O silêncio que forma o coração
Durante grande parte da vida, aprendemos a preencher o tempo. Preencher com tarefas, palavras, compromissos e explicações. O silêncio, muitas vezes, é visto como vazio, perda de tempo ou sinal de improdutividade. No entanto, com o passar dos anos, o silêncio começa a se impor. Nem sempre como escolha, mas como realidade. A vida desacelera, as vozes diminuem e o barulho externo perde intensidade.
Confesso que, em muitos momentos, resisti ao silêncio. Ele me parecia desconfortável. No silêncio, não há distrações suficientes para afastar pensamentos, lembranças e perguntas. Tudo o que foi evitado encontra espaço para emergir. O silêncio revela o que o ruído escondia.
A fé cristã, porém, não trata o silêncio como ausência, mas como ambiente de formação. É no silêncio que o coração aprende a escutar. Escutar não apenas a si mesmo, mas a Deus. Quando as palavras cessam, a pressa diminui e o controle se afrouxa, algo começa a ser moldado no interior.
Com o envelhecer, percebo que Deus não fala apenas por meio de respostas rápidas ou soluções imediatas. Muitas vezes, Ele fala por meio da espera, da pausa e da quietude. O silêncio se torna um convite à confiança. Não é fácil aceitar que nem tudo precisa ser resolvido agora, nem compreendido plenamente.
Há um tipo de silêncio que amadurece. Ele não é vazio, mas cheio de significado. Nesse silêncio, aprendemos a aceitar limites, a conviver com perguntas sem resposta e a descansar no fato de que Deus continua presente, mesmo quando não há explicações claras. O silêncio nos ensina que fé não é controlar a voz de Deus, mas permanecer disponível para ouvi-la.
Também há perdas associadas ao silêncio. A sensação de não ser mais tão requisitada, de não ser constantemente chamada ou necessária, pode gerar insegurança. No entanto, é nesse espaço menos barulhento que o coração pode ser curado de dependências sutis, como a necessidade de aprovação ou de constante validação.
O silêncio, vivido diante de Deus, não isola; aprofunda. Ele nos afasta do superficial e nos conduz ao essencial. Aprendemos a orar menos por respostas e mais por presença. Menos por explicações e mais por sustentação.
Talvez uma das maiores obras de Deus na maturidade espiritual seja nos ensinar a ficar em silêncio sem ansiedade. A aceitar que nem tudo precisa ser dito, feito ou resolvido. O silêncio, então, deixa de ser ameaça e se torna instrumento. Um lugar onde Deus trabalha lentamente, formando um coração mais sensível, mais humilde e mais atento.
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