Pois eu odeio o divórcio (Malaquias 2:16-17)

"Pois eu odeio o divórcio (כִּי-שָׂנֵא שַׁלַּח)", diz o Senhor" (Malaquias 2:16-17).

Este versículo tem sido tradicionalmente interpretado como uma condenação direta do divórcio por parte de Deus. No entanto, um exame mais profundo da gramática hebraica sugere que a tradução comum "Eu odeio o divórcio" pode não ser a mais precisa.

A gramática hebraica e sua tradução correta

No texto hebraico original, encontramos a expressão כִּי-שָׂנֵא שַׁלַּח (ki sane shalach), cuja análise revela uma estrutura gramatical diferente da tradução tradicional. O termo כִּי (ki) pode significar "porque" ou "se", dependendo do contexto. O verbo שָׂנֵא (sane) está no masculino singular e significa "ele odeia". Já שַׁלַּח (shalach) vem do verbo שלח (shalach), que significa "enviar" ou "expulsar".

Assim, a estrutura gramatical aponta para um sujeito masculino que realiza a ação de odiar e divorciar, em vez de indicar diretamente que Deus está expressando Seu próprio ódio pelo divórcio.

Dessa forma, a tradução que encontramos na Bíblia Padrão Cristã (CSB) parece capturar melhor o sentido original:

"Se ele odeia e se divorcia de sua mulher", diz o Senhor Deus de Israel, "ele cobre suas vestes com injustiça", diz o Senhor dos Exércitos" (Malaquias 2:16-17, CSB).

O contexto das leis de divórcio em Deuteronômio

Essa formulação se alinha mais com a legislação mosaica sobre o divórcio encontrada em Deuteronômio 24:1-4. O texto apresenta um cenário em que um homem encontra algo "indecente" em sua esposa e decide se divorciar dela, entregando-lhe uma certidão de divórcio (sefer keritut, ספר כריתות):

"Se um homem se casar com uma mulher, mas ela se tornar desagradável para ele porque ele acha algo indecente nela, ele pode escrever-lhe uma certidão de divórcio, entregá-la a ela e mandá-la embora de sua casa..." (CSB, Deuteronômio 24:1-4).

Em ambas as passagens, o divórcio não é apresentado como algo que Deus ordena ou deseja, mas como uma realidade regulada dentro da lei mosaica. Malaquias 2:16 parece advertir contra a injustiça associada ao divórcio arbitrário e suas consequências morais e sociais, em vez de simplesmente expressar uma proibição absoluta.

O significado de "odiar" na linguagem bíblica

Outro aspecto importante é a compreensão da palavra שָׂנֵא (sane), traduzida como "odiar". No hebraico bíblico, essa palavra nem sempre significa "ódio" no sentido moderno de desprezo ou aversão intensa.

Por exemplo, em Malaquias 1:2-3, encontramos a frase:

"Jacó eu amei, mas Esaú eu odiei" (NASB, Malaquias 1:2-3).

Se tomarmos essa tradução ao pé da letra, pareceria indicar que Deus nutria um ódio pessoal contra Esaú. No entanto, essa é uma expressão idiomática hebraica que significa, na verdade, que Deus favoreceu Jacó em Seu plano de aliança, sem necessariamente ter uma atitude de repulsa contra Esaú.

O mesmo princípio se aplica a uma declaração de Jesus:

"Se alguém vem a mim e não odeia seu pai, mãe, esposa, filhos, irmãos e irmãs, e até mesmo sua própria vida, não pode ser meu discípulo" (Lucas 14:26).

Aqui, o verbo "odiar" não deve ser interpretado literalmente. Em vez disso, essa é uma forma hebraica de expressar prioridade e comparação: amar a Cristo deve ser tão supremo que, em comparação, o amor por outras relações parece menor.

A implicação para Malaquias 2:16

Se aplicarmos essa compreensão a Malaquias 2:16, podemos considerar que, mesmo que Deus estivesse falando diretamente, a frase "eu odeio o divórcio" poderia ser entendida mais como "Eu não favoreço o divórcio" ou "O divórcio não é o ideal dentro do meu plano". Isso se encaixa com a ideia de que, embora permitido pela lei, o divórcio não era desejado por Deus, especialmente quando feito injustamente e sem consideração pelas consequências para a esposa e a família.

Conclusão

A gramática hebraica de Malaquias 2:16 sugere que a melhor tradução seria:

"Se um homem odeia e se divorcia de sua esposa, ele cobre suas vestes com injustiça", ao invés de "Eu odeio o divórcio".

Essa leitura está em harmonia com o contexto mais amplo da Torá e com o uso idiomático de sane no hebraico bíblico. Assim, o versículo não apenas alerta contra o divórcio injusto, mas destaca a responsabilidade do marido que, ao romper a aliança matrimonial de forma egoísta, se torna culpado de injustiça diante de Deus.

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