Alicerces, Andaimes e Casas: Confissões de um Ministério em Construção

 

Por muitos anos, confesso, aprendi a amar os andaimes. Eles eram visíveis, organizados, eficientes. Davam a sensação de progresso, de obra em andamento, de algo sendo feito para Deus. Programações cheias, calendários ajustados, ministérios funcionando como engrenagens bem lubrificadas. Tudo parecia sólido. Mas, com o tempo, algo começou a incomodar meu espírito: havia muito movimento… e pouca casa pronta.

Foi então que precisei reaprender o óbvio — aquilo que a Igreja sempre soube, mas às vezes esquece.

Nenhuma construção começa pelo andaime. Nenhuma casa se sustenta sem alicerce. E nenhuma obra faz sentido se não houver gente para morar dentro.

O Alicerce: aquilo que não se negocia

O alicerce não aparece. Ele não recebe elogios. Não é visto por quem passa na rua. Mas é ele que sustenta tudo. Na fé cristã, o alicerce nunca foi um método, um modelo de igreja ou uma estratégia bem-sucedida. O alicerce é Cristo, o evangelho, a Palavra fielmente ensinada e vivida.

Quando o alicerce é raso, tudo o que se constrói acima fica instável. Podemos ter cultos cheios e corações vazios. Podemos ter discursos fortes e vidas frágeis. O problema não está na altura da construção, mas na profundidade do fundamento.

Aqui vai minha confissão: muitas vezes quis acelerar a obra sem aprofundar o alicerce. Quis ver resultados antes de formar raízes. E toda vez que fiz isso, paguei o preço em desgaste, superficialidade e cansaço espiritual.

O Andaime: aquilo que ajuda, mas não permanece

O andaime é necessário. Negar isso seria ingenuidade. Ele organiza o trabalho, facilita o acesso, dá suporte temporário. Na vida da igreja, andaimes são programas, estruturas, agendas, departamentos, métodos e sistemas. Eles ajudam — e muito.

O problema começa quando o andaime vira identidade. Quando gastamos mais energia mantendo a estrutura do que cuidando das pessoas. Quando protegemos o método como se fosse doutrina. Quando o provisório assume o lugar do eterno.

Andaimes não são maus. São perigosos apenas quando esquecemos de desmontá-los.

Minha confissão aqui é simples e dolorosa: já medi fidelidade por presença em atividades, maturidade por envolvimento em funções, espiritualidade por ocupação. E isso não forma casas; forma operários exaustos.

A Casa: o verdadeiro propósito

A casa é o objetivo final. É para ela que tudo existe. Alicerce e andaime só fazem sentido se, ao final, houver um lugar habitável. No Reino de Deus, a casa são pessoas sendo formadas à imagem de Cristo. Vidas que aprendem a amar a Palavra, a caminhar em obediência, a viver em comunhão, a perseverar na fé.

Casa fala de permanência, não de evento. Fala de intimidade, não de palco. Fala de família, não de performance.

Quando a igreja entende isso, o discipulado deixa de ser um programa e volta a ser um modo de vida. Pessoas cuidam de pessoas. A Palavra circula nas conversas, nas mesas, nas orações simples. A fé volta a ser transmitida como sempre foi: de vida para vida.

Uma decisão pastoral

Hoje, escolho trabalhar mais no alicerce, mesmo que ninguém veja. Escolho usar andaimes sem me apegar a eles. E escolho medir o sucesso não pelo tamanho da obra, mas pela qualidade das casas que estão sendo formadas.

Essa não é uma crítica à Igreja. É uma confissão feita dentro dela, por amor a ela. Porque, no fim, Deus nunca buscou estruturas impressionantes, mas moradas vivas onde Ele habita.

Melhor uma casa simples, bem fundada, do que um canteiro cheio de andaimes e nenhuma vida transformada.

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