O Espírito que Edifica, Não o que Impressiona

Poucos temas geram tanta tensão na igreja contemporânea quanto as manifestações espirituais. Entre entusiasmo carismático e cautela teológica, muitos acabam adotando posições extremas: ou reduzem o agir do Espírito a formalismo silencioso, ou elevam experiências subjetivas acima do ensino bíblico. O desafio real não é escolher entre Espírito e Escritura, mas compreender que o Espírito que age é o mesmo que inspirou a Palavra.

A discussão sobre dons espirituais, especialmente em 1 Coríntios 12–14, exige cuidado exegético e maturidade pastoral. A igreja de Corinto valorizava manifestações visíveis, especialmente línguas, como sinal de espiritualidade superior. O apóstolo, porém, não exalta desordem nem competição espiritual. Ele estabelece critérios claros: edificação da igreja, inteligibilidade e amor como princípio regulador.

Um dos erros frequentes no debate contemporâneo é assumir que intensidade emocional equivale a profundidade espiritual. No entanto, o texto bíblico enfatiza que o propósito dos dons é edificar o corpo, não exaltar indivíduos. O Espírito não promove espetáculo; promove maturidade.

Outro equívoco é tratar experiências como autoautenticadoras. Se algo é vivenciado com intensidade, presume-se que seja necessariamente obra do Espírito. Contudo, o Novo Testamento estabelece discernimento doutrinário como critério essencial. A manifestação espiritual que contradiz a verdade revelada não procede do Espírito da verdade.

Também é comum a leitura seletiva. Alguns enfatizam poder, mas ignoram ordem. Outros defendem ordem, mas negligenciam poder. O ensino apostólico mantém ambos unidos. “Deus não é Deus de confusão, mas de paz” (1 Coríntios 14:33). A presença do Espírito não anula racionalidade nem elimina responsabilidade comunitária.

A questão das línguas, por exemplo, não é tratada como marca universal de espiritualidade. Paulo afirma explicitamente que nem todos falam em línguas. A diversidade de dons é parte do projeto divino para a igreja. Uniformizar manifestações é distorcer a própria natureza do corpo de Cristo.

Além disso, a centralidade do amor no capítulo 13 não é interrupção acidental, mas eixo teológico. O exercício de qualquer dom desconectado do amor sacrificial perde legitimidade. O Espírito não é instrumento de autopromoção espiritual.

O debate contemporâneo muitas vezes sofre de polarização desnecessária. Alguns rejeitam qualquer manifestação extraordinária por medo de abuso. Outros rejeitam qualquer cautela por receio de extinguir o Espírito. A solução não está nos extremos, mas na submissão conjunta à Escritura.

O Espírito Santo não atua em oposição à Palavra que ele mesmo inspirou. Sua obra sempre aponta para Cristo, promove santidade e fortalece a comunidade. Onde há divisão, exibicionismo ou doutrina comprometida, há motivo legítimo para exame.

A igreja precisa recuperar um equilíbrio bíblico: abertura reverente ao agir soberano de Deus e compromisso inegociável com a verdade revelada. O Espírito não substitui a Escritura, nem a Escritura sufoca o Espírito. A verdadeira espiritualidade floresce quando ambos são mantidos na relação que o próprio Novo Testamento estabelece.

Se manifestações espirituais produzem maturidade, unidade e fidelidade doutrinária, elas refletem o padrão apostólico. Se produzem confusão, hierarquia espiritual implícita ou relativização da verdade, precisam ser reavaliadas.

Discernimento não é incredulidade; é obediência. O Espírito que edifica é o mesmo que ordena. E onde sua obra é autêntica, ela confirma a Palavra e fortalece a igreja, não a fragmenta.

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