Quando o Clamor Sobe
Quando Deus Ouve Antes de Agir: O Caráter Revelado em Parashat Shemot
Êxodo 2:23–25
A culminação de Parashat Shemot não está nos sinais extraordinários que ainda viriam, nem nos milagres que marcariam a saída do Egito. O texto nos conduz, com sobriedade e profundidade, a algo mais antigo e mais sólido: a revelação do caráter de Deus. Antes do mar se abrir, antes do cajado ser levantado, antes mesmo de Moisés assumir publicamente seu chamado, a Escritura afirma quatro ações divinas decisivas: Deus ouviu, lembrou-se, viu e conheceu.
O cenário é de longa opressão. Israel geme sob a escravidão egípcia, e o texto deixa claro que esse sofrimento não é recente. Gerações passaram, líderes morreram, promessas pareciam distantes. Não há registros de grandes intervenções visíveis nesse momento. Tudo o que existe é o clamor. E é exatamente aí que o texto se aprofunda, revelando como Deus age quando o ser humano já não tem mais forças para produzir esperança.
O verbo shama (שָׁמַע), “ouvir”, indica muito mais do que percepção sonora. No pensamento hebraico, ouvir envolve acolher e responder. O clamor de Israel não ecoa no vazio. Ele encontra um Deus atento, que se inclina para escutar. Esse ouvir não é impessoal; é o primeiro passo de um envolvimento ativo.
Em seguida, o texto afirma que Deus zakar (זָכַר), “lembrou-se” da sua aliança com Abraão, Isaque e Jacó. Aqui, é essencial compreender o sentido bíblico de lembrar. Deus não esquece para depois recordar; lembrar-se, nas Escrituras, significa agir fielmente conforme uma promessa assumida. A libertação de Israel não nasce da pressão do sofrimento apenas, mas da fidelidade de Deus à sua própria palavra.
O texto prossegue afirmando que Deus ra’ah (רָאָה), “viu” os filhos de Israel. Ver, no hebraico bíblico, não é um ato superficial. É perceber em profundidade, discernir a realidade como ela é. Deus vê a opressão, a injustiça, o desgaste da alma. Nada passa despercebido.
Por fim, o texto culmina com yada (יָדַע): “Deus os conheceu”. Este é talvez o verbo mais forte. Yada expressa conhecimento íntimo, relacional, pessoal. Não é conhecimento estatístico, coletivo ou distante. É o conhecimento de quem reconhece nomes, histórias, lágrimas e limites. Esse verbo revela que a libertação não é apenas um ato político ou social, mas profundamente relacional.
Essa sequência nos ensina algo fundamental: Deus entra na história porque conhece o seu povo. O agir divino nasce do relacionamento, não da urgência humana. Antes de transformar circunstâncias, Deus reafirma quem Ele é. Para uma geração acostumada a medir a presença de Deus apenas por resultados imediatos, Shemot nos convida a retornar a uma fé mais antiga, mais profunda, ancorada no caráter fiel do Senhor.
Na vida prática, esse texto nos chama à perseverança. Há momentos em que o clamor parece ser tudo o que nos resta. Ainda assim, a Escritura nos assegura: Deus ouve. Mesmo quando não vemos mudanças imediatas, Ele lembra da aliança. Mesmo quando nos sentimos invisíveis, Ele vê. E, acima de tudo, Ele nos conhece.
A libertação começa no coração de Deus antes de se manifestar na história. Essa verdade, antiga e segura, continua sustentando os que aprendem a esperar confiando, como sempre foi feito pelo povo da aliança.
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