Estudar a Bíblia Salva?
Esse estudo não era superficial. Passavam horas analisando minúcias do texto sagrado, contando palavras, letras, repetições e estruturas. Sabiam que a eles haviam sido confiados “os oráculos de Deus” (Rm 3.2). Havia ali um profundo senso de responsabilidade espiritual e histórica. Nada disso é desprezível. Pelo contrário, trata-se de um legado de zelo que atravessou séculos e preservou fielmente o texto bíblico.
O problema, porém, não estava no estudo em si, mas na expectativa depositada nele. De alguma forma, muitos passaram a acreditar que o acúmulo de conhecimento bíblico detalhado lhes garantiria, por si só, um bom relacionamento com Deus. Jesus toca exatamente nesse ponto quando diz: “Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, porque pensam que nelas vocês têm a vida eterna”. A afirmação é surpreendente — e reveladora. As Escrituras, que deveriam ser o caminho para Cristo, tornaram-se, para eles, um fim em si mesmas.
Aqui está o equívoco trágico: as Escrituras não concedem vida por si mesmas. Elas apontam para Aquele que é o Autor da vida. Seu propósito é conduzir o leitor até Cristo, não substituí-Lo. Quando o texto sagrado é separado da Pessoa para quem ele testemunha, perde-se o coração da revelação. Em vez de irem a Cristo para receber vida, imaginavam encontrá-la nas próprias páginas do texto.
A ilustração é quase inevitável: é como receber do médico uma receita cuidadosamente escrita e, em vez de buscar o remédio indicado, engolir o papel acreditando que isso trará cura (John Stott). A receita é essencial, correta e necessária — mas não é o remédio. Da mesma forma, a Escritura é santa, verdadeira e indispensável, mas sua função maior é conduzir ao Salvador.
Essa advertência permanece atual. O zelo pelo texto, quando não acompanhado de humildade e fé viva, pode se tornar estéril. O caminho antigo da fé sempre ensinou que a Palavra deve ser estudada com profundidade, sim, mas recebida com o coração quebrantado e conduzida até Cristo. Quando a Escritura cumpre esse papel, ela deixa de ser apenas analisada e passa a ser vivificada — porque nos leva Àquele que dá vida eterna.
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