Ligar e Desligar: Autoridade Espiritual no Contexto Judaico do Primeiro Século
No Evangelho de Mateus encontramos uma das declarações mais conhecidas de Jesus dirigidas ao apóstolo Pedro (Apóstolo):
“Eu te darei as chaves do Reino dos Céus; o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus.”
(Mateus 16:19)
Durante muito tempo, especialmente em interpretações modernas, essas palavras foram entendidas como uma referência direta à batalha espiritual, ou ao ato de “amarrar” o diabo através da oração. Entretanto, quando voltamos ao ambiente judaico do primeiro século, percebemos que Jesus estava usando uma linguagem técnica bem conhecida entre os mestres da Lei.
Para compreender corretamente o ensinamento de Jesus, precisamos olhar para o mundo judaico em que Ele viveu e ensinou.
O significado técnico de “ligar” e “desligar”
No judaísmo do período do Segundo Templo, as expressões hebraicas equivalentes a “ligar” (asar) e “desligar” (hittir) eram termos usados pelos rabinos em decisões legais e religiosas.
Essas expressões tinham significados claros:
Ligar (bind)
significava declarar algo proibido, restringido ou não permitido segundo a interpretação da Lei.
Desligar (loose)
significava declarar algo permitido, liberado ou autorizado.
Essas decisões eram chamadas de decisões haláchicas (relacionadas à Halachá, ou seja, a forma prática de viver a Lei de Deus).
Assim, quando um mestre interpretava a Torá e dizia que determinada prática era proibida, ele estava “ligando” aquela prática.
Quando dizia que algo era permitido, ele estava “desligando”.
O testemunho histórico de Flávio Josefo
Essa terminologia não aparece apenas na literatura rabínica. O historiador judeu do primeiro século Flávio Josefo também utiliza essa expressão.
Ao descrever o período da rainha Salomé Alexandra, ele afirma que os fariseus receberam autoridade administrativa e religiosa sobre a nação.
Segundo Josefo, eles tinham poder:
“para banir ou readmitir quem quisessem, assim como para ligar e desligar.”
Nesse contexto, fica claro que a expressão se refere à autoridade de governar, decidir e estabelecer normas dentro da comunidade judaica.
Não havia qualquer relação com demônios ou com a ideia de prender forças espirituais.
A autoridade dada aos discípulos
Quando Jesus usa essa linguagem, Ele está inserindo seus discípulos dentro desse mesmo modelo de autoridade espiritual.
Isso significa que os discípulos receberiam a responsabilidade de:
orientar a comunidade
ensinar corretamente a vontade de Deus
tomar decisões morais e disciplinares
interpretar os ensinamentos de Jesus para a vida da igreja
Mais adiante, no próprio Evangelho de Mateus, Jesus amplia essa autoridade para a comunidade dos discípulos:
“Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu.”
(Mateus 18:18)
Nesse contexto, o assunto tratado é disciplina e reconciliação dentro da comunidade, o que confirma novamente que Jesus está falando de autoridade pastoral e comunitária.
As “chaves do Reino”
Jesus também menciona algo extremamente significativo: as chaves do Reino dos Céus.
Na cultura bíblica, possuir a chave simbolizava autoridade administrativa e responsabilidade de governo.
Um exemplo claro aparece em Livro de Isaías 22:22, onde é dito sobre Eliakim:
“Porei sobre o seu ombro a chave da casa de Davi; ele abrirá, e ninguém fechará; fechará, e ninguém abrirá.”
Aqui, a chave representa autoridade delegada pelo rei.
Da mesma forma, Jesus — o Messias — delega autoridade aos seus discípulos para administrar a comunidade do Reino de Deus na terra.
A relação com a tradição rabínica
Nos círculos rabínicos, diferentes escolas interpretavam a Lei de maneiras distintas.
Por exemplo:
a escola de Hillel era conhecida por interpretações mais flexíveis
a escola de Shammai era conhecida por interpretações mais rigorosas
Cada escola “ligava” ou “desligava” certas práticas conforme sua interpretação da Lei.
Quando Jesus entrega essa autoridade aos discípulos, Ele está formando uma nova comunidade interpretativa, baseada não apenas na Torá, mas também na autoridade do próprio Messias.
O papel da comunidade
No ensino de Jesus, essa autoridade não é arbitrária nem autoritária.
Ela está sempre ligada a:
fidelidade às Escrituras
busca pela justiça
restauração do pecador
edificação da comunidade
Em outras palavras, ligar e desligar não é dominar pessoas, mas servir a comunidade com sabedoria e discernimento espiritual.
A importância de ler a Bíblia em seu contexto
A Bíblia foi escrita dentro de um mundo específico — o mundo judaico do antigo Israel e do período do Segundo Templo.
Quando compreendemos esse contexto:
expressões antes misteriosas tornam-se claras
ensinamentos ganham profundidade
percebemos melhor a continuidade entre Jesus e a tradição de Israel
As palavras de Jesus não surgem isoladas. Elas fazem parte de uma longa tradição de ensino, interpretação e fidelidade à Palavra de Deus.
E quando voltamos às raízes hebraicas das Escrituras, descobrimos que muitas expressões bíblicas são, na verdade, janelas para compreender mais profundamente o Reino de Deus e a missão da comunidade de fé.
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