Estações da Vida
“Porque eis que passou o inverno; a chuva cessou, e se foi; aparecem as flores na terra, o tempo de cantar chega, e a voz da rola ouve-se em nossa terra. A figueira já deu os seus figos verdes, e as vides em flor exalam o seu aroma; levanta-te, meu amor, formosa minha, e vem.” (Ct 2:11-13)
“Enquanto durar a terra não deixará de haver sementeira e ceifa, frio e calor, verão e inverno, dia e noite.” (Gn 8:22)
Introdução
A natureza conhece o seu tempo. Ela não discute com as estações: aprende a linguagem de cada uma e se move conforme a sabedoria do Criador. Cada período do ano carrega traços próprios e, juntos, compõem a beleza da harmonia dos contrastes. O outono sopra ventos e derrama folhas: é renovação. O inverno traz frio, chuvas e pouca luz: é retraimento. A primavera veste a terra de cores e perfume: é esperança. O verão exalta o brilho do sol e a força da luz: é plenitude.
Assim também acontece conosco. A vida humana — e a vida espiritual — atravessa estações. Porém, diferentemente do calendário, quem determina o tempo de cada fase é Deus. Há pessoas que permanecem longamente em um “inverno” interior; outras o atravessam em meses. O mesmo ocorre com primavera, verão e outono. O Senhor governa os ciclos e usa cada um para preparar, corrigir, amadurecer e frutificar. Israel caminhou quarenta anos no deserto — um longo tempo de “outono e inverno” — até ser conduzido a um novo tempo, semelhante à “primavera e ao verão”.
Se no mundo natural as estações mantêm o equilíbrio do planeta e sustentam o plantio, a colheita e a vida, no mundo da alma elas também cumprem um propósito. Perdas e ganhos, frio e calor, sombras e brilho fazem parte de uma existência que se refaz e, ainda que conheça dor e derrota, segue adiante. O Deus soberano, conhecedor de tudo, não nos fez para um único clima. Ninguém suporta um inverno interminável, nem aguenta um verão sem fim. Precisamos da alternância: do consolo suave e do desafio necessário, do recolhimento que aprofunda e da alegria que fortalece.
Ao dizer “porque eis que passou”, Salomão nos lembra que muito do que parece definitivo é passageiro. Dinheiro, fama, status, aplausos — tudo passa. Mas a fé, a esperança e a salvação permanecem. E isso muda o modo como atravessamos qualquer estação.1. O que podemos aprender com a natureza?
A criação sempre nos adverte quando ultrapassamos limites. O corpo fala quando descuidamos dele; a mente pesa quando excedemos o trabalho; o coração se esgota quando acumulamos noites sem descanso. Há, nesse mecanismo, uma lição simples: Deus estabeleceu ritmos. Ignorá-los costuma custar caro.
As estações do ano podem ser chamadas de “ciclo reprodutivo da terra”, mas também podem ilustrar o caminho do cristão. Não para fixar prazos, e sim para discernir processos. Se há estações naturais, há também estações espirituais. E elas são indispensáveis para a frutificação. Há períodos em que tudo floresce e parece fácil; em outros, o céu parece fechado e o chão, duro. Numa fase, colhemos; em outra, preparamos; em outra, suportamos; e em outra, recomeçamos.
A sabedoria tradicional nos ensina algo precioso: é melhor aprender a conviver com as estações do que resistir a elas. Porque, como se diz há muito tempo, não há bem que sempre dure, nem mal que nunca passe.
A Primeira Estação – Inverno
Tempo de frio, provação e profundidade
Depois do outono, chega o inverno: vento forte, pouca luz, paisagem aparentemente estéril. Na vida espiritual, é quando o vento varre galhos enfraquecidos: vaidades, arrogâncias, ilusões. Deus permite que o que é superficial caia, para que o que é essencial permaneça. Assim como a árvore aprofunda raízes para sobreviver ao frio, o crente é chamado a buscar alimento onde quase ninguém busca: na presença de Deus, na Palavra, na oração simples e fiel.
O inverno revela o quanto nos preparamos. A velha história da formiga e do gafanhoto continua verdadeira: quem não se prepara na bonança sofre no frio. Por isso, quando tudo parece terminar, é tempo de beber de Deus. Ele está no controle, e pertencemos a Ele.
No inverno, a alma tende a se retrair: fala menos, sente menos entusiasmo, perde o brilho. Surgem solidão, perguntas agudas, crises existenciais. A escuridão chega cedo, e o coração deseja uma lareira, um cobertor, uma voz amiga. É por isso que a comunhão se torna tão valiosa. Paulo desejou passar o inverno com os irmãos (1Co 16:6), reconhecendo que a estação já é pesada, e sozinha pesa ainda mais. Contudo, acima de toda companhia humana, permanece a promessa do Senhor: “estaria convosco todos os dias” (Mt 28:20).
O inverno, porém, não é eterno. “O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã” (Sl 30:5). Há um propósito santo nessa fase: produzir uma fé legítima, forte, que não depende das circunstâncias. É quando Deus arranca máscaras e fachadas, expõe a realidade e fortalece o interior. A árvore parece morta, mas a vida segue dentro dela; os nutrientes se voltam ao fortalecimento. Assim, o Senhor nos esvazia do que atrapalha — orgulho, autossuficiência, ostentação, “justiça própria” — e nos prepara para um novo ciclo.
E quando a esperança começa a brotar, mesmo em silêncio, é sinal de que a estação está mudando.
A Segunda Estação – Primavera
Tudo se faz novo
Primavera significa “princípio da boa estação”. É o tempo do reflorescer. Os dias voltam a alongar, o ar se torna mais leve, e a vida retorna com vigor. Na caminhada cristã, representa renovação de ânimo, restauração de sonhos, retorno da alegria, disposição para recomeçar. É tempo de sair das prisões interiores e voltar a cantar.
A primavera não é apenas estética: é sinal de que Deus ordena recomeços. É quando, após tanta prova, percebemos que a fé não morreu; ela amadureceu. Surgem novos brotos nos galhos: novas oportunidades, novas forças, novas direções. Porém, há um cuidado antigo e sábio: não esquecer do Senhor quando tudo vai bem. Quando o coração se vê forte, pode relaxar, e a intimidade pode diminuir. A primavera é graça, e graça bem recebida gera gratidão e fidelidade.
Quando a primavera chegar, celebre. Seja testemunho vivo de que o inverno não venceu. E, ao mesmo tempo, permaneça firme, porque quem aprende com as estações não se ilude: outras fases ainda virão, e a maturidade sabe atravessar todas.
A Terceira Estação – Verão
Tempo de calor, luz e frutificação
O verão traz a temperatura mais alta, dias longos, árvores verdes e frutos visíveis. Na vida, é a fase em que o sol parece brilhar sobre tudo: portas se abrem, projetos avançam, a alegria se prolonga, e a prosperidade parece constante. É tempo de decisões, de passos ousados e de colheita.
O verão espiritual também é tempo de serviço. Na luz, enxergamos melhor; no calor, encontramos energia. Deus é chamado de “Sol da Justiça”, e Cristo é “a luz do mundo”; por isso, o verão carrega uma simbologia de vida, clareza e vigor. Mas há um ponto que muitos esquecem: o verão também tem suas provações. Existe sequidão, aridez, tribulações e vales. Sem calor, frutos não amadurecem. E, muitas vezes, é no calor da prova que oferecemos “sacrifício de louvor” — louvor que custa, e por isso tem peso (Hb 13:15).
Seja qual for a estação, o Senhor continua soberano. Se alguém desiste no inverno, perde a primavera; se relaxa no outono, chega despreparado ao frio. A sabedoria manda perseverar: uma estação difícil não define a vida inteira.
A Quarta Estação – Outono
Tempo de preparo, reflexão e ajustes
Outono é o “tempo de ocaso”: queda de folhas, temperaturas descendo, dias mais curtos. Na vida, é quando expectativas murcham, projetos amarelam, e certas perdas começam. É um período real — e necessário. As árvores “abrem mão” das folhas porque elas consomem energia; é a natureza se preparando para o inverno. No espírito, o outono nos chama à vigilância: fortalecer a fé, revisar prioridades, voltar à Palavra, firmar a oração, cuidar da comunhão.
É também um tempo perigoso: o início da mornidão. O culto vira “quando dá”, a oração vira “quando sobra”, e as desculpas se multiplicam. As folhas caem, os frutos caem, e o que resta vai ficando frágil. Por isso, o outono é a estação de buscar Deus com seriedade, antes que os dias maus cheguem. Paulo, sentindo o outono do abandono, pediu a capa “antes que chegue o inverno” (2Tm 4:13,21). Ele discerniu a estação e se preparou.
O outono, entretanto, não é só perda: é renovação. Deus forma caráter quando a distração termina. É quando frutos invisíveis crescem: perseverança, humildade, maturidade, fé firme. A árvore não muda de lugar para dar fruto; ela aprofunda raízes onde está. Do mesmo modo, não é a troca de cenário que transforma uma vida: é a permanência em Cristo. “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15:4-5).
Conclusão
Ao longo da existência, atravessamos muitas vezes esses ciclos: outonos, invernos, primaveras e verões. E há uma leitura ainda maior: infância e juventude lembram a primavera; a fase produtiva, o verão; a maturidade, o outono; e a morte, o inverno. Mas para os que creem em Cristo, o inverno não é a última estação. Depois dele, vem a primavera da ressurreição. E, por fim, o verão eterno da vida com o Senhor — sem sombras, sem dor, sem despedidas.
O próprio Jesus viveu as estações: teve primavera de sabedoria e crescimento; verão de ministério frutífero; outono de perseguição; e inverno de Getsêmani e da cruz. Contudo, “eis que passou o inverno”. Ele ressuscitou, foi glorificado e hoje intercede por nós. Por isso Ele nos entende. E por isso a sua voz ainda chama: levanta-te e vem.
Seremos mais sábios — e mais firmes — quando aceitarmos a beleza de cada estação e aprendermos a viver com fé em cada fase. Deus não desperdiça nenhum tempo. Ele nos conduz, amadurece, cura e prepara. E, no fim, a alegria permanece.
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