Do Cristo Crucificado à Plena Maturidade Espiritual
Primeiro, essa sabedoria é comunicada aos maduros, não aos não cristãos nem àqueles que ainda estão nos primeiros passos da fé. Paulo não está criando uma elite espiritual, mas reconhecendo um princípio antigo e pastoral: há verdades que exigem crescimento, discernimento e tempo. A fé começa com o anúncio simples do evangelho, mas não termina ali. Assim como uma criança não assimila alimento sólido, o cristão imaturo ainda não está pronto para compreender plenamente os desígnios mais profundos de Deus.
Segundo, trata-se de sabedoria de Deus, não da sabedoria deste mundo. Ela não nasce da observação humana, da filosofia ou do poder político. É uma sabedoria que contraria expectativas, confronta o orgulho humano e desmonta os critérios terrenos de sucesso e poder. Por isso, é invisível aos olhos naturais. O mundo pode até tolerar a religião, mas tropeça na revelação divina, porque ela expõe a insuficiência da razão autônoma.
Terceiro, essa sabedoria visa à nossa glorificação, isto é, à perfeição final do povo de Deus, quando participará da glória divina. Ela não se limita ao anúncio da justificação em Cristo — essencial e inegociável —, mas aponta para todo o propósito redentor de Deus, que culmina na transformação plena do ser humano. O evangelho não apenas nos salva do pecado; ele nos conduz à conformidade com a glória de Deus.
Aqui, Paulo nos oferece um modelo pastoral que precisa ser recuperado. Ao evangelizar não cristãos, devemos concentrar-nos naquilo que ele mesmo chamou de a “loucura” do evangelho: Cristo crucificado para pecadores. Esse é o centro, o ponto de entrada, a mensagem que confronta e salva. Não é o momento de discursos sofisticados ou sistemas complexos.
Entretanto, ao cuidar daqueles que já creem, o objetivo deve ser outro: conduzi-los à maturidade, ao entendimento progressivo do propósito completo de Deus. No versículo 7, Paulo chama esse propósito de o mistério de Deus “que estava oculto”; no versículo 9, de “o que Deus preparou para aqueles que o amam”. Esse mistério não é fruto de especulação, mas de revelação. Ele só pode ser conhecido porque Deus decidiu torná-lo conhecido.
Os “poderosos desta era” — líderes políticos, religiosos e intelectuais — não compreenderam esse mistério. Se o tivessem compreendido, jamais teriam crucificado “o Senhor da glória” (v. 8). Mas eles não foram uma exceção. Paulo deixa claro que todos os seres humanos, quando deixados à própria sorte, permanecem cegos à sabedoria e ao propósito de Deus.
Essa constatação nos mantém humildes e dependentes. O conhecimento espiritual não é conquistado; é concedido. E é exatamente por isso que a fé cristã sempre caminhou nesse trilho seguro: anúncio simples para os que chegam, ensino profundo para os que crescem, e total dependência da revelação divina em todas as etapas. É assim que a igreja permanece fiel, madura e firmada no propósito eterno de Deus.
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