A autoridade dada aos profetas e apóstolos
Não foram apenas os apóstolos que compreenderam a autoridade singular que lhes fora concedida por Cristo; a igreja primitiva também a reconheceu com clareza e humildade. Com a morte do último apóstolo, a comunidade cristã entrou conscientemente numa nova etapa da história: a era pós-apostólica. Já não havia entre eles ninguém que pudesse falar com a autoridade de Paulo, Pedro ou João. Essa consciência não foi traumática; foi reverente e ordenada.
Um testemunho especialmente claro dessa compreensão vem de Inácio de Antioquia (c. 110 d.C.). Atuando pouco depois do falecimento de João, Inácio estava plenamente ciente da mudança de época em que vivia. A caminho de Roma para o martírio, escreveu cartas pastorais às igrejas de Éfeso, Roma, Trales e outras comunidades. Em suas palavras, ecoa uma lucidez notável: “Não lhes dou mandamentos, como Pedro ou Paulo. Pois não sou um apóstolo, mas um homem condenado”.
Essa afirmação é profundamente reveladora. Inácio era bispo — um líder respeitado, pastor fiel e testemunha corajosa da fé. Ainda assim, sabia distinguir sua autoridade ministerial da autoridade apostólica. Ele não reivindicou para si o lugar que pertencia exclusivamente aos apóstolos. Reconheceu que a era da revelação normativa havia sido encerrada com eles. A igreja, portanto, deveria agora guardar, ensinar e viver aquilo que já fora entregue, não acrescentar novos fundamentos.
Essa percepção foi compartilhada amplamente pela igreja primitiva. Por isso, quando chegou o momento — no terceiro século depois de Cristo — de reconhecer formalmente o cânon do Novo Testamento, o critério decisivo não foi popularidade, eloquência ou antiguidade isolada, mas apostolicidade. Um livro precisava estar ligado direta ou indiretamente a um apóstolo, isto é, àqueles que receberam de Cristo a autoridade para ensinar em Seu nome.
Esse processo não criou a autoridade dos livros; apenas reconheceu a autoridade que eles já possuíam. A igreja não se colocou acima da Palavra, mas debaixo dela. Fiel ao caminho antigo, discerniu que a voz de Deus havia falado de maneira única por meio dos apóstolos, e que essa voz deveria ser preservada sem acréscimos nem substituições.
Assim, a submissão da igreja à Escritura não nasceu de um decreto tardio, mas de uma convicção profunda: a autoridade pertence a Deus, foi confiada aos apóstolos e permanece nas Escrituras que deles procedem. Essa herança, recebida com temor e gratidão, continua sendo o alicerce seguro da fé cristã até hoje.
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