Sofrimento: Meu filho morreu
Há frases que nunca deveriam fazer parte do vocabulário de um pai ou de uma mãe. “Meu filho morreu” é uma delas. Ainda assim, em breve fará dois anos desde que precisei aprender a pronunciá-la — primeiro em silêncio, depois em lágrimas, depois com a voz embargada, e hoje com uma reverência dolorosa diante de Deus. Não escrevo como quem já superou a perda, mas como quem continua caminhando com uma ausência que reorganizou toda a vida. O tempo não apagou o amor, não diminuiu a saudade, não simplificou as perguntas. Apenas me ensinou que sobreviver espiritualmente exige mais do que resistência emocional; exige uma fé que seja capaz de existir dentro do luto.
Nos primeiros meses, tudo parecia suspenso. O mundo seguia, mas eu não. Havia uma estranheza quase ofensiva no fato de as pessoas rirem, planejarem o futuro, discutirem banalidades, enquanto dentro de mim havia um silêncio pesado. Descobri rapidamente que a dor não se manifesta apenas em lágrimas. Ela aparece em cansaço inexplicável, em lapsos de memória, em dificuldade para orar, em uma Bíblia aberta diante de nós enquanto o coração permanece fechado. E, talvez mais perturbador: aparece na sensação incômoda de que Deus está distante.
Preciso confessar que houve dias em que minhas orações não passaram de frases curtas e secas. Não por rebeldia explícita, mas por exaustão. Outras vezes, simplesmente fiquei em silêncio diante dEle, sem saber o que dizer. A espiritualidade que eu conhecia — organizada, didática, segura — não funcionava mais do mesmo modo. Foi nesse ponto que a Escritura deixou de ser apenas material de estudo e se tornou lugar de sobrevivência. Os salmos passaram a soar menos como poesia e mais como autobiografia. Percebi que a Bíblia não tem pressa em curar a dor com slogans. Ela permite o lamento. Ela registra perguntas desconfortáveis. Ela dá voz a pessoas que continuam crendo mesmo quando não entendem.
Com o passar dos meses, outra luta se impôs: a tentação de parecer forte. Há uma expectativa social, inclusive dentro da igreja, de que o sofrimento tenha prazo de validade. Depois de certo tempo, as perguntas mudam de tom. Já não são “como você está?”, mas “você está melhor, não está?”. E a resposta automática começa a surgir: “estou seguindo”. Muitas vezes é verdade. Estamos seguindo. Mas seguir não significa esquecer. Seguir não é o mesmo que fechar o capítulo. Em meu caso, significou aprender a viver com um amor que continua existindo e com uma ausência que continua falando.
Também precisei reconhecer algo que preferia evitar: a perda revelou camadas do meu coração que eu não conhecia. Descobri o quanto valorizava estabilidade. O quanto me sentia seguro quando conseguia prever o amanhã. O quanto minha fé estava, em certos aspectos, ancorada na ideia de que as coisas seguiriam uma ordem aceitável. A morte de um filho destrói essa ilusão. Ela nos força a lidar com a fragilidade da vida e com a soberania de Deus de forma muito concreta. Não como conceito teológico, mas como realidade diária.
Não posso dizer que todas as minhas perguntas foram respondidas. Algumas continuam abertas, e talvez permaneçam assim até o fim. O que mudou foi a forma como me aproximo delas. Hoje sei que fé madura não é ter explicações completas, mas permanecer diante de Deus sem fabricar respostas rápidas. É continuar orando quando a oração parece pesada. É continuar lendo a Palavra quando certas promessas soam distantes, confiando que o problema não está nelas, mas na minha limitação em enxergar o quadro inteiro.
Ao longo desses dois anos, a comunhão cristã também se tornou diferente para mim. Aprendi a valorizar quem simplesmente senta ao lado sem tentar corrigir a dor. Quem ora sem pressa. Quem não transforma o luto em debate teológico. Descobri que o corpo de Cristo é mais necessário no vale do que no monte. E percebi, com humildade, que permitir ser cuidado é parte da obediência cristã.
Talvez a mudança mais profunda tenha sido esta: minha esperança ficou mais escatológica. Antes, eu falava da ressurreição com convicção doutrinária. Hoje, falo com fome. Falo com saudade. Falo como quem sabe que este mundo, do jeito que está, não é definitivo. A promessa de que a morte será vencida deixou de ser apenas ponto de confissão de fé e se tornou âncora diária. Não elimina o vazio, mas impede que ele se torne absoluto.
Escrevo este texto não como alguém que venceu o sofrimento, mas como alguém que continua aprendendo a sofrer diante de Deus e não longe dEle. Continuo sendo pai. Continuo amando. Continuo esperando. E continuo confessando, com temor e confiança: se ainda estou de pé, não é porque encontrei fórmulas espirituais eficazes, mas porque o Senhor tem sido paciente comigo, sustentando-me quando minhas forças acabam e ensinando-me que a fé verdadeira não grita vitória no escuro — ela permanece, muitas vezes em silêncio, segurando-se na promessa de que a história não termina aqui.
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