Quando meu coração não quer Deus
Há momentos na vida cristã em que a fé permanece, mas o desejo desaparece. A pessoa continua crendo, obedecendo, frequentando, servindo — mas sem fome, sem alegria, sem anseio interior. Deus não foi negado, apenas deixou de ser desejado. Essa experiência é mais comum do que se admite, mas raramente é confessada.
Vivemos numa cultura que associa espiritualidade a emoção. Quando o sentimento esfria, muitos concluem que algo está irremediavelmente errado. Outros se esforçam para simular entusiasmo, mantendo uma aparência de fervor que não corresponde ao que se passa no interior. O resultado é uma fé funcional, correta por fora, mas seca por dentro.
A Escritura, porém, nunca escondeu essa realidade. Homens e mulheres de fé atravessaram períodos de silêncio interior, ausência de prazer espiritual e cansaço da alma. O problema não está em atravessar esses desertos, mas em interpretá-los de forma equivocada. A ausência de desejo não significa necessariamente ausência de fé; muitas vezes revela uma fé sendo purificada.
Quando não desejamos Deus, somos tentados a buscar substitutos. Preenchimentos rápidos, distrações constantes e até ativismo religioso podem ocupar o espaço da comunhão. Trabalha-se para Deus para não ter de estar com Deus. O coração segue em movimento, mas longe da fonte.
Este tema confronta uma pergunta delicada: o que sustenta nossa fé quando o desejo falha? A maturidade espiritual não é medida apenas pelos momentos de fervor, mas pela fidelidade nos dias de aridez. Amar a Deus quando Ele é prazeroso é natural; permanecer quando Ele parece distante é um ato de fé profunda.
O caminho bíblico não é fingir desejo, mas levar a falta dele à presença de Deus. A honestidade diante d’Ele é mais espiritual do que qualquer entusiasmo artificial. Deus não exige sentimentos fabricados; Ele acolhe corações cansados, vazios e sinceros.
A esperança cristã afirma que o desejo pode ser restaurado. Nem sempre rapidamente, nem sempre da forma que esperamos, mas de maneira real. Deus não se ofende com a fraqueza confessada; Ele trabalha nela. Quando o coração para de correr e se rende, a graça começa a reacender o amor, não como obrigação, mas como resposta.

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