Quando Tenho Vontade de Largar Tudo
Há momentos na caminhada cristã em que o peso das responsabilidades, das lutas internas e das pressões externas parece insuportável. O coração se cansa, a mente se confunde e a alma sussurra: “Não aguento mais.” Muitos acreditam que esse tipo de sentimento é sinal de fraqueza espiritual, mas a Escritura mostra algo diferente. Um dos grandes profetas de Deus — Jeremias — viveu exatamente esse conflito. Seu livro é o testemunho de um homem fiel que, mesmo profundamente chamado por Deus, enfrentou o desejo de desistir.
Jeremias foi levantado para anunciar uma mensagem dura a um povo endurecido. Advertiu sobre juízo, clamou por arrependimento, chorou pela ruína que se aproximava. Em vez de aplausos, recebeu desprezo. Em Jeremias 20:7–9, ele abre o coração com uma honestidade desconcertante: sente-se enganado, ridicularizado, alvo de zombaria constante. Decide, então, que não falará mais em nome do Senhor. Quer silenciar-se. Quer parar. Quer largar tudo.
Mas algo acontece dentro dele: “Se digo: não me lembrarei dele, nem falarei mais no seu nome, então isso se torna no meu coração como fogo ardente, encerrado nos meus ossos; estou cansado de o conter, e não posso.” O chamado de Deus queimava por dentro. Não era entusiasmo superficial — era convicção profunda, plantada pelo próprio Senhor.
Essa tensão revela uma verdade antiga e preciosa: fidelidade não é ausência de cansaço. É perseverança apesar dele. Jeremias não era um homem de aço; era de carne e osso, com lágrimas, medos e frustrações. Em Jeremias 15:10 ele lamenta o dia em que nasceu. Em Jeremias 20:14–18 chega a amaldiçoar sua própria vinda ao mundo. Ainda assim, continua falando. Continua obedecendo. Continua caminhando.
O profeta também nos ensina que Deus não ignora o esgotamento de seus servos. Em Jeremias 1:8, no início do chamado, o Senhor já havia prometido: “Não temas diante deles, porque eu sou contigo para te livrar.” Mais tarde, em Jeremias 20:11, Jeremias declara algo que soa como âncora no meio da tempestade: “Mas o Senhor está comigo como poderoso guerreiro.” A presença divina não removeu as dificuldades, mas sustentou o coração do profeta para não afundar nelas.
Outro texto que ilumina essa luta é Jeremias 29:11 — muitas vezes citado, mas profundamente enraizado num contexto de dor e exílio: “Porque eu é que sei que pensamentos tenho a vosso respeito, diz o Senhor; pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que desejais.” Deus fala isso a um povo ferido, deslocado, cansado de esperar. O futuro prometido não vinha de imediato, mas estava seguro nas mãos do Senhor. Jeremias cria nisso, mesmo quando o presente parecia escuro.
Quando surge a vontade de largar tudo — o ministério, o casamento, a vocação, a fé, a perseverança diária — Jeremias nos chama a parar e escutar a voz que ainda arde dentro. Não a voz da exaustão, nem do medo, nem da crítica humana, mas a voz antiga e firme do Deus que chama, sustenta e guarda. O mesmo Deus que formou Jeremias no ventre (Jr 1:5) continua soberano sobre cada estação da vida.
Há sabedoria antiga em reconhecer o cansaço sem entregar o leme da alma a ele. A tradição da fé sempre ensinou que perseverar não é romantizar a dor, mas permanecer firmemente ancorado na fidelidade de Deus, mesmo quando as emoções vacilam. Jeremias chorou — e por isso é conhecido como o profeta das lágrimas —, mas não abandonou o Senhor. Suas lágrimas se tornaram sementes de esperança para gerações.
Se hoje o seu coração sussurra “não dá mais”, volte-se para essa história. Lembre-se: Deus não se escandaliza com o seu desânimo, mas o convida a permanecer. O fogo que Ele acende não se apaga com a ventania. Ele continua sendo o mesmo “poderoso guerreiro”. E, como nos dias de Jeremias, ainda sustenta os que se recusam a soltar a mão do chamado.
Persistir, quando tudo em nós quer desistir, é uma das formas mais silenciosas — e mais profundas — de fé.
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