Não desista de você: perseverar é um ato de fé
Vivemos em um tempo marcado por desistências silenciosas. Muitas pessoas não abandonam publicamente a fé, mas deixam, pouco a pouco, de cuidar da própria vida espiritual. Continuam seguindo rotinas, cumprindo obrigações externas, mas internamente já não acreditam que a mudança, o crescimento ou a restauração ainda sejam possíveis. A tradição cristã sempre tratou essa desistência interior como um perigo sério, pois ela corrói a fé de dentro para fora.
Não desistir de si mesmo, à luz da fé cristã, não significa confiar excessivamente nas próprias forças. Pelo contrário, significa reconhecer limites e, ainda assim, permanecer no caminho. A Escritura nunca apresentou o amadurecimento espiritual como algo instantâneo. O crescimento ocorre por meio de processos, disciplina e constância. A perseverança é uma virtude formada ao longo do tempo, especialmente nos períodos em que os resultados não são visíveis.
A fé bíblica ensina que Deus age de forma soberana, mas o ser humano é chamado à responsabilidade. Há escolhas diárias que sustentam a vida espiritual: permanecer na oração mesmo quando ela parece árida, manter a obediência quando o coração está cansado e continuar fazendo o bem quando não há reconhecimento. Essas práticas simples, repetidas ao longo do tempo, constroem uma fé sólida e resistente.
Outro aspecto essencial é a forma como lidamos com o desânimo. A Bíblia não ignora a dor da alma, mas também não permite que ela governe as decisões. O crente maduro aprende a dialogar consigo mesmo, confrontando sentimentos com a verdade. Esperar em Deus não é passividade, mas um posicionamento consciente de confiança. Quando a esperança é reafirmada, o desânimo perde força.
O sofrimento, embora indesejado, também ocupa um lugar importante na formação espiritual. A tradição cristã nunca prometeu ausência de dor, mas presença de Deus no meio dela. As provações revelam fragilidades, ajustam expectativas e aprofundam a dependência. Não desistir de si mesmo é atravessar essas fases sem abandonar valores, fé e propósito.
Há ainda um equívoco comum: confundir perseverança com perfeccionismo. Permanecer não é nunca cair, mas levantar-se com humildade e corrigir o caminho quando necessário. A fé cristã é marcada por recomeços. Deus trabalha com processos longos e não abandona a obra que iniciou. Essa certeza sustenta o coração nos momentos de fraqueza.
Em um mundo que valoriza atalhos e resultados rápidos, não desistir de si mesmo é um ato de resistência espiritual. É escolher a profundidade em vez da superficialidade, a constância em vez do entusiasmo passageiro e a fidelidade em vez da desistência. Perseverar é, em essência, um ato de fé: confiar que Deus continua trabalhando, mesmo quando o caminho parece longo.
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