Imagem de Deus

 

Imagem de Deus: não aparência, mas função

O sentido original de tselem Elohim em Gênesis 1:26–28

Um dos conceitos mais citados — e, paradoxalmente, mais mal compreendidos — da Bíblia é a afirmação de que o ser humano foi criado “à imagem e semelhança de Deus”. Em leituras modernas, essa expressão costuma ser associada à autoestima, à racionalidade ou até a traços físicos espiritualizados. Contudo, a exegese clássica, especialmente como apresentada em Gênesis: Introdução e Comentário, aponta para um caminho muito mais antigo, sóbrio e teologicamente robusto: imagem não é aparência, é vocação.

Gênesis não está descrevendo como Deus é, mas o que o homem foi chamado a fazer.

O peso da palavra tselem

A palavra hebraica tselem (imagem) aparece em outros contextos do Antigo Testamento e, de forma consistente, está ligada à ideia de representação visível de autoridade. No mundo do Antigo Oriente Próximo, reis colocavam estátuas — suas “imagens” — em territórios distantes para sinalizar domínio. A estátua não era o rei, mas representava sua presença e governo.

Esse pano de fundo cultural é essencial.

Quando Gênesis afirma que o homem foi criado à imagem de Deus, o texto está dizendo que:

  • o ser humano é colocado como representante de Deus na criação;

  • a imagem está ligada ao exercício de autoridade delegada, não à essência divina;

  • não há qualquer sugestão de semelhança física.

Kidner observa que o texto bíblico faz algo revolucionário: aquilo que, nas culturas antigas, era privilégio exclusivo do rei, em Gênesis é concedido a toda a humanidade.

Imagem e domínio: uma ligação inseparável

Gênesis 1:26–28 conecta diretamente imagem e domínio. O texto não diz “imagem” e depois, em outro momento, fala de governar. As duas ideias caminham juntas. O homem é imagem para governar, e governa porque é imagem.

Esse domínio, porém, não é tirânico. A narrativa bíblica nunca autoriza exploração predatória. Trata-se de:

  • cuidado,

  • administração,

  • responsabilidade diante do Criador.

Isso corrige tanto leituras abusivas do texto quanto interpretações modernas que dissolvem completamente a ideia de autoridade.

Um golpe silencioso contra a idolatria

Outro detalhe pouco comentado é que Gênesis, ao declarar o homem como imagem de Deus, desautoriza toda idolatria. Se o próprio Deus escolheu seres humanos vivos como seus representantes, qualquer imagem esculpida se torna teologicamente redundante.

Esse ponto é crucial na tradição bíblica:

  • Deus não se deixa capturar por objetos.

  • Sua imagem se manifesta em vida, ação e responsabilidade moral.

Assim, o conceito de imagem é profundamente ético antes de ser metafísico.

A imagem não é perdida após a queda

Um fato frequentemente ignorado é que, após o pecado, a Bíblia continua afirmando a imagem de Deus no ser humano (Gn 9:6). Kidner chama atenção para isso como um dos pilares da teologia bíblica da dignidade humana.

Isso significa que:

  • a imagem foi danificada, não destruída;

  • o pecado afeta o exercício da função, não a concessão original;

  • todo ser humano mantém valor intrínseco diante de Deus.

Essa leitura sustenta a ética bíblica, a justiça e a visão cristã da vida humana ao longo da história.

Um contraste com leituras modernas

Muitas leituras contemporâneas transformaram a imagem de Deus em um conceito subjetivo: autoestima, identidade emocional ou potencial interior. Embora essas aplicações possam ter valor pastoral, elas não correspondem ao núcleo exegético do texto.

Gênesis não começa perguntando “quem sou eu?”, mas “a quem sirvo?”
A imagem aponta para missão, não para autoafirmação.

Implicações espirituais esquecidas

Compreender a imagem de Deus como função resgata verdades profundas:

  • dignidade vem antes de desempenho, mas exige responsabilidade;

  • autoridade é sempre delegada, nunca autônoma;

  • viver como imagem de Deus é viver em obediência, não em autoexpressão irrestrita.

Essa visão moldou séculos de teologia cristã e sustentou a ética bíblica muito antes das discussões modernas sobre identidade.

Marcadores para reflexão

  • Imagem de Deus não é aparência, é vocação

  • O ser humano governa como representante, não como dono

  • A Bíblia democratiza a dignidade real

  • A imagem permanece mesmo após a queda

  • Autoridade bíblica sempre caminha com responsabilidade

Conclusão

Gênesis não eleva o homem para torná-lo divino; ele o coloca sob Deus, como administrador da criação. A imagem não é um espelho de essência, mas um chamado à fidelidade. Ser imagem de Deus é viver diante d’Ele, em nome d’Ele e para a glória d’Ele.

Essa leitura antiga continua profundamente atual — e desafiadora.

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