Meu primeiro avental - Uma reflexão sobre o envelhecimento à luz da fé


O tecido era simples — algodão cru, com uma fita azul-clara costurada de forma torta. Eu devia ter uns oito anos. Lembro-me do toque áspero nas mãos pequenas, das linhas desalinhadas e da alegria ingênua de quem brincava de ser adulta.
Ganhei aquele avental como quem ganha um brinquedo. Não fui ensinada a ser dona de casa — não havia receitas, nem conselhos sobre como manter um lar — mas naquele pedaço de pano havia um presságio. Ele dizia, silenciosamente, que um dia eu teria um lugar onde poderia amar e ser amada.

Durante anos, o guardei. O avental ficou dobrado em alguma gaveta como um símbolo discreto de esperança. Era mais do que um pano: era a lembrança de uma menina que sonhava com o cheiro de pão assando, com uma mesa cercada de vozes, com o som de uma vida inteira pulsando entre as paredes do lar.

Agora, porém, ele não está mais aqui.
Procuro-o e não encontro. Vasculho as gavetas, as caixas antigas, e a mim mesma. Nada. Às vezes penso que talvez nunca tenha existido.
Outras vezes, sinto que estou inventando tudo isso — que essa saudade não passa de um artifício, uma tentativa tola de chamar atenção para um vazio que não sei nomear.

E então, de repente, tudo se esvanece.
As lembranças se apagam como giz na chuva. As vozes que antes ecoavam nítidas na minha cabeça tornam-se murmúrios distantes. Tento lembrar o rosto de minha mãe, o cheiro da cozinha, o som das risadas — mas tudo se desfaz.

Há momentos em que fico parada, com uma panela nas mãos, sem saber o que ia fazer. O fogo aceso, a água fervendo, e eu ali, perdida no meio da própria casa.
Às vezes volto a mim, confusa e envergonhada, como quem desperta de um sonho que não consegue explicar.

O avental se foi, perdido em meio às memórias que também me escapam.
Mas é por ele que continuo procurando — não pelo tecido, mas pela certeza que ele trazia.
A certeza de que um dia eu sabia quem era.
E de que existia um lar, mesmo que agora eu não saiba mais como voltar para ele.

📖 Isaías 46:4

“Até à vossa velhice eu serei o mesmo, e ainda até às cãs eu vos carregarei; eu vos fiz, e eu vos levarei; eu vos carregarei e vos salvarei.”

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