Perdido dentro da Igreja

 Entre as palavras mais fortes ditas por Jesus, poucas confrontam tanto quanto aquelas que revelam a possibilidade de alguém estar dentro e, ainda assim, perdido. Nas três parábolas de Lucas 15 — a ovelha perdida, a dracma perdida e o filho perdido — o fio condutor é a alegria do reencontro. Céu em festa. Casa em celebração. Comunidade convocada para se alegrar. Contudo, há um personagem que destoa desse movimento: o filho mais velho. Ele não se perdeu geograficamente, mas espiritualmente. Não saiu de casa, mas saiu do coração do Pai.

É significativo notar que, nas três parábolas, a alegria é coletiva. O pastor chama os amigos. A mulher convoca as vizinhas. O pai prepara uma festa. O Reino de Deus não celebra sozinho. Ele compartilha a restauração. O problema é que o filho mais velho não consegue se alegrar com aquilo que alegra o Pai. Ele está do lado de fora, enquanto o filho que havia se perdido está dentro da casa. Essa inversão revela algo profundo: é possível obedecer regras, cumprir tarefas, manter-se ativo e ainda assim não participar da comunhão.

O maior perigo não é estar longe, mas achar-se perto demais para precisar voltar. O filho mais velho representa aquele que vive dentro da igreja, conhece a rotina, entende os códigos, respeita os limites externos, mas desobedece os dois maiores mandamentos: amar a Deus acima de todas as coisas e amar o próximo como a si mesmo. Seu discurso é correto, mas seu coração está endurecido. Ele não celebra o perdão porque não compreende a graça.

Outro traço marcante desse personagem é a confiança no próprio desempenho. Ele trabalha, se esforça, cumpre ordens, mas passa a medir sua relação com o Pai pelo mérito. A obediência deixa de ser fruto do amor e passa a ser instrumento de comparação. Ele não percebe o próprio pecado porque está ocupado demais avaliando o erro do outro. Essa postura é antiga, mas sempre atual: servir a Deus movido por orgulho, vaidade ou necessidade de reconhecimento.

O filho mais velho também revela dificuldade com o arrependimento e com o perdão. Em seu vocabulário, não há espaço para restauração. Para ele, quem erra deve pagar, sofrer, permanecer à margem. Ele acusa o pai por perdoar. Vê o irmão como rival, não como família. Quando o perdão do Pai se torna escândalo, algo já se perdeu por dentro. A ausência de misericórdia denuncia a distância do coração de Deus.

Há ainda um aspecto silencioso e profundo: a solidão espiritual. Ele vive na casa do pai, mas se sente escravo. Está presente fisicamente, mas não desfruta da comunhão. Trabalha muito, mas ama pouco. Não constrói vínculos, apenas funções. Acumula cansaço, como se a atividade fosse capaz de suprir a ausência de intimidade. Vive como órfão, mesmo estando sob o mesmo teto.

Deus nunca se agradou de trabalho desconectado de relacionamento. Trabalho para Deus sem vida com Deus não agrada o coração do Pai. Durante o período em que o filho pródigo esteve ausente, o filho mais velho não se preocupou em consolar o pai. Apenas trabalhou. Não amou. Isso revela que é possível estar ocupado na obra e ausente no cuidado.

Essa palavra nos chama à reflexão honesta. Gastamos tempo com o serviço, com a comunhão entre irmãos, com a leitura da Palavra. Tudo isso é importante. Mas como está nossa comunhão com Deus? Temos intimidade suficiente para enxergar as pessoas como Ele as vê? Ou já formamos julgamentos sem antes buscar o coração do Pai?

O chamado do evangelho não é para nos tornarmos fiscais da santidade alheia, mas filhos que refletem o caráter do Pai. Nossa meta não é parecer corretos, mas sermos transformados. Humildes, misericordiosos, amorosos. O Reino não é construído apenas com obediência externa, mas com corações rendidos.

Estar dentro da igreja é privilégio. Permanecer no coração do Pai é escolha diária. Que não sejamos encontrados do lado de fora, presos à justiça própria, enquanto a graça continua celebrando dentro da casa.

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