O Ritmo Antigo da Livro de Exodo
Por que a Bíblia Hebraica Não Chama “Êxodo” por esse nome — e o que isso revela sobre Deus
"Parashah": este é o nome hebraico de Êxodo. Entrar no ritmo da Parashah é mais do que aprender um método de leitura; é submeter-se a uma pedagogia milenar. A Torá não foi organizada para ser “consumida”, mas para ser habitada. Cada semana, a mesma porção (parashah) é proclamada em todas as sinagogas do mundo, criando uma sincronia espiritual entre gerações, geografias e histórias pessoais. O texto não corre; ele caminha. E, nesse caminhar, forma caráter, memória e identidade.
Quando o ciclo anual entra em Parashat Shemot (Êxodo 1:1–6:1), não estamos apenas mudando de livro. Estamos entrando em uma nova fase da revelação — e o próprio nome hebraico nos diz isso.
Shemot: Quando Deus Começa Pelo Nome
O livro que o Ocidente chama de Êxodo recebe, no hebraico, o nome de sua primeira palavra significativa:
וְאֵלֶּה שְׁמוֹת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל
Ve’eleh shemot benei Yisrael
“E estes são os nomes dos filhos de Israel…” (Êxodo 1:1)
Na tradição hebraica, o nome de um livro não é um rótulo editorial, mas uma chave teológica. Shemot não começa com a opressão, nem com o Faraó, nem com o clamor — começa com nomes. Isso é profundamente coerente com o caráter de Deus revelado em toda a Escritura:
“Eu te chamei pelo nome; tu és meu.” (Isaías 43:1)
Antes da libertação coletiva, há memória individual. Antes do milagre público, há identidade preservada. Em um contexto onde o Império tenta reduzir pessoas a números — trabalho, tijolos, produção — Deus reafirma: eles ainda têm nomes.
O Silêncio Intencional Sobre o Nome do Faraó
Aqui o texto hebraico ensina por contraste. Enquanto os filhos de Israel são listados nominalmente (Êx 1:2–4), o Faraó — o homem mais poderoso do mundo antigo — permanece anonimizado.
Isso não é descuido. É teologia narrativa.
Na Bíblia Hebraica, o nome está ligado à essência, à memória e ao legado (shem vem da mesma raiz de sham, “ali”, aquilo que permanece). Quem teme a Deus é lembrado. Quem se opõe à vida, mesmo sendo rei, se torna descartável no texto.
“A memória do justo é abençoada, mas o nome dos ímpios apodrecerá.” (Provérbios 10:7)
O mundo grava nomes em monumentos; Deus grava nomes na história viva.
Shem e Identidade: Um Conceito Hebraico Profundo
No pensamento hebraico, nome não é apenas identificação sonora. Shem carrega ideia de vocação, caráter e destino.
Por isso Deus muda nomes:
Abrão → Abraão (Gênesis 17:5)
Jacó → Israel (Gênesis 32:28)
Sarai → Sara (Gênesis 17:15)
E por isso Moisés é apresentado já com um nome carregado de ironia redentora.
Moisés (Mosheh): Um Nome Profético
O texto diz:
“Ela lhe chamou Moisés (Mosheh), porque, disse ela: Das águas o tirei.” (Êxodo 2:10)
Em hebraico, Mosheh está ligado ao verbo מָשָׁה (mashah), “retirar, puxar para fora”. Mas aqui está a beleza do texto: Moisés não será apenas aquele que foi tirado das águas — ele será aquele que tirará outros das águas.
Tirado do Nilo
Conduz o povo pelo Mar Vermelho (Yam Suf)
Lidera Israel pelo deserto, espaço caótico semelhante às “águas” primordiais de Gênesis 1:2
Nada é acidental. O nome contém o chamado.
As Parteiras: Nomes que Resistiram ao Império
Outro detalhe que a leitura hebraica não deixa passar:
“As parteiras hebreias chamavam-se Sifrá e Puá.” (Êxodo 1:15)
Duas mulheres. Sem exército. Sem posição política. Mas com nomes registrados para sempre.
Elas temeram a Deus (vatirena hamyal’dot et-haElohim, Êx 1:17) e praticaram desobediência civil santa. O texto afirma:
“Deus fez bem às parteiras…” (Êxodo 1:20)
Enquanto o Faraó tenta apagar nomes, Deus multiplica memória. O Império cai no esquecimento; a fidelidade humilde entra na eternidade.
O Deus que Ouve, Lembra e Desce
A culminação de Parashat Shemot não é o milagre, mas a revelação do caráter de Deus:
“Deus ouviu o seu gemido, lembrou-se da sua aliança… Deus viu os filhos de Israel, e Deus os conheceu.” (Êxodo 2:24–25)
O hebraico aqui é intenso:
Shama (ouvir)
Zakar (lembrar)
Ra’ah (ver)
Yada (conhecer intimamente)
Este não é um Deus distante. É um Deus que entra na história porque conhece os nomes.
Para o Leitor Cristão: Um Chamado à Leitura Raiz
Redescobrir Shemot como Shemot não é abandonar a fé cristã; é aprofundá-la. É ler Jesus dentro da tradição que o formou. É perceber que o Bom Pastor que “chama suas ovelhas pelo nome” (João 10:3) é o mesmo Deus que começou a redenção dizendo:
“Estes são os nomes…”
Quando respeitamos o ritmo da Parashah, deixamos de correr pelo texto e aprendemos a caminhar com ele. E, nesse caminhar antigo, algo acontece: a Escritura deixa de ser apenas estudada — e passa a nos formar.
Porque, desde o princípio, Deus sempre trabalhou assim: não libertando massas anônimas, mas chamando pessoas pelo nome.
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