O passado que ainda fala

 

Com o passar do tempo, a memória ganha um peso diferente. O passado deixa de ser apenas lembrança distante e passa a se apresentar com mais frequência, às vezes de forma inesperada. Situações, escolhas, palavras ditas e não ditas voltam à mente com uma força que antes não tinham. Envelhecer também é aprender a conviver com a própria história.

Confesso que nem sempre sei lidar bem com isso. Há memórias que aquecem o coração, mas há outras que incomodam, ferem ou despertam arrependimento. Coisas que eu faria diferente hoje, decisões tomadas com a maturidade que eu não tinha na época. O passado, quando não é elaborado, pode se tornar um peso silencioso.

A fé cristã não nos chama a apagar a memória, mas a redimi-la. Deus não nos convida a negar o que vivemos, nem a idealizar o passado como se tudo tivesse sido melhor. Ele nos chama a olhar para a nossa história à luz da Sua graça. Isso muda tudo. O passado deixa de ser apenas um arquivo de erros ou conquistas e se torna um campo onde Deus esteve presente, mesmo quando eu não percebia.

Há momentos em que me pego revisitando antigas versões de mim mesma. Pergunto-me se fiz o suficiente, se aproveitei bem o tempo, se desperdicei oportunidades. Essas perguntas podem gerar culpa ou nostalgia excessiva. Ambas me prendem ao que já passou e me impedem de viver plenamente o presente.

Aprendo, aos poucos, que a maturidade espiritual não está em revisar o passado com dureza, mas com misericórdia. Deus não trabalha com a lógica do “e se”. Ele trabalha com redenção. O tempo não pode ser recuperado, mas pode ser ressignificado. Mesmo aquilo que foi marcado por falha pode se tornar fonte de sabedoria.

O passado também revela como Deus foi paciente comigo. Quantas vezes Ele me sustentou quando eu mesma não sabia o que estava fazendo? Quantas portas se fecharam por proteção e não por perda? Envelhecer me dá uma perspectiva mais ampla. Consigo enxergar conexões que antes não via.

Isso não elimina a dor de certas lembranças, mas muda a forma como as carrego. Elas deixam de ser acusações e passam a ser testemunhos. Deus esteve presente na minha história inteira, inclusive nos capítulos que eu gostaria de editar.

Hoje, escolho entregar a Deus a minha memória. Não quero viver presa ao que passou, nem negar quem fui. Quero aprender a olhar para trás com gratidão, arrependimento saudável e esperança. O passado não precisa ser um peso; ele pode ser um professor.

A redenção do tempo acontece quando aceito que minha história não está fora do alcance da graça. Deus continua escrevendo, mesmo quando os capítulos anteriores já foram concluídos. O passado ainda fala, mas não governa. Quem governa é Deus.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Posso fazer sexo quando estou de jejum?

Eu sou uma Esposa de Fé

Sermão para aniversário - Vida guiada por Deus