro
texto, Pedro se refere ao poder de evangelização e de edificação
cristã
da Palavra (1Pe 1.23; 2.2). Outros livros e mensagens foram
rejeitados porque
apresentavam falsas esperanças (1Rs 22.6-8) ou faziam
rugir
alarmes falsos (2Ts 2.2). Assim, não conduziam o crente ao
crescimento
na verdade de Jesus Cristo. Assim dissera o Senhor:
"Conhecereis
a verdade, e a verdade vos libertará" (Jo 8.32). O ensino falso
jamais
liberta; só a verdade possui poder emancipador.
Alguns
livros da Bíblia, como Cântico dos Cânticos e Eclesiastes,
foram
questionados por alguns estudiosos os julgarem isentos desse poder
dinâmico,
capaz de edificar o crente. Desde que se convenceram de que
Cântico
dos Cânticos não era sensual, mas profundamente espiritual, e que
Eclesiastes
não é um livro cético e pessimista, mas positivo e edificante
(e.g.,
12.9,10), pouca dúvida restou acerca de sua canonicidade.
A aceitação de um livro. A marca final de um documento escrito
autorizado
é seu reconhecimento pelo povo de Deus ao qual
originariamente
havia destinado. A Palavra de Deus, dada mediante seus
profetas
e intendo sua verdade, deve ser reconhecida pelo seu povo.
Gerações
posteriores de crentes procuraram constatar esse fato. É que, se
determinado
livro fosse recebido, coligido e usado como obra de Deus,
pelas
pessoas a quem originariamente se havia destinado, ficava
comprovada
a sua canonicidade. Sendo o sistema de comunicações e de
transportes
atrasado como era nos tempos antigos, às vezes a determinação
da
canonicidade de um livro da parte dos pais da igreja exigia muito
tempo,
e esforço. É por essa razão que o reconhecimento definitivo,
completo,
por toda a igreja cristã, dos 66 livros do cânon das Escrituras
Sagradas
exigiu tantos anos (v. cap. 9).
Os
livros de Moisés foram aceitos
imediatamente pelo povo de Deus.
Foram coligidos,
citados, preservados e até mesmo impostos sobre as
novas
gerações (v. cap. 3). As cartas de Paulo foram recebidas
imediatamente
pelas igrejas às quais haviam sido dirigidas (1Ts 2.13), e até
pelos
demais apóstolos (2Pe 3.16). Alguns escritos foram imediatamente
rejeitados pelo povo
de Deus, por não apresentarem autoridade divina (2Ts
2.2).
Os falsos profetas (Mt 7.21-23) e os espíritos de mentira deveriam ler
testados
e rejeitados (1Jo 4.1-3), como se vê em muitos exemplos dentro da
própria
Bíblia (cf. Jr 5.2; 14.14). Esse princípio de aceitação levou alguns a
questionar durante
algum tempo certos livros da Bíblia, como 2 e 3João.
São
de natureza particular e de circulação restrita; é compreensível pois,
que
houvesse alguma relutância em aceitá-los, até que essas pessoas em
dúvida
tivessem absoluta certeza de que tais livros haviam lido recebidos
pelo
povo de Deus do século I como cartas do apóstolo Joio.
É
quase desnecessário dizer que nem todas as pessoas deram pronto
reconhecimento
às mensagens dos profetas de Deus. Deus assumia a defesa
rigorosa
de seus profetas, contra todos quantos os rejeitassem (e.g., 1Rs
22.1-38).
E, quando o Senhor era desafiado, mostrava quem era seu povo.
Quando
a autoridade de Moisés foi desafiada por Core e seus asseclas, a
terra
se abriu e os engoliu vivos (Nm 16). O papel do povo de Deus era
decisivo
no reconhecimento da Palavra de Deus. O próprio Deus havia
determinado
a autoridade que envolvia os livros do cânon que ele inspirara,
mas
o povo de Deus também havia sido chamado para essa tarefa:
descobrir
quais eram os livros dotados de autoridade, e quais eram falsos.
Para
auxiliar o povo de Deus nessa descoberta, havia cinco testes de
canonicidade.
O procedimento para a descoberta da canonicidade
Quando
nos pomos a discorrer sobre o processo de canonização, não
devemos
imaginar uma comissão de pais da igreja, carregando pilhas de
livros,
tendo diante dos olhos a lista desses cinco princípios orientadores.
Tampouco
houve uma comissão ecumênica nomeada com o objetivo de
canonizar
a Bíblia. O processo era muitíssimo natural e dinâmico. O
desenvolvimento
da história real da criação do cânon do Antigo e do Novo
Testamento
será discutido mais tarde (caps. 7 e 9). O que devemos registrar
aqui
é como as cinco regras determinadoras da canonicidade foram 1
usadas
no processo de descobrir que livros eram inspirados por Deus,
sendo, por isso,
canônicos.
Alguns princípios estão apenas implícitos no processo.
Embora todos
os
cinco elementos estejam presentes em cada documento escrito e
inspirado,
nem todas as regras de reconhecimento ficam visíveis na decisão
sobre
a provável (ou improvável) inspiração de cada livro. Nem sempre
parecia
imediatamente óbvio ao antigo povo de Deus que determinado
livro
fosse "dinâmico" ou "autorizado". Era-lhes mais óbvio o
fato de um
livro
ser "profético" e "aceito". Você pode ver facilmente como a
expressão
implícita
"assim diz o Senhor" desempenhava papel de grande importância
na
descoberta e na determinação dos livros canônicos, reveladores do plano
redentor
global de Deus. No entanto, às vezes acontecia o contrário; em
outras
palavras, o poder e a autoridade de um livro eram mais visíveis do
que
sua autoria (e.g., Hebreus). De qualquer maneira, todas as cinco
características
estavam presentes na descoberta e na determinação de cada
livro
canônico, ainda que alguns desses princípios só fossem aplicados de
modo
implícito.
Alguns princípios atuavam de modo negativo no
processo. Algumas
das
regras de reconhecimento atuavam de modo mais negativo que outras.
Por
exemplo, o princípio da confiabilidade eliminava mais depressa os
livros
não-canônicos, não tendo a mesma rapidez para indicar os
canônicos.
Não existem ensinos falsos que, apesar disso, sejam canônicos;
no
entanto, há muitos escritos que expõem a verdade sem jamais terem
sido
inspirados. De modo semelhante, muitos livros que edificam ou
apresentam
dinâmica espiritual positiva não são canônicos, embora
nenhum
livro canônico deixe de ter importância no plano salvífico de
Deus.
Semelhantemente,
um livro pode reivindicar autoridade sem ser
inspirado
por Deus, como o mostram os muitos livros apócrifos, mas
nenhum
livro pode ser canônico sem que seja revestido de autoridade
divina.
Em outras palavras, se a um livro faltar autoridade, é certo que não
veio
de Deus. Mas o simples fato de um livro reivindicar autoridade para si
mesmo
não o torna, ipso facto, inspirado. O princípio da aceitação tem
função
primordialmente negativa. Nem mesmo o fato de um livro receber
aceitação
de parte do povo de Deus significa prova de sua inspirado.
Muitos
anos depois, passadas algumas gerações de cristãos, alguns destes,
mal-informados a
respeito da aceitação ou da rejeição pelo povo de Deus
dos
livros propostos, atribuíram reconhecimento local, temporal, a certos
livros
não-canônicos (e.g., alguns livros apócrifos; v. caps. 8 e 10). O
simples
fato de um livro qualquer ter sido aceito em algum lugar, por
alguns
crentes em Cristo, de modo algum constitui prova da canonicidade e
da
inspiração de tal livro. O reconhecimento inicial de determinado livro,
pelo
povo de Deus, que estava na melhor posição possível para testar a
autoridade
profética desse livro, é elemento de cabal importância. Levou
algum
tempo até que todos os segmentos das gerações posteriores de
cristãos
ficassem totalmente informados a raspei to das circunstâncias
iniciais.
Assim, a aceitação por parte desses cristãos posteriores é
importante,
mas funciona como apoio adicional.
O princípio realmente essencial substitui todos os
demais princípios.
No
alicerce de todo o processo de reconhecimento existe um princípio
fundamental
— o da natureza profética do livro. Se um livro houver sido
escrito
por um profeta prestigiado e honrado de Deus, e se ele afirmar que
apresentará
uma enunciação autorizada da parte de Deus, nem há
necessidade
de formular as demais perguntas. É claro que o povo de Deus
reconheceu
esse livro como poderoso e verdadeiro, quando lhes foi
entregue
por um profeta de Deus. Quando não havia confirmação direta da
vocação
desse profeta da parte de Deus (como freqüentemente havia, cf.
Êx
4.1-9), então a confiabilidade, a habilidade dinâmica desse livro e sua
aceitação
pelo povo, ou seja, pela comunidade cristã original, seria
elemento
essencial para o reconhecimento posterior de sua inspiração.
A
questão de poder ou não a falta de confiabilidade afastar a confirmação
de um livro profético é puramente hipotética. Nenhum livro concedido
por Deus pode ser falso. Se um livro que se considera profético apresenta
falsidade inquestionável, é preciso que se reexaminem suas credenciais
proféticas. Deus não pode mentir. Dessa forma, os outros quatro
princípios servem para conferir o caráter profético dos livros do cânon.
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