Queremos o Deus do Poder, mas Negamos o Deus da Fornalha?

 

Há perguntas que não surgem da curiosidade, mas da dor. Esta é uma delas. Ela brota quando percebemos que nosso coração, tão facilmente enganado, deseja apenas o lado confortável da fé — e rejeita o lado que nos molda.
Vivemos um tempo em que muitos querem o Deus que abre portas, mas não o Deus que permite o vale. Queremos o Deus que dá livramentos espetaculares, mas não o Deus que nos leva à fornalha da provação a fim de purificar o que precisa morrer em nós.

Essa busca seletiva revela um problema antigo: criamos um Deus à nossa medida. Um Deus para resolver, não para reger. Um Deus para nos tirar de situações difíceis, não para caminhar conosco dentro delas.

1. A fé bíblica nunca prometeu isenção da fornalha

Quando abrimos as páginas da Escritura, não encontramos um povo que foi poupado da dor, mas um povo sustentado na dor.
Abraão enfrentou o monte Moriá. José enfrentou a masmorra. Daniel enfrentou a cova. Elias enfrentou o deserto. Paulo enfrentou o espinho.
Nenhum deles foi poupado — todos foram fortalecidos.

Sadraque, Mesaque e Abede-Nego conheciam o Deus que livra. Mas também conheciam o Deus que permite a fornalha. Por isso disseram:

“O nosso Deus pode nos livrar... mas, se não, ainda assim não nos curvaremos” (Dn 3:17–18).

Essa expressão — “mas, se não” — separa crentes de admiradores.
É a linha que divide quem conhece a Deus de quem apenas usa Deus.

2. A fornalha não é falha: é formação

A fé moderna nos acostumou a pedir atalhos, não amadurecimento.
Mas a fé histórica, a fé dos santos antigos, nos lembra que:

  • a fornalha remove o que nos aprisiona, não o que Deus plantou;

  • a fornalha revela quem Deus é, não quem nós imaginamos;

  • a fornalha destrói as amarras, não a esperança.

No texto de Daniel, é dentro da fornalha — não fora dela — que surge a figura semelhante a um “filho de Deus”.
A presença divina se manifesta quando o calor é extremo, não quando o cenário é confortável.
A chama que deveria destruir se torna o ambiente que liberta.

A tradição cristã sempre soube disso: não há santificação sem fogo; não há maturidade sem prova; não há testemunho sem renúncia.

3. O perigo de querer apenas o Deus do espetáculo

Quando buscamos apenas o Deus dos milagres, transformamos fé em consumo espiritual.
Queremos:

  • respostas rápidas, não raízes profundas;

  • soluções imediatas, não transformação interior;

  • vitórias públicas, não vencimentos íntimos de pecados;

  • experiências emocionais, não obediência persistente.

Isso gera crentes instáveis, que amam a mão de Deus mas não o caráter de Deus.

Mas o cristianismo genuíno sempre valorizou o caminho antigo da confiança — mesmo quando não há livramento imediato. A fé dos nossos antepassados não se apoiava em “sentir”, mas em permanecer.

4. A fornalha é onde descobrimos que Ele é suficiente

Quando Deus não nos livra da prova, Ele nos livra na prova.
Quando Ele não impede o fogo, Ele impede que ele nos destrua.
O que se queima na fornalha não é o servo fiel — são as cordas que o prendiam.

E isto revela algo precioso:
A fé amadurecida prefere a companhia de Cristo na fornalha ao conforto longe dEle.

A pergunta que precisa ser feita hoje é:
Queremos o Deus da santidade ou apenas o Deus dos benefícios?
Queremos o Deus que molda ou o Deus que facilita?
Queremos o Deus da cruz ou apenas o Deus das vitórias visíveis?

Conclusão: A fé verdadeira não negocia o fogo

Quando buscamos somente o Deus do poder, negamos metade do Evangelho.
Porque o Cristo que ressuscita é o mesmo Cristo que passa pelo Gólgota.
A glória só vem depois da cruz. A vitória só vem depois da entrega.
A fornalha não é castigo — é câmara de lapidação.

O cristianismo sólido, aquele que sustentou gerações, sempre declarou:
É melhor estar no fogo com Cristo do que fora dele sem Sua presença.

Que o nosso coração se renda ao Deus completo — o que pode nos livrar e o que pode nos levar ao fogo.
E, sobretudo, ao Deus que permanece. Sempre.

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