O Evangelho que não se ajusta
Há um desconforto crescente quando o evangelho é anunciado como ele sempre foi. Não porque a mensagem tenha mudado, mas porque o coração humano continua resistindo ao seu conteúdo central. O verdadeiro problema do cristianismo contemporâneo não é perseguição externa, mas adaptação interna. O evangelho tem sido moldado para caber na cultura, quando, desde o início, ele existe para confrontá-la.
O evangelho não começa com as necessidades do homem, mas com a santidade de Deus. Ele não surge para melhorar a autoestima, organizar a vida ou oferecer conforto emocional. Ele começa com uma declaração incômoda: o homem está espiritualmente morto e separado de Deus. Qualquer mensagem que omita essa realidade já não anuncia o evangelho bíblico, mas uma versão diluída, inofensiva e socialmente aceitável.
A cruz nunca foi um adorno religioso. Ela é o anúncio do fim do homem como centro. Nela, Deus declara que o velho modo de viver não pode ser reformado, apenas crucificado. Por isso, o evangelho sempre gera resistência. Ele confronta o orgulho, expõe o pecado e desmonta a ilusão de autonomia espiritual. Não há como seguir Cristo sem negar a si mesmo.
Quando a conversão é apresentada sem arrependimento, produz-se um cristianismo nominal: pessoas que falam a linguagem da fé, mas continuam governadas pelos mesmos valores, desejos e prioridades. Fé sem transformação não é fé bíblica. Obediência não é um acréscimo opcional, mas evidência inevitável de uma vida regenerada.
O evangelho também entra em choque com a cultura porque redefine o que é sucesso, liberdade e realização. Ele confronta o amor ao dinheiro, a idolatria do conforto, a relativização da verdade e a autonomia moral. Sempre foi assim. Desde os profetas até os apóstolos, a fidelidade a Deus custou aceitação social, segurança e, muitas vezes, a própria vida.
O discipulado verdadeiro nunca foi popular. Jesus não chamou admiradores, mas seguidores dispostos a perder para ganhar. A pergunta central da fé não é se o cristão será relevante aos olhos do mundo, mas se será fiel diante de Deus. A igreja não foi chamada para refletir a cultura, mas para ser sinal do Reino.
O evangelho que não confronta não salva. O Cristo que não governa não transforma. E a fé que não custa nada não vale nada. Retornar ao evangelho bíblico é recuperar a coragem de anunciar uma verdade que não pede permissão, não se ajusta ao espírito da época e continua chamando o homem ao arrependimento, à cruz e à vida nova.
Esse sempre foi o caminho. E continua sendo.
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