Descansar quando o controle escapa

A ansiedade raramente surge do nada. Ela costuma nascer do desejo de manter controle sobre o que não está mais em nossas mãos. Durante boa parte da vida, aprendemos a planejar, decidir, agir e resolver. Esse exercício constante de autonomia cria a ilusão de que, se fizermos tudo corretamente, o futuro permanecerá sob nosso domínio. No entanto, há fases da vida — especialmente com o passar dos anos — em que essa lógica começa a falhar.

O envelhecer expõe limites. O corpo já não responde como antes, o tempo parece mais curto e as incertezas se tornam mais visíveis. Nesse cenário, a ansiedade encontra terreno fértil. Ela se manifesta como preocupação constante, antecipação negativa e dificuldade de descansar. No fundo, a ansiedade revela uma pergunta silenciosa: “Se eu não estiver no controle, quem estará?”.

A fé cristã não ignora essa tensão. Pelo contrário, ela a confronta com honestidade. Descansar em Deus não significa ausência de responsabilidade, mas reconhecimento de soberania. É admitir que há aspectos da vida que nunca estiveram sob nosso controle, embora tenhamos acreditado que sim. Essa percepção pode ser assustadora, mas também libertadora.

Muitas vezes, resistimos ao descanso porque ele exige confiança. Confiar significa abrir mão de vigilância constante, de cenários imaginados e de tentativas de prever tudo. Para quem sempre viveu de forma ativa e resolutiva, descansar pode parecer fraqueza. No entanto, biblicamente, o descanso é um ato de fé madura. Ele declara que Deus continua governando mesmo quando cessamos nossas tentativas de controle.

A ansiedade também revela como lidamos com o futuro. Quando ele se torna ameaça, o presente perde qualidade. O coração vive projetado adiante, incapaz de habitar o agora. Deus, porém, nos chama a viver o dia de hoje com fidelidade, confiando que o amanhã será cuidado por Ele. Essa confiança não elimina dificuldades, mas redefine o peso que elas exercem sobre nós.

Descansar em Deus não é um estado emocional permanente, mas uma prática espiritual diária. Envolve reconhecer limites, entregar preocupações e aprender a parar. Às vezes, o descanso mais profundo não é físico, mas interior — o descanso de saber que não precisamos sustentar o mundo com nossas próprias mãos.

À medida que amadurecemos, Deus nos convida a uma fé menos ansiosa e mais confiante. Uma fé que aceita limites sem desespero e aprende a viver com serenidade, mesmo em meio às incertezas. Descansar, nesse sentido, não é desistir da vida, mas entregá-la com mais consciência Àquele que sempre cuidou dela.

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