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Identidade, Imagem e a Velha Tentação da Idolatria

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Em todas as épocas, o ser humano buscou entender quem é, de onde veio e para onde vai. Essas perguntas não surgem apenas nos momentos de crise, mas estão presentes na própria textura da existência. A tradição bíblica sempre ensinou que a identidade humana não nasce do vazio nem da autonomia absoluta, mas de um ato pessoal e amoroso do Criador: fomos feitos à imagem de Deus. Esse ponto de partida é a âncora que sustenta tudo o que somos. Quando afastamos essa verdade, abrimos caminho para a confusão, a desordem e, inevitavelmente, para a idolatria. A Escritura apresenta a identidade como algo recebido, não construído artificialmente. Deus molda o ser humano para refletir Seu caráter, Sua moralidade, Seu senso de ordem e propósito. Carregamos em nós a marca do Deus que criou todas as coisas, e é essa marca que nos distingue e ao mesmo tempo nos responsabiliza. O homem não foi criado para ser o centro do universo, mas para refletir a glória Daquele que é o verdadeiro centro. Quando iss...

Quando a vida volta a fluir

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“Zuwb”: Quando a Vida Flui da Fonte Eterna A riqueza das Escrituras se manifesta, muitas vezes, em palavras que, ao serem traduzidas, perdem nuances que iluminam verdades espirituais profundas. Uma dessas palavras é o verbo hebraico זוּב (zuwb) , frequentemente traduzido como “fluir”, “jorrar”, “emanar” ou “descarregar”. Embora à primeira vista pareça apenas um termo descritivo de movimento, seu uso bíblico revela implicações espirituais de grande profundidade. Zuwb pertence ao campo semântico do derramar contínuo. Em sua forma básica (qal), significa: Fluir , jorrar, derramar; Definhar , minguar (em sentido figurado, quando a vida está escoando); Ter um fluxo , como no caso da mulher com fluxo constante (Lv 15); Estar fluindo em estado contínuo (particípio). Seu espectro de sentido vai desde o movimento abundante de uma fonte transbordante até a perda de vitalidade pela descarga ininterrupta. Essa dupla significação — ora positiva, ora negativa — é um espelho da pr...

DEUS SE LEMBROU DE NOÉ

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📖 Texto base: Gênesis 8:1 — “Então Deus se lembrou de Noé, de todos os animais selvagens e domésticos que estavam com ele na arca; e Deus fez passar um vento sobre a terra, e as águas começaram a baixar.” 1️⃣ Introdução – O Silêncio Antes da Voz Por cento e cinquenta dias , o mundo foi coberto por águas sem limites. O som das chuvas cessou, mas o silêncio de Deus permaneceu. Nenhum trovão, nenhuma resposta, nenhum novo comando — apenas espera. Noé, o homem justo em sua geração, estava dentro da arca — tevá (תֵּבָה) em hebraico, que também significa “palavra” ou “mensagem”. É como se o Senhor tivesse colocado Noé dentro de uma palavra viva , um refúgio verbal e profético. “O Senhor fecha a arca por fora” (Gn 7:16) — porque às vezes Deus precisa te selar por dentro da promessa , antes de te enviar para um novo tempo. Lá dentro, havia preservação — mas também silêncio. Do lado de fora, havia destruição — mas também propósito. E então, no momento exato do Céu, surge a s...

Não toqueis nos meus ungidos.............

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  “Não toqueis nos meus ungidos” aparece em dois lugares na Escritura: 1 Crônicas 16:22 Salmo 105:15 Ambos os textos são praticamente idênticos: “Não toqueis nos meus ungidos, nem maltrateis os meus profetas.” (ARA) A quem Deus estava se referindo? O contexto não é sobre pastores ou líderes da igreja . Deus está falando dos patriarcas — Abraão, Isaque e Jacó — e de como Ele os guardou enquanto peregrinavam em terras estrangeiras. No Salmo 105 , o salmista está recontando a história de Israel , lembrando: A promessa feita a Abraão A peregrinação dos patriarcas A proteção de Deus sobre eles O cuidado de Deus para que reis de outras nações não os maltratassem Ou seja, “ungidos” aqui significa o povo escolhido por Deus naquela fase da história, antes mesmo de existirem reis em Israel. O sentido original “Ungido” não era um título exclusivo de alguém acima dos outros , mas sim aquele escolhido por Deus para um propósito específico — e isso incluía...

A Vontade Decretiva de Deus — O que Ele determina soberanamente

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A vontade decretiva é aquilo que Deus ordena, estabelece e garante que se cumpra. Nada pode frustrar essa vontade, pois ela pertence ao governo soberano do Senhor sobre toda a criação. Nela estão incluídos: Os planos eternos de Deus (Isaías 46:9–10 — “Meu propósito permanecerá de pé, e farei tudo o que me agrada.”) A preservação da História e seus rumos. A eleição, redenção e consumação do Seu povo. Tudo o que Ele determinou antes da fundação do mundo. Essa vontade é, muitas vezes, oculta aos nossos olhos ; nós a percebemos apenas quando ela acontece. É como o bordado visto pelo avesso: não compreendemos todas as linhas, mas confiamos que o Artista enxerga o desenho completo. A tradição cristã sempre ensinou que descansar na vontade decretiva é descansar na soberania de Deus — e isso gera paz profunda para a alma que teme o Senhor. A Vontade Perceptiva de Deus — O que Ele nos ordena obedecer A vontade perceptiva (ou revelada) é aquilo que Deus nos mostra claramente...

Quando o riso se torna promessa: o significado de Yitzḥaq (Isaque) e a redenção do riso na fé bíblica

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Quando o Senhor visitou Abraão e Sara, prometendo-lhes um filho na velhice, a reação humana diante do impossível foi o riso . No entanto, esse riso — inicialmente expressão de incredulidade e cansaço — seria transformado pelo próprio Deus em símbolo de fé e promessa . A história do nascimento de Isaque é um retrato vívido de como o divino redime até as reações mais humanas, convertendo o riso de dúvida em uma melodia de esperança. O riso da incredulidade: o contexto humano de Sara Em Gênesis 18:12 lemos: 📖 “Depois de envelhecida, e sendo também o meu senhor já velho, terei ainda prazer?” O texto hebraico diz: וַתִּצְחַ֥ק שָׂרָ֖ה בְּקִרְבָּ֣הּ לֵאמֹ֑ר אַחֲרֵ֤י בְלֹתִי֙ הָֽיְתָה־לִּ֣י עֶדְנָ֔ה וַאדֹנִ֖י זָקֵֽן׃ Vattitzḥaq Sarah beqirbah lemor: acharei veloti haytah li ‘ednah, va’adoni zaken. A palavra וַתִּצְחַק ( vattitzḥaq ) vem da raiz צ־ח־ק ( tz-ḥ-q ) , que significa rir, escarnecer, brincar . Essa raiz, curiosamente, pode ser positiva ou negativa, dependendo do contexto...

A Tripartição da Lei — Moral, Cerimonial e Civil

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  Desde cedo, a Igreja percebeu que a Lei dada por Deus a Moisés não era um bloco uniforme, mas um conjunto de mandamentos com naturezas distintas. Essa distinção — lei moral, lei cerimonial e lei civil — nunca serviu para dividir o coração da Lei, mas para ajudar o povo de Deus a compreender como cada parte se aplica ao longo da história da salvação. Essa visão honrada pelos séculos preserva o respeito pela Antiga Aliança e a continuidade da revelação divina. 1. Lei Moral — O caráter eterno de Deus revelado A Lei Moral expressa os princípios eternos do caráter do Senhor e, por isso, nunca muda . Ela é resumida nos Dez Mandamentos e reafirmada por Cristo nos dois grandes mandamentos: amar a Deus e amar ao próximo. Características: Universal e irrevogável. Aplica-se a todos os povos, em todas as épocas. Revela o padrão de santidade do próprio Deus. Cristo não a aboliu; antes, a cumpriu perfeitamente (Mateus 5:17). A tradição da Igreja sempre viu a Lei Moral c...