Permanecer em Cristo
A vida cristã nunca foi pensada como mero assentimento intelectual ou cumprimento exterior de normas religiosas. Desde o início, o chamado do evangelho foi relacional: seguir, permanecer, caminhar com Cristo. A intimidade com Jesus não é um luxo espiritual para poucos, mas o coração da fé cristã vivida de forma plena.
Intimidade, no sentido bíblico, não se confunde com sentimentalismo. Trata-se de comunhão contínua, cultivada no silêncio, na oração perseverante e na escuta atenta da Palavra. Os antigos compreendiam que a alma precisa ser treinada para permanecer diante de Deus. Não há profundidade sem disciplina, nem maturidade sem constância.
O convite de Cristo é sempre pessoal. Ele chama pelo nome, conduz ao recolhimento e ensina a permanecer. Essa permanência não afasta o cristão do mundo, mas o reposiciona dentro dele. Quanto mais profunda a comunhão, mais alinhada se torna a vontade. O coração passa a desejar aquilo que agrada a Deus, e a obediência deixa de ser peso para se tornar resposta amorosa.
A intimidade verdadeira também expõe. À medida que a luz de Cristo alcança o interior, motivações são reveladas, feridas são tocadas e áreas de resistência vêm à tona. Esse processo não é confortável, mas é necessário. A tradição cristã sempre entendeu que não há transformação sem arrependimento, nem cura sem verdade.
Outro aspecto essencial dessa comunhão é o silêncio. Em uma cultura marcada pela pressa e pelo excesso de palavras, aprender a silenciar diante de Deus tornou-se um exercício contracultural. No silêncio, o coração desacelera, a alma se aquieta e a presença de Cristo se torna perceptível. Não para gerar êxtase, mas para formar caráter.
A intimidade com Cristo também gera fruto visível. Ela se manifesta em amor ao próximo, em mansidão nas relações, em fidelidade nos pequenos atos cotidianos. O cristão íntimo de Cristo não busca reconhecimento, mas coerência. Sua vida se torna testemunho silencioso de uma presença que governa o interior.
A espiritualidade cristã histórica sempre alertou contra uma fé baseada apenas em emoções momentâneas. A intimidade verdadeira se constrói ao longo do tempo, sustentada por hábitos simples: leitura das Escrituras, oração constante, participação na comunidade e prática da obediência. É nesse caminho antigo que o coração é moldado.
Retornar a essa compreensão é recuperar o centro. A fé cristã floresce quando Cristo não é apenas tema de reflexão, mas presença cultivada. É na intimidade fiel, silenciosa e perseverante que o discípulo é transformado à imagem daquele que segue.
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