Preciso aprender a lamentar

 Durante muito tempo, associei fé à força. Acreditei que crer em Deus significava seguir em frente sem olhar para trás, sem parar para chorar o que não deu certo, sem nomear perdas que não tinham forma concreta. Aprendi a agradecer rápido, a espiritualizar a dor e a seguir funcionando. Mas o tempo me ensinou algo que eu resisti em aceitar: há perdas que precisam ser lamentadas.

Nem toda perda vem acompanhada de um funeral. Algumas são silenciosas. São sonhos que não se cumpriram, caminhos que não foram possíveis, versões de mim mesma que nunca se tornaram reais. Há futuros que imaginei com clareza e que, hoje, sei que não virão. E isso dói, mesmo quando a vida segue.

Confesso que muitas vezes tentei ignorar esse luto. Disse a mim mesma que deveria estar satisfeita, que havia recebido muito, que outras pessoas passaram por dores maiores. Usei comparações e argumentos espirituais para não entrar em contato com o que eu sentia. Mas aquilo que não é lamentado não desaparece; apenas se esconde e endurece o coração.

A Escritura me mostra que lamentar não é sinal de fraqueza espiritual. Pelo contrário, é uma prática profundamente bíblica. O lamento reconhece que algo foi perdido e que essa perda importa. Ele não acusa Deus, mas fala com Deus. O lamento não nega a fé; ele a exercita de forma honesta.

Percebo que parte da minha resistência vinha do medo. Medo de que, ao tocar na dor, eu me perdesse nela. Medo de parecer ingrata. Medo de abrir perguntas que não teriam resposta. No entanto, o lamento não é um abismo sem fundo. Ele é um caminho. Um caminho que passa pela dor, mas não termina nela.

Envelhecer tem me ensinado que algumas perdas não podem ser corrigidas, apenas acolhidas. Não há como voltar no tempo, refazer escolhas ou recuperar possibilidades que ficaram para trás. O que há é a chance de olhar para tudo isso diante de Deus, sem pressa, sem explicações apressadas, sem máscaras espirituais.

Quando não lamento, eu me fecho. Quando lamento, algo em mim se abre. O coração se torna mais sensível, menos defensivo. Descubro que posso chorar sem perder a esperança. Que posso reconhecer a dor sem perder a fé. Que posso dizer a Deus: “isso me machucou”, sem que Ele se afaste.

O lamento também me liberta da necessidade de justificar tudo. Nem tudo precisa “ter valido a pena” para ser digno de choro. Algumas coisas simplesmente doeram. E está tudo bem reconhecê-las como dor. Deus não exige que eu transforme cada perda em lição imediata. Ele me convida, primeiro, a ser verdadeira diante dEle.

Aprender a lamentar é parte da maturidade espiritual. É aceitar que a vida não foi exatamente como imaginei e que, ainda assim, Deus continua comigo. O lamento limpa o terreno do coração para que a esperança possa crescer de forma mais profunda, menos ingênua, mais real.

Hoje, estou aprendendo a lamentar o que não foi — sem amargura, mas com honestidade. Descubro que, depois do lamento, a esperança não desaparece. Ela muda. Torna-se mais silenciosa, mais firme, mais ancorada em Deus do que em possibilidades humanas.



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