Vencendo a Pornografia
A luta contra a luxúria, em qualquer época, sempre foi mais profunda do que aparenta. Reduzi-la a um problema meramente comportamental empobrece a compreensão bíblica do ser humano e enfraquece o cuidado pastoral. A Escritura nunca tratou o pecado apenas como um ato isolado, mas como expressão de desejos desordenados, afetos mal orientados e uma vida espiritual enfraquecida. Por isso, a restauração não acontece apenas pela repressão do erro, mas pela renovação interior conduzida pelo Espírito de Deus.
A tradição cristã sempre ensinou que o coração humano foi criado para desejar. O problema não é o desejo em si, mas o objeto ao qual ele se apega. Quando o desejo deixa de encontrar satisfação em Deus, passa a buscar compensações imediatas, fragmentadas e enganosas. A luxúria nasce justamente desse deslocamento: aquilo que deveria ser vivido como dom dentro da ordem criada passa a ser consumido como fuga, anestesia ou substituto da verdadeira comunhão.
Do ponto de vista pastoral, é fundamental reconhecer que o pecado sexual carrega múltiplas dimensões. Há culpa moral, pois o ser humano é responsável diante de Deus por suas escolhas. Há também escravidão, pois hábitos repetidos moldam o corpo e a mente, criando padrões difíceis de romper. E há quebrantamento, pois muitas vezes a luxúria se alimenta de feridas antigas, solidão, rejeição e carências não tratadas. Ignorar qualquer uma dessas dimensões gera abordagens desequilibradas e pouco eficazes.
A resposta bíblica não é o desespero nem o moralismo, mas o chamado a “andar no Espírito”. Isso implica uma vida ativa de obediência, sustentada pela graça, na qual o crente aprende a dizer “não” ao pecado enquanto aprende, ao mesmo tempo, a dizer “sim” àquilo que é verdadeiro, bom e belo. A mortificação do pecado precisa caminhar junto com a vivificação da alma. Onde apenas se corta o mal, mas não se cultiva o bem, o vazio permanece.
A prática pastoral fiel valoriza disciplinas espirituais antigas: vigilância, confissão, limites sábios, prestação de contas e vida comunitária. O isolamento sempre foi terreno fértil para a queda, enquanto a comunhão saudável fortalece a perseverança. A igreja, quando vive sua vocação histórica, torna-se espaço de cura, não de encobrimento; de responsabilidade, não de condenação; de verdade, não de permissividade.
Outro aspecto essencial é compreender que a santificação é um caminho longo. A Escritura nunca prometeu libertação instantânea, mas crescimento progressivo. A perseverança, tão valorizada pelos santos do passado, continua sendo virtude indispensável. Cair não define o crente; desistir, sim. Cada passo de obediência, ainda que pequeno, participa da obra contínua de Deus no coração humano.
Pastoralmente, é preciso lembrar que a luta contra o pecado sexual não tem como objetivo apenas “parar de pecar”, mas aprender a viver com alegria diante de Deus. Santidade e felicidade não são opostas na fé cristã; caminham juntas. Quando o coração encontra descanso em Deus, muitos desejos perdem sua força, não por repressão, mas por substituição.
Cuidar desse tema exige coragem, sobriedade e fidelidade à fé recebida. A igreja não precisa reinventar sua teologia nem diluir sua ética para oferecer esperança. O caminho antigo continua válido: arrependimento sincero, fé perseverante, vida no Espírito e confiança de que Aquele que começou a boa obra é fiel para completá-la.
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