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O que o perdão realmente significa na Bíblia?

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  No hebraico bíblico , o verbo mais comum para perdão é סָלַח ( salach ) , usado quase exclusivamente para a ação de Deus. Ele não descreve esquecimento psicológico, mas remoção da culpa diante do tribunal divino. Outro verbo essencial é נָשָׂא ( nasa’ ) , “carregar, levantar”. Perdoar é levantar o peso do pecado — não fingir que ele nunca existiu. Já no grego do Novo Testamento , o verbo central é ἀφίημι ( aphíēmi ) , que significa “soltar, liberar, cancelar uma dívida”. A imagem é jurídica e econômica. O pecado é real, a dívida existe, mas alguém assume o custo da liberação . Portanto, biblicamente, perdão não é amnésia moral. Deus não “esquece” no sentido humano; Ele decide não cobrar (cf. Jeremias 31:34). Isso exige justiça satisfeita, não negação da verdade. Perdão é esquecer — ou algo muito mais exigente? É algo muito mais exigente. O conceito moderno de “esquecer para seguir em frente” não é bíblico. O perdão bíblico: reconhece o mal, nomeia o pecado, rem...

Gênesis não começa com o tempo, mas com ordem

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O silêncio teológico de Gênesis 1:1–2 e a soberania que antecede tudo Quando abrimos a Bíblia em Gênesis 1:1 , somos tentados a ler o texto com lentes modernas: “No princípio” parece, à primeira vista, uma afirmação científica sobre o início do tempo. No entanto, a tradição exegética clássica — especialmente aquela preservada em Gênesis: Introdução e Comentário — nos convida a algo mais profundo e reverente: Gênesis não se apressa em explicar quando tudo começou, mas se concentra em afirmar quem governa tudo o que existe. Esse detalhe, frequentemente ignorado, é decisivo. O texto bíblico não inaugura a Escritura com cronologias, medições ou disputas cósmicas. Ele começa com autoridade , ordem e intencionalidade . O que o texto hebraico realmente diz O hebraico de Gênesis 1:1–2 apresenta uma estrutura simples e poderosa. Não há descrição de batalha, nem genealogia de deuses, nem personificação do caos. Encontramos, sim, a expressão tohu va-bohu , geralmente traduzida como “sem...

Resenha Livro Esmurrando o Corpo de Watchman Nee

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  Autoria: Watchman Nee Título original: Discipline / I Discipline My Body (compilação de mensagens) Data de publicação: Década de 1930–1940 Tema central: Disciplina espiritual, domínio próprio e submissão do corpo ao Espírito Introdução da Obra No livro Esmurrando o Corpo , Watchman Nee parte das palavras do apóstolo Paulo em 1 Coríntios 9:27 para tratar de um tema frequentemente negligenciado na vida cristã: a disciplina espiritual. Desde a introdução, o autor deixa claro que a vida cristã não é guiada por sentimentos, impulsos ou desejos naturais, mas pelo governo do Espírito Santo. Nee não defende ascetismo extremo nem desprezo pelo corpo. Pelo contrário, ele ensina que o corpo é um instrumento criado por Deus, mas que precisa ser disciplinado para não se tornar senhor da vida espiritual. O livro nasce da preocupação pastoral do autor ao observar cristãos sinceros que fracassavam não por falta de fé, mas por ausência de domínio próprio. Estrutura da Obra 📘 Formato: c...

Eu amo animais, e você?

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Sempre gostei de animais. Desde muito cedo, conviver com cachorros fez parte da minha vida — e não apenas com um. Hoje, tenho quatro. Minhas cachorras fazem parte da minha rotina, despertam meu cuidado, meu afeto e minha responsabilidade. Eu as amo. Não tenho vergonha de dizer isso. Mas amar não significa confundir. Aprendi, ao longo do tempo, a amar respeitando os limites da criação — os meus e os delas. Respeito a mim mesma enquanto ser humano, com emoções, consciência, palavra e responsabilidade moral. E respeito a elas como animais, criaturas que merecem cuidado, zelo e proteção, mas que não carregam o peso nem a vocação da humanidade. Talvez seja justamente por amar os animais que eu me recuso a usá-los como instrumento para rebaixar pessoas. E talvez seja por valorizar o ser humano que me esforço para não projetar nos animais aquilo que pertence às relações humanas. Há uma ordem sábia nisso. Quando cada coisa ocupa o seu lugar, o afeto se torna saudável, a convivência se torna j...

Fidelidade que sustenta o chamado

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Vivemos tempos em que muitos confundem sucesso com velocidade, e crescimento com exposição. No entanto, a Escritura nos lembra que o verdadeiro avanço espiritual acontece na permanência . Paulo exorta Timóteo a permanecer naquilo que aprendeu, reconhecendo que a solidez da fé nasce da fidelidade aos fundamentos recebidos. Ao longo da história bíblica, Deus sempre formou líderes no processo , não na pressa. Timóteo cresceu sob a mentoria de Paulo, aprendendo não apenas doutrina, mas caráter, postura e perseverança. Da mesma forma, José, no Egito, não foi promovido por talento isolado, mas por sua capacidade de ouvir a Deus, interpretar os sonhos corretamente e servir com humildade mesmo em ambientes adversos. A fidelidade, na Bíblia, nunca é passiva. Ela exige sensibilidade espiritual, disposição para aprender, coragem para fugir do pecado e maturidade para caminhar em equipe. Homens e mulheres de Deus não se constroem sozinhos. Eles são forjados em relacionamentos, correções, obediên...

O Nome que Habita o Texto: YHWH, o Mistério Santo da Presença de Deu

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 Lemos “Deus” ou “Senhor” nas Bíblias em português e inglês, e isso nos parece suficiente. Contudo, ao retornarmos ao texto hebraico — como sempre fizeram os antigos — percebemos algo mais profundo e reverente: o Deus de Israel se dá a conhecer, antes de tudo, por um Nome pessoal . Esse Nome é YHWH , o mais frequente de toda a Escritura, aparecendo mais de 6.800 vezes no texto hebraico. Não se trata de um detalhe técnico. Trata-se do coração da fé bíblica, transmitida com zelo de geração em geração. Um Deus de Muitos Nomes, Mas Um Nome Central A Bíblia Hebraica jamais fala de Deus de forma genérica. Ela preserva uma riqueza de nomes e títulos , cada um revelando um aspecto do caráter divino: Elohim (o Deus poderoso), Adonai (o Senhor soberano), El (o Deus forte), El Ro’i (“o Deus que vê”). Ainda assim, YHWH permanece central. Ele não é apenas um título; é Nome de aliança , pronunciado nos encontros entre Deus e seu povo. Esse Nome não descreve Deus — Ele o revela . O Nome Sep...

A Trindade na Elaboração da Bíblia

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  Afirmar que Deus é o autor da Bíblia e que Jesus Cristo é o seu assunto principal é essencial — mas ainda não é completo. Precisamos acrescentar uma verdade igualmente fundamental: o Espírito Santo é o agente da revelação . Sem Ele, a Escritura não teria sido dada; e sem Ele, tampouco pode ser verdadeiramente compreendida. Por isso, a compreensão cristã da Bíblia é, em sua essência, trinitária . A Bíblia vem do Pai, pois nasce de Sua vontade soberana. Ela é centrada no Filho, pois todo o seu conteúdo converge para a pessoa e a obra de Cristo. E ela é inspirada pelo Espírito Santo, que moveu os autores humanos a escreverem aquilo que Deus quis comunicar. Não se trata de três atos separados, mas de uma única obra divina realizada em perfeita harmonia. Assim, a melhor definição da Bíblia também precisa refletir essa realidade: a Bíblia é o testemunho do Pai sobre o Filho, por meio do Espírito Santo. Essa definição preserva a fé da Igreja como sempre foi ensinada. Ela impede que ...