Quando o futuro não nos pertence
Na Epístola de Tiago, o autor traz a fé para o chão da vida diária. Um dos pontos mais sensíveis desse confronto é o modo como planejamos. Tiago não condena organização, trabalho ou projetos; ele confronta a presunção — a tentativa de conduzir o amanhã como se Deus fosse dispensável. O ensino é antigo, mas extremamente atual: planejar sem referência ao Senhor revela uma fé desconectada da realidade espiritual.
A cena cotidiana que revela o coração
Tiago descreve pessoas que dizem:
“Hoje ou amanhã iremos a tal cidade, lá passaremos um ano, negociaremos e teremos lucros” (Tg 4.13, ARA).
Nada parece errado. Tudo soa responsável, produtivo e estratégico. O problema não está no planejamento, mas na ausência de Deus do discurso e do coração. O amanhã é tratado como garantido; o tempo, como propriedade humana.
A parábola do vapor: lucidez espiritual
Para corrigir a presunção, Tiago oferece uma imagem breve e poderosa:
“Sois apenas como neblina que aparece por instante e logo se dissipa” (Tg 4.14, ARA).
Essa não é uma mensagem de desânimo, mas de lucidez. Reconhecer a fragilidade da vida nos livra da arrogância e nos conduz à dependência. A fé madura não nega a brevidade; aprende a viver bem dentro dela.
Planejar com humildade não é fraqueza
Tiago propõe uma alternativa simples e profunda:
“Se o Senhor quiser, não só viveremos, como também faremos isto ou aquilo” (Tg 4.15, ARA).
Aqui não se trata de repetir uma fórmula religiosa, mas de assumir uma postura interior. Planejar sob a soberania de Deus é reconhecer limites, submeter desejos e aceitar correções de rota. A fé bíblica sempre caminhou assim: com projetos nas mãos e o coração rendido.
O contraste com o ensino de Jesus
O ensino de Tiago ecoa o alerta de Jesus:
“Não andeis ansiosos pelo dia de amanhã” (Mt 6.34, ARA).
Ansiedade e presunção são parentes próximos. Ambas nascem da tentativa de controlar o futuro. A fé, ao contrário, confia o amanhã a Deus e se compromete com a obediência hoje.
Conclusão
Planejar é necessário. Presumir é perigoso. Tiago nos chama a um cristianismo que organiza a vida sem usurpar o lugar de Deus. Quando nossos planos reconhecem a soberania do Senhor, eles se tornam mais leves, mais sábios e mais seguros. Esse é o caminho antigo: trabalhar com diligência, viver com humildade e confiar plenamente naquele que governa o tempo.
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