Purim: o Rei invisível e os filhos de Hamã


A festa de Purim ocupa um lugar singular na tradição judaica. Celebrada no dia 14 de Adar — que em 2026 ocorre na terça-feira, 3 de março, iniciando-se ao pôr do sol da segunda-feira — Purim recorda a reversão de um decreto de morte e a preservação do povo judeu em um tempo de exílio e vulnerabilidade. A leitura anual da Meguilá não é apenas memória histórica; é uma escola teológica construída com sobriedade, precisão e profunda reverência pelo agir de Deus na história.

No centro dessa narrativa está o Livro de Ester, um texto único nas Escrituras Hebraicas. Diferente de outros livros, ele não menciona explicitamente o nome de Deus. Essa ausência não indica silêncio divino, mas revela um modo específico de governo: Deus reina de forma oculta, conduzindo os acontecimentos sem se impor visivelmente. A tradição judaica chama esse princípio de hester panim, o ocultamento do rosto.

Um dos elementos mais fortes da Meguilá é o destino de Hamã e de seus dez filhos. Hamã é apresentado como descendente de Amaleque, inimigo arquetípico de Israel. Quando o texto relata que seus dez filhos foram enforcados, não está apenas narrando um fato histórico, mas comunicando um princípio antigo: o mal que ameaça a existência do povo não é tratado de forma parcial. O número dez, na tradição bíblica, expressa totalidade e fechamento. O juízo é completo. Nada fica pendente.

A própria escrita hebraica da Meguilá reforça essa mensagem. Na tradição massorética, os nomes dos dez filhos de Hamã aparecem com uma grafia incomum: três letras são escritas em tamanho menor e uma letra em tamanho maior. Pela gematria tradicional, as letras menores somam 707, e a letra maior corresponde ao número 6. Juntas, formam o ano hebraico 5707, equivalente ao ano civil de 1946.

Em 1946, após os Julgamentos de Nuremberg, dez oficiais nazistas foram enforcados por crimes contra a humanidade. A tradição judaica não trata essa correspondência como curiosidade mística ou numerologia sensacionalista, mas como um eco histórico. O mesmo padrão se manifesta: o espírito de Hamã reaparece em diferentes épocas, com novas linguagens e ideologias, mas o desfecho permanece o mesmo. A história não é caótica; ela responde a um governo superior, mesmo quando esse governo não é imediatamente visível.

Esse entendimento se aprofunda quando observamos a distinção entre o Rei divino e o rei humano na Meguilá. Quando o texto menciona explicitamente Rei Assuero, está falando do poder terreno. Assuero é descrito como um governante instável, influenciável, dependente de conselheiros e circunstâncias. Seus decretos mudam conforme interesses e emoções. Ele representa a autoridade visível, ruidosa e, no fim, frágil.

Por outro lado, em diversas passagens, o texto se refere apenas a “o Rei”, sem nome próprio. A tradição judaica clássica reconhece aqui uma leitura dupla. No nível literal, trata-se do rei persa. No nível profundo, o verdadeiro Rei é Deus. O Rei que não dorme, o Rei que lembra, o Rei que conduz a leitura das crônicas no momento exato. Esse Rei invisível não assina decretos, mas governa o tempo, a memória e os encontros decisivos.

Purim, portanto, ensina uma teologia amadurecida pelo exílio. O povo aprende a discernir entre autoridade visível e soberania real. Aprende que o nome de Deus pode não aparecer no texto, mas Sua mão continua firme na história. Aprende também que o mal pode se organizar, planejar e parecer triunfar por um tempo, mas não controla o fim da narrativa.

Celebrar Purim é reafirmar uma convicção antiga: o verdadeiro Rei nunca perdeu o governo do mundo. Mesmo oculto, Ele continua fiel. Mesmo silencioso, Ele continua justo. E geração após geração, a Meguilá de Ester continua ensinando que a história caminha segundo padrões que revelam a soberania de Deus e a preservação do Seu povo.

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