Os Reis Magos que Visitaram Jesus
A narrativa do nascimento de Jesus, como muitas vezes é contada, acabou se tornando simples demais. Fala-se com naturalidade de três reis sábios ajoelhados diante de um bebê numa manjedoura, mas o evangelho de Mateus conduz o leitor por um caminho muito mais profundo, cheio de ecos das Escrituras e de ironias teológicas cuidadosamente construídas.
Mateus não informa quantos visitantes vieram do Oriente. O número três surge apenas a partir dos presentes oferecidos, não do texto em si. Também não há qualquer referência à manjedoura em seu relato — esse detalhe pertence ao evangelho de Lucas. No evangelho de Lucas, a palavra traduzida por manjedoura é o termo grego phatnē (φάτνη), que designa, de forma simples e direta, um cocho ou recipiente usado para alimentar animais. Não se trata de um berço simbólico ou ornamentado, mas de um objeto comum, funcional, associado ao cuidado diário e à subsistência básica. No mundo antigo, a phatnē era parte do ambiente mais humilde da casa ou do estábulo, um lugar de provisão, não de honra. Ao registrar que o menino Jesus foi colocado numa phatnē, Lucas enfatiza a realidade concreta da encarnação: o Filho de Deus entra no mundo sem separação do ordinário, identificado desde o início com a simplicidade, a dependência e a vida comum. Esse detalhe linguístico reforça uma verdade antiga e profundamente teológica: Deus escolhe revelar Sua glória não nos espaços elevados, mas no chão simples da existência humana.
Além disso, aqueles homens não eram vistos, necessariamente, como sábios aos olhos do público judeu do primeiro século. O termo grego usado por Mateus é magoi (μάγοι), uma palavra de origem persa associada a astrólogos, intérpretes de sinais celestes e, possivelmente, a sacerdotes do zoroastrismo. Para muitos judeus, esse grupo estava longe de representar autoridade espiritual ou sabedoria confiável. A cena desses gentios entrando em Jerusalém e perguntando abertamente pelo recém-nascido “Rei dos Judeus”, enquanto Herodes ocupava oficialmente o trono da Judeia, beira o absurdo do ponto de vista político.
Ainda assim, Mateus não os retrata como estrategistas astutos. Eles se encontram com Herodes, expõem sua busca messiânica e acreditam em sua falsa intenção de adorar o menino. Somente por meio de um sonho são advertidos a não retornar. Quando Herodes percebe que foi enganado, o texto afirma que ele foi “zombado” — o mesmo verbo grego que mais tarde descreve a zombaria dirigida a Jesus durante sua paixão. A ironia é clara: aquele que se julga poderoso é apresentado como lento e cego, enquanto estrangeiros confusos acabam frustrando seus planos.
Essa caracterização dialoga com uma figura bem conhecida das Escrituras hebraicas: Balaão. Escritores judeus antigos, como Fílon de Alexandria, chamam Balaão de magos e o descrevem como alguém espiritualmente inepto. Em Números 22, Balaão não percebe o anjo do Senhor, mas sua jumenta percebe — e ainda o corrige. Mais adiante, quando tenta amaldiçoar Israel, suas palavras são transformadas por Deus em bênção. O vidente se revela incapaz de controlar aquilo que pensa dominar.
Mateus parece intencionalmente evocar essa tradição. A famosa profecia de Balaão sobre uma estrela que surgiria de Jacó (Nm 24:17) era amplamente interpretada como messiânica. Quando os magos declaram ter visto a estrela surgindo no Oriente, o evangelista conecta essas figuras gentílicas a uma expectativa antiga. Eles não são apresentados como sábios iluminados, mas como instrumentos improváveis conduzidos pela revelação divina.
Aqui vale observar um contraste importante com o relato de Lucas, onde aparece a manjedoura. O termo grego usado é phatnē (φάτνη), que não se refere apenas a um “berço improvisado”, mas a um cocho para alimentação de animais, um espaço funcional, simples, comum. A phatnē aponta para um ambiente de provisão básica, de sustento, de sobrevivência. O Messias nasce num lugar associado à nutrição dos animais, não ao conforto humano. Lucas enfatiza a humildade concreta da encarnação: o Filho de Deus colocado num espaço de uso cotidiano, sem honra, sem separação do ordinário.
Assim, enquanto Mateus constrói uma narrativa cheia de ecos proféticos, tensões políticas e ironias espirituais, Lucas destaca a materialidade da pobreza e da simplicidade. Juntos, os dois relatos revelam que o nascimento de Jesus não segue expectativas humanas — nem religiosas, nem sociais, nem simbólicas.
O evangelho de Mateus, portanto, não conta apenas uma história edificante sobre homens sábios vindos de longe. Ele tece uma releitura profunda das Escrituras de Israel e mostra que Deus conduz até buscadores confusos, estrangeiros e improváveis para cumprir Seus propósitos eternos.

Comentários
Postar um comentário