Resenha livro: Livrar-se de Deus
Sub-Título: Quando a Crença e a descrença se encontram
Autores: Tomáš Halík & Anselm Grün
Ano de publicação (original): 2016
Editora (Brasil): Vozes
Gênero: Teologia contemporânea / Espiritualidade / Filosofia da religião
🟦 Introdução
Livrar-se de Deus é uma obra provocativa, escrita por dois dos mais respeitados pensadores cristãos da atualidade. O título, à primeira vista desconcertante, não propõe o abandono da fé, mas um chamado urgente à purificação da imagem de Deus que muitos carregam — uma imagem frequentemente reduzida, utilitária ou ideologizada.
Tomáš Halík, teólogo tcheco profundamente marcado pela experiência do ateísmo, do sofrimento histórico e da fé vivida no silêncio, dialoga com Anselm Grün, monge beneditino e mestre da espiritualidade interior. Juntos, eles propõem libertar Deus das caricaturas religiosas que afastam, ferem ou empobrecem a experiência espiritual.
O livro parte da constatação de que muitas pessoas não rejeitam Deus, mas sim uma falsa ideia de Deus.
🟦 Estrutura e abordagem da obra
A obra é composta por capítulos/ensaios temáticos, em forma de diálogo e reflexão, nos quais os autores abordam questões centrais da fé cristã no mundo contemporâneo. Cada capítulo avança como uma conversa honesta, profunda e pastoral.
🔹 Capítulo 1 – O Deus que Precisa Ser Libertado
Os autores apresentam a ideia central do livro: muitas formas de ateísmo moderno são, na verdade, uma rejeição legítima de um Deus mal apresentado. Um Deus usado para controlar, punir ou simplificar o mistério da vida precisa ser abandonado para que o Deus verdadeiro possa ser reencontrado.
🔹 Capítulo 2 – Fé, Dúvida e Maturidade
Aqui, a dúvida não é tratada como inimiga da fé, mas como parte do seu amadurecimento. Uma fé sem perguntas torna-se frágil e dogmática. A fé madura aprende a conviver com o mistério e com o silêncio de Deus.
🔹 Capítulo 3 – Deus além das Projeções Humanas
Os autores criticam a tendência humana de projetar desejos, medos e ideologias sobre Deus. Libertar-se dessas projeções é condição para uma espiritualidade autêntica. Deus não é extensão do ego humano nem garantia de sucesso.
🔹 Capítulo 4 – O Silêncio de Deus
O silêncio divino é abordado como espaço de purificação espiritual. Deus não se ausenta; Ele educa a fé para além da dependência de respostas imediatas. O silêncio revela se buscamos Deus por Ele mesmo ou apenas por soluções.
🔹 Capítulo 5 – Espiritualidade sem Fundamentalismo
Os autores alertam contra o risco do fundamentalismo religioso, que transforma a fé em sistema fechado. A verdadeira fé cristã é humilde, aberta ao diálogo e consciente de seus limites.
🔹 Capítulo 6 – Deus e o Sofrimento Humano
O sofrimento não recebe respostas fáceis. O livro rejeita explicações simplistas e convida o leitor a permanecer diante do mistério da dor com reverência e compaixão, reconhecendo que Deus não é um solucionador automático de tragédias.
🔹 Capítulo 7 – Redescobrir Deus
O livro se encaminha para uma proposta construtiva: ao nos livrarmos de imagens falsas, abrimos espaço para reencontrar Deus de maneira mais profunda, silenciosa e verdadeira — um Deus que não se impõe, mas se revela no amor, na cruz e na esperança.
🟦 Conclusão
Livrar-se de Deus é uma obra necessária para o nosso tempo. Ela não enfraquece a fé; ao contrário, a purifica. O livro convida o leitor a abandonar uma religiosidade infantil, defensiva ou utilitária e a caminhar rumo a uma fé madura, humilde e profundamente enraizada no mistério de Deus.
É uma leitura desafiadora, especialmente para quem confunde fé com certeza absoluta. Os autores mostram que crer não é possuir Deus, mas permanecer diante d’Ele com reverência, mesmo quando não há respostas fáceis.
Trata-se de um livro para leitores dispostos a pensar, refletir e crescer espiritualmente.
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