Quando a igreja quer participar do chiqueiro
A parábola do filho pródigo, registrada em Lucas 15:11–32, integra um conjunto de três narrativas sobre perda e restauração. Jesus a dirige a fariseus e escribas que murmuravam porque Ele recebia pecadores. Portanto, não é apenas uma história sobre um jovem rebelde, mas uma exposição do coração de Deus diante do arrependimento e uma confrontação direta da religiosidade endurecida.
O filho mais novo pede a parte da herança que lhe cabia. Em termos culturais, isso equivalia a desejar a morte do pai. A ruptura começa no coração antes de se manifestar em geografia. Ele parte para longe, desperdiça os bens e, quando sobrevém a fome, experimenta a degradação. Cuidar de porcos e desejar sua comida representava impureza extrema para um judeu. A narrativa não suaviza a consequência do pecado. A distância da casa não produz autonomia duradoura, mas miséria progressiva.
O texto afirma que ele “caiu em si”. A fome foi instrumento pedagógico. Deus, em Sua providência, muitas vezes usa circunstâncias adversas para expor ilusões. O arrependimento começa com lucidez moral. O jovem reconhece: “Pequei contra o céu e diante de ti.” Ele não relativiza, não transfere culpa, não reivindica direitos. Decide levantar-se e voltar. Arrependimento bíblico envolve reconhecimento, confissão e mudança de direção.
Contudo, a parábola não termina no movimento do filho, mas revela a disposição do pai. Ele vê de longe, corre, abraça e beija. A iniciativa da reconciliação é divina. O abraço antecede a conclusão da fala ensaiada. Roupa nova, anel e sandálias são sinais públicos de restauração de identidade. O pai não oferece um período probatório. Ele reafirma filiação. A graça não ignora o pecado, mas responde ao arrependimento com reintegração.
Esse ponto é crucial pastoralmente. A casa permanece aberta, mas o retorno é necessário. A misericórdia não cancela a verdade; ela a pressupõe. O filho volta como quem reconhece a própria ruína. A restauração não é conivência, é resposta ao arrependimento.
A parábola, porém, não está completa sem o irmão mais velho. Ele permanece na casa, mas reage com indignação. Sua obediência é apresentada como contabilidade moral: “Nunca me deste um cabrito.” Ele revela ressentimento e senso de mérito. Sua permanência física não significa comunhão afetiva. Ele trabalha como servo, não vive como filho. A festa o incomoda porque a graça desafia a lógica do desempenho.
A tensão final é deliberada. O pai sai também ao encontro do filho que nunca saiu fisicamente. O mesmo amor que corre ao arrependido confronta o religioso endurecido. A pergunta implícita permanece: aceitaremos uma justiça baseada na graça ou insistiremos em medir valor por produtividade espiritual?
Aplicar essa parábola ao nosso tempo exige sobriedade. Há “chiqueiros” contemporâneos — vícios, relações quebradas, abandono espiritual, orgulho religioso. A restauração começa quando a verdade é confessada. Igrejas e famílias são chamadas a refletir o caráter do pai: vigilantes, prontos para restaurar, firmes na verdade e generosos na misericórdia.
A tradição cristã sempre ensinou que arrependimento é voltar para casa. A parábola acrescenta que o Pai observa a estrada. Ele não banaliza o pecado, mas celebra a vida restaurada. O filho estava morto e reviveu. Essa é a essência do evangelho: queda real, arrependimento necessário, graça abundante e convite constante a participar da alegria da reconciliação.
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