Estudar a Bíblia Salva?

 Os judeus contemporâneos de Jesus Cristo enfrentaram um paradoxo profundo e, ao mesmo tempo, solene. Eram homens e mulheres profundamente comprometidos com o estudo das Escrituras. Não se pode negar seu zelo. Dedicavam-se com disciplina, reverência e rigor ao Antigo Testamento. Como o próprio Jesus reconheceu, eles “examinavam cuidadosamente as Escrituras” (cf. Jo 5.39). E, de fato, examinavam.

Esse estudo não era superficial. Passavam horas analisando minúcias do texto sagrado, contando palavras, letras, repetições e estruturas. Sabiam que a eles haviam sido confiados “os oráculos de Deus” (Rm 3.2). Havia ali um profundo senso de responsabilidade espiritual e histórica. Nada disso é desprezível. Pelo contrário, trata-se de um legado de zelo que atravessou séculos e preservou fielmente o texto bíblico.

O problema, porém, não estava no estudo em si, mas na expectativa depositada nele. De alguma forma, muitos passaram a acreditar que o acúmulo de conhecimento bíblico detalhado lhes garantiria, por si só, um bom relacionamento com Deus. Jesus toca exatamente nesse ponto quando diz: “Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, porque pensam que nelas vocês têm a vida eterna”. A afirmação é surpreendente — e reveladora. As Escrituras, que deveriam ser o caminho para Cristo, tornaram-se, para eles, um fim em si mesmas.

Aqui está o equívoco trágico: as Escrituras não concedem vida por si mesmas. Elas apontam para Aquele que é o Autor da vida. Seu propósito é conduzir o leitor até Cristo, não substituí-Lo. Quando o texto sagrado é separado da Pessoa para quem ele testemunha, perde-se o coração da revelação. Em vez de irem a Cristo para receber vida, imaginavam encontrá-la nas próprias páginas do texto.

A ilustração é quase inevitável: é como receber do médico uma receita cuidadosamente escrita e, em vez de buscar o remédio indicado, engolir o papel acreditando que isso trará cura (John Stott). A receita é essencial, correta e necessária — mas não é o remédio. Da mesma forma, a Escritura é santa, verdadeira e indispensável, mas sua função maior é conduzir ao Salvador.

Essa advertência permanece atual. O zelo pelo texto, quando não acompanhado de humildade e fé viva, pode se tornar estéril. O caminho antigo da fé sempre ensinou que a Palavra deve ser estudada com profundidade, sim, mas recebida com o coração quebrantado e conduzida até Cristo. Quando a Escritura cumpre esse papel, ela deixa de ser apenas analisada e passa a ser vivificada — porque nos leva Àquele que dá vida eterna.

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