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Meus Cabelos Brancos

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  Envelhecer é Aprender a Habitar a Própria Vida Vivemos em uma cultura que teme o envelhecimento. O passar do tempo é tratado como ameaça, e não como dom. Rugas são combatidas, limites são negados e a lentidão é vista como fraqueza. No entanto, a espiritualidade cristã tradicional sempre enxergou o envelhecer como um caminho de aprofundamento, não de perda. Envelhecer bem não é conservar juventude artificial, mas aprender a habitar a própria vida com verdade. O envelhecimento traz limites claros: o corpo já não responde da mesma forma, o ritmo muda, as perdas se tornam mais visíveis. Resistir a esses limites costuma gerar amargura e ansiedade. Aceitá-los, porém, pode gerar liberdade interior. Quando o coração deixa de lutar contra o que não pode controlar, abre espaço para uma paz mais profunda. A maturidade espiritual começa quando aceitamos quem somos agora, e não apenas quem fomos. Há também um trabalho interior de reconciliação. Envelhecer é revisitar a própria história. Su...

Resenha: Toque as Feridas de Tomás Halik

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📘 Toque as Feridas Autor: Tomáš Halík Ano de publicação (original): 2015 Editora (Brasil): Vozes Gênero: Teologia contemporânea / Espiritualidade / Fé e sofrimento 🟦 Introdução Toque as Feridas parte de uma intuição central do cristianismo: a fé não amadurece evitando a dor, mas atravessando-a com verdade. Tomáš Halík escreve a partir de uma espiritualidade marcada pelo silêncio, pela escuta e pela experiência concreta do sofrimento humano. O título remete ao gesto de Cristo ressuscitado que convida Tomé a tocar Suas feridas — não para provar algo, mas para curar a incredulidade e transformar a relação com Deus. O livro não oferece respostas fáceis. Ele rejeita explicações rápidas para a dor e critica uma religiosidade que espiritualiza o sofrimento sem enfrentá-lo. Halík propõe uma fé que permanece junto às feridas do mundo, reconhecendo nelas um lugar de revelação e encontro com Deus. 🟦 Estrutura e resumo dos capítulos 🔹 Capítulo 1 – As Feridas da Fé O autor apresenta a idei...

A Cura que Começa no Lugar da Dor

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Há uma tentação constante na vida religiosa: desviar o olhar da dor. Muitas expressões de fé preferem oferecer explicações rápidas, palavras de conforto imediato ou promessas de superação sem atravessamento. No entanto, a fé cristã amadurecida não nasce da fuga do sofrimento, mas da coragem de permanecer diante dele com verdade. A dor humana não é um acidente espiritual. Ela faz parte da experiência concreta da vida. Ignorá-la não fortalece a fé; apenas a torna frágil e distante da realidade. Uma espiritualidade que não sabe lidar com feridas acaba produzindo discursos vazios e corações endurecidos. A fé que não toca a dor do mundo torna-se estéril. O evangelho não apresenta um Deus distante das feridas humanas. Pelo contrário, revela um Deus que entra nelas. A cruz não é um detalhe simbólico, mas o centro da fé cristã. Ela nos ensina que Deus não elimina o sofrimento por decreto, mas o atravessa conosco. Isso muda completamente a maneira de compreender a dor: ela deixa de ser apenas...

Desapegue-se do teu deus

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Há muitas pessoas que afirmam ter abandonado a fé em Deus, quando, na verdade, abandonaram apenas uma imagem distorcida d’Ele. Um Deus reduzido a explicações fáceis, punições imediatas ou garantias de sucesso não resiste ao sofrimento real da vida. O problema, portanto, não é Deus — é a forma como Ele foi apresentado. Uma fé que não amadurece tende a transformar Deus em ferramenta. Ele passa a existir para resolver problemas, confirmar opiniões ou sustentar estruturas religiosas rígidas. Quando isso acontece, Deus deixa de ser mistério e passa a ser controle. Essa redução empobrece a espiritualidade e, muitas vezes, afasta pessoas sinceras que não conseguem mais acreditar nesse “deus” pequeno. A maturidade espiritual exige desapego. Não de Deus, mas das projeções humanas que fazemos sobre Ele. Muitas crises de fé são, na verdade, convites ao crescimento. Quando antigas imagens caem, abre-se espaço para uma relação mais verdadeira, menos defensiva e mais humilde. A dúvida, nesse proc...

Chamados para Ser Testemunhas: Quando a Presença de Deus nos Transforma

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Há momentos em que Deus não apenas fala, mas nos chama. Não é um convite superficial, é uma convocação profunda: “Ao nos chamar, o Senhor nos convoca para sermos testemunhas.” Essa verdade atravessa toda a Escritura e ecoa na vida daqueles que decidem viver não apenas para si, mas para a glória d’Ele. Ser testemunha não é apenas falar, é permanecer . O Salmo 37 nos ensina a confiar, descansar e perseverar no Senhor. Ele é dono de tudo, inclusive do tempo, dos processos e das reformas interiores pelas quais somos conduzidos. A fé madura não nasce da pressa, mas da constância. Ao longo da caminhada cristã, todos enfrentamos períodos de ajustes, correções e reconstruções internas. A Bíblia nunca romantizou a jornada do justo. Pelo contrário, ela nos prepara para entender que, mesmo quando falhamos, não estamos abandonados: “Se pecarmos, temos Advogado.” Essa afirmação sustenta a alma cansada e nos lembra que a graça não anula a responsabilidade, mas nos fortalece para recomeçar. A p...

Resenha livro: Livrar-se de Deus

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Sub-Título: Quando a Crença e a descrença se encontram   Autores: Tomáš Halík & Anselm Grün Ano de publicação (original): 2016 Editora (Brasil): Vozes Gênero: Teologia contemporânea / Espiritualidade / Filosofia da religião 🟦 Introdução Livrar-se de Deus é uma obra provocativa, escrita por dois dos mais respeitados pensadores cristãos da atualidade. O título, à primeira vista desconcertante, não propõe o abandono da fé, mas um chamado urgente à purificação da imagem de Deus que muitos carregam — uma imagem frequentemente reduzida, utilitária ou ideologizada. Tomáš Halík, teólogo tcheco profundamente marcado pela experiência do ateísmo, do sofrimento histórico e da fé vivida no silêncio, dialoga com Anselm Grün, monge beneditino e mestre da espiritualidade interior. Juntos, eles propõem libertar Deus das caricaturas religiosas que afastam, ferem ou empobrecem a experiência espiritual. O livro parte da constatação de que muitas pessoas não rejeitam Deus, mas sim uma...

Torre de Babel: Gênesis 11 não condena a tecnologia, mas a pretensão humana

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 O episódio da Torre de Babel, em Gênesis 11 , costuma ser lido de forma superficial: Deus teria se incomodado com uma torre alta demais, ou com o avanço tecnológico de uma civilização antiga. No entanto, a exegese clássica — especialmente como apresentada em Gênesis: Introdução e Comentário — revela algo muito mais profundo e atual: Babel não é o pecado da técnica, mas da autonomia coletiva sem Deus . O texto não critica a capacidade humana de construir, mas a motivação que sustenta essa construção. “Façamos um nome para nós” A chave interpretativa do texto está na própria declaração do povo: “Façamos para nós um nome”. No Antigo Testamento, “nome” está diretamente ligado a: identidade, autoridade, memória, legado. Ao decidir “fazer um nome”, a humanidade expressa o desejo de autofundação . É a tentativa de construir identidade, segurança e permanência sem referência a Deus . Kidner observa que Babel representa a ambição de uma unidade humana baseada no orgul...