Gênesis não começa com o tempo, mas com ordem
O silêncio teológico de Gênesis 1:1–2 e a soberania que antecede tudo
Quando abrimos a Bíblia em Gênesis 1:1, somos tentados a ler o texto com lentes modernas: “No princípio” parece, à primeira vista, uma afirmação científica sobre o início do tempo. No entanto, a tradição exegética clássica — especialmente aquela preservada em Gênesis: Introdução e Comentário — nos convida a algo mais profundo e reverente: Gênesis não se apressa em explicar quando tudo começou, mas se concentra em afirmar quem governa tudo o que existe.
Esse detalhe, frequentemente ignorado, é decisivo. O texto bíblico não inaugura a Escritura com cronologias, medições ou disputas cósmicas. Ele começa com autoridade, ordem e intencionalidade.
O que o texto hebraico realmente diz
O hebraico de Gênesis 1:1–2 apresenta uma estrutura simples e poderosa. Não há descrição de batalha, nem genealogia de deuses, nem personificação do caos. Encontramos, sim, a expressão tohu va-bohu, geralmente traduzida como “sem forma e vazia”.
Esse par de palavras não descreve um mal ativo ou uma força rival. Na exegese tradicional, especialmente como apontado por Kidner, tohu va-bohu indica ausência de ordem funcional, não oposição a Deus. O caos não luta; ele aguarda. Ele não ameaça; ele é passivo diante da palavra criadora.
Aqui está uma diferença crucial entre Gênesis e os mitos do Antigo Oriente Próximo.
Um contraste intencional com os mitos antigos
Nos relatos babilônicos, como o Enuma Elish, a criação nasce de um conflito violento entre divindades. O caos é divino. A matéria é hostil. O cosmos surge do sangue e da guerra.
Gênesis faz exatamente o oposto — e faz isso em silêncio.
Deus não luta.
Deus não reage.
Deus não vence um inimigo.
Ele fala. E tudo se organiza.
Esse silêncio é teológico. Ele afirma que:
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não existe dualismo,
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não existe rivalidade cósmica,
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não existe força anterior ou paralela a Deus.
Antes de haver luz, tempo, espaço ou forma, há soberania.
O “princípio” não é explicado — é pressuposto
Um dos pontos mais curiosos do texto é que Gênesis não se preocupa em definir o “princípio”. O texto não argumenta a existência de Deus; ele a pressupõe. Isso revela algo fundamental sobre a fé bíblica: ela não nasce da curiosidade filosófica, mas da revelação.
A Escritura começa afirmando que tudo o que existe já está sob domínio divino. O leitor não é convidado a especular, mas a reconhecer.
Essa abordagem preserva o mistério sem abrir mão da verdade.
Ordem antes de beleza
Outro detalhe pouco comentado é que, em Gênesis, a criação não avança da feiura para a beleza, mas do caos funcional para a ordem funcional. Deus cria separando, delimitando, nomeando. A estética vem depois; a ordem vem primeiro.
Isso ensina algo profundo sobre o caráter de Deus e sobre a vida humana:
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Deus não começa decorando; Ele começa estruturando.
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Deus não embeleza o caos; Ele o transforma em cosmos.
Esse padrão ecoa por toda a Escritura e pela experiência espiritual: antes de consolo, há correção; antes de plenitude, há alinhamento.
Implicações espirituais ignoradas
Esse início silencioso e ordenado de Gênesis tem implicações pastorais profundas, frequentemente negligenciadas:
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Nem todo caos é maligno; alguns são apenas não organizados ainda.
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Deus não precisa destruir tudo para criar algo novo.
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A Palavra de Deus age primeiro estabelecendo limites, não emoções.
A criação começa com fronteiras: luz e trevas, céu e terra, águas de cima e de baixo. Ordem é o primeiro ato da graça.
Marcadores para reflexão
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Gênesis não responde às curiosidades modernas; responde às necessidades eternas
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O caos não governa a realidade; Deus governa o caos
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O texto bíblico começa com soberania, não com explicação
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A criação revela autoridade antes de revelar beleza
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O silêncio de Gênesis é tão teológico quanto suas palavras
Conclusão
Gênesis não abre a Bíblia como um tratado científico nem como um poema mitológico. Ele abre como uma declaração de governo. Antes do tempo, antes da história, antes da humanidade, Deus reina.
Esse é o alicerce de toda a fé bíblica. Não começamos entendendo tudo; começamos reconhecendo quem está no controle. E isso, por si só, já é ordem suficiente para a alma.
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