Como houve luz se o sol ainda não havia sido criado?
A pergunta permanece tão viva hoje quanto no primeiro versículo: como poderia haver luz antes do sol? A resposta bíblica não é científica no sentido moderno, mas ontológica e teológica. Gênesis não começa explicando mecanismos; começa revelando ordem, sentido e origem.
Quando o texto hebraico afirma: “וַיֹּאמֶר אֱלֹהִים יְהִי אוֹר וַיְהִי־אוֹר” — “E Deus disse: haja luz, e houve luz” (Gn 1:3), a palavra usada é אוֹר (’ôr). Não é uma luz derivada, refletida ou instrumental. É luz em si, não dependente de astros. No pensamento hebraico, ’ôr está associada à manifestação da vida, à revelação do que estava oculto, à possibilidade de percepção. Não é apenas algo que ilumina objetos; é aquilo que torna a realidade habitável.
Em contraste, a escuridão inicial é chamada חֹשֶׁךְ (ḥōshekh) — não o mal, mas a ausência de forma, direção e distinção. Antes da criação, não havia conflito entre bem e mal; havia indistinção. Por isso, o texto diz que Deus “separou” a luz das trevas. O verbo usado é בָּדַל (badál), o mesmo empregado depois para separações sagradas: santo/profano, puro/impuro. Separar, em Gênesis, é tornar algo funcional para a vida.
Então vem um detalhe decisivo: “E Deus chamou (וַיִּקְרָא, vayiqrá) a luz Dia (יוֹם, yom), e às trevas chamou Noite (לַיְלָה, laylá)” (Gn 1:5). Na Bíblia, nomear não é rotular; é conferir identidade, função e vocação. Deus não apenas cria fenômenos — Ele lhes dá lugar dentro de uma ordem viva.
Note algo essencial: o texto não diz “primeiro dia” (yom rishon), mas “yom echad” — “dia um”. No hebraico bíblico, isso indica unidade, inteireza, não contagem cronológica. O tempo nasce como um todo integrado, não fragmentado. Somente depois os dias passam a ser numerados. Antes de haver calendário, há ritmo.
Além disso, o dia bíblico começa com “erev” (עֶרֶב, tarde) e depois “boker” (בֹּקֶר, manhã). A luz surge a partir da escuridão, não o contrário. Esse padrão atravessa toda a Escritura: redenção nasce do caos, revelação brota do silêncio, vida emerge do pó. O Deus de Israel não teme a noite; Ele trabalha a partir dela.
Quando Gênesis 1:2 descreve a terra como תֹהוּ וָבֹהוּ (tohu va-vohu), não está falando de maldade, mas de desorganização sem propósito. O primeiro gesto divino não é criar matéria, mas ordenar o tempo. Só depois virão os espaços, os luminares, os ciclos agrícolas. Antes de tudo, Deus estabelece quando — porque sem tempo ordenado, nada pode florescer.
Isso nos revela algo profundo: o sol não cria o dia; o dia antecede o sol. O sol apenas governa um ritmo que já existia. A fonte da luz não é um astro, mas o próprio Deus, como afirmará mais tarde o profeta: “O Senhor será a tua luz perpétua” (Isaías 60:19).
Por isso, a Bíblia termina como começa. Em Apocalipse, lemos que não haverá sol nem lua, porque “a glória de Deus a ilumina”. A primeira luz de Gênesis e a última luz da eternidade têm a mesma origem.
Quando vivemos desconectados do ritmo divino, tratamos o tempo como inimigo. Mas, na visão bíblica, o tempo é dom, não tirano. Não “damos tempo” a Deus; andamos dentro do tempo que já pertence a Ele. Cada manhã não é apenas um novo dia — é um eco daquele primeiro yom echad, quando a luz venceu a indistinção e a ordem venceu o caos.
Viver com fé é reaprender esse ritmo antigo: luz e noite, trabalho e descanso, revelação e silêncio. O Deus que disse “haja luz” continua dizendo, dia após dia, haja ordem, haja vida, haja sentido.
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