Autoria da Bíblia; Homens e Deus
A dupla autoria da Bíblia molda profundamente a maneira como nos aproximamos das Escrituras.
Desde os tempos antigos, o povo de Deus aprendeu a segurar o texto sagrado com duas mãos: uma que investiga com zelo e outra que se rende com reverência.
Por um lado, a Bíblia é palavra de homens. Foi escrita em contextos históricos reais, por autores que viveram em culturas específicas, falaram idiomas concretos e usaram gêneros literários reconhecíveis. Por isso, somos chamados a estudá-la com seriedade intelectual: observar suas palavras, comparar traduções, considerar o tempo, o lugar, a intenção do autor, a forma literária. Esse caminho não diminui a fé; ao contrário, honra o Deus que se revelou na história e escolheu falar por meio dela. Assim sempre foi feito pelos mestres do passado, que amavam a Lei e meditavam nela dia e noite.
Por outro lado — e aqui está o coração da fé — a Bíblia é também a Palavra de Deus. Não se trata apenas de um texto antigo, mas de uma voz viva. Por isso, ela não pode ser lida como qualquer outro livro. Diante dela, não basta apenas a mente desperta; é necessário o coração quebrantado. Lê-se a Escritura com os joelhos no chão, em atitude de humildade, reconhecendo que há limites no nosso entendimento humano. Sem a ação do Espírito Santo, o texto pode ser analisado, mas não discernido; pode ser explicado, mas não transformador.
Essa tensão santa entre estudo e devoção não é um problema a ser resolvido, mas um caminho a ser trilhado. A tradição da fé sempre nos ensinou que a verdadeira compreensão nasce quando razão e reverência caminham juntas. Investigamos com diligência, mas dependemos da graça. Perguntamos, pesquisamos, comparamos — e ao mesmo tempo oramos, clamamos e esperamos.
Ler a Bíblia assim nos preserva de dois extremos perigosos: o intelectualismo frio, que conhece o texto, mas não o Deus do texto; e o misticismo superficial, que invoca o Espírito, mas despreza o esforço honesto de compreender o que foi escrito. O caminho antigo é mais seguro: mente iluminada, coração rendido e espírito sensível.
Quando nos aproximamos das Escrituras dessa forma, elas deixam de ser apenas um objeto de estudo e se tornam um lugar de encontro. E é nesse encontro — silencioso, reverente e profundo — que Deus continua falando ao seu povo, como sempre falou.
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