A interpretação da criação ao longo dos séculos
A interpretação bíblica da criação mudou bastante ao longo dos séculos, não porque o texto bíblico tenha mudado, mas porque mudaram as perguntas que as pessoas faziam ao texto, os contextos culturais, as descobertas científicas e também as próprias tradições teológicas. Há ainda uma segunda dimensão muito rica: a maneira como uma pessoa compreende a criação pode se transformar nas diferentes fases da vida. Uma criança, um jovem, um adulto e uma pessoa idosa podem ler os mesmos textos de Gênesis, mas enxergar neles questões muito diferentes.
1. A criação no mundo antigo: Deus como Criador e o mundo como criatura
No contexto do Antigo Oriente Próximo, os relatos de criação não eram lidos isoladamente. Israel vivia em um mundo no qual povos vizinhos possuíam mitos sobre a origem do cosmos, geralmente envolvendo vários deuses, guerras entre divindades e a formação do mundo a partir de elementos divinos.
Gênesis 1 apresenta uma ruptura profunda com esse ambiente. O universo não é Deus, o sol não é uma divindade, o mar não é uma força divina rival e os seres humanos não são escravos criados para alimentar os deuses.
“No princípio, Deus criou os céus e a terra.”
Gênesis 1:1
A criação é apresentada como resultado da ação soberana de um único Deus. A expressão hebraica בָּרָא (bārāʾ), “criar”, quando tem Deus como sujeito, enfatiza a ação criadora divina.
Nesse primeiro horizonte, a grande questão não era: “Quanto tempo levou a criação?” A pergunta principal era: “Quem criou o mundo e qual é o lugar do ser humano nele?”
2. Judaísmo do período do Segundo Templo
Entre aproximadamente os séculos V a.C. e I d.C., surgiram diferentes maneiras judaicas de compreender a criação.
Alguns grupos enfatizavam uma leitura mais próxima da sequência narrativa de Gênesis. Outros desenvolveram interpretações filosóficas e simbólicas.
Um exemplo extraordinário é Fílon de Alexandria, no século I a.C./I d.C., que procurou interpretar Gênesis à luz da filosofia grega, especialmente do platonismo. Para ele, determinados elementos do relato podiam ser compreendidos de maneira filosófica e não simplesmente como uma descrição cronológica dos acontecimentos.
Isso é importante porque mostra que a tensão entre leitura literal e leitura simbólica não começou com Darwin.
Ela é muito mais antiga.
3. Os primeiros séculos do cristianismo
Nos primeiros séculos da Igreja encontramos uma diversidade ainda maior.
Alguns cristãos defendiam uma interpretação mais literal dos seis dias. Outros entendiam os “dias” de maneira simbólica.
Orígenes, por exemplo, argumentava que certas características de Gênesis não deveriam ser interpretadas de maneira materialista ou cronológica. Agostinho de Hipona, no século IV-V, foi ainda mais interessante nesse aspecto.
Agostinho não defendia simplesmente a ideia de que Deus criou o mundo em seis períodos cronológicos sucessivos como muitas pessoas imaginam hoje. Em sua obra De Genesi ad Litteram, ele refletiu profundamente sobre a criação e chegou a considerar que Deus poderia ter criado tudo simultaneamente, sendo a sequência dos seis dias uma maneira de apresentar a realidade ao leitor.
Isso significa que a famosa oposição:
“cristãos antigos = literalistas”
“cristãos modernos = simbólicos”
é historicamente simplista.
A tradição cristã sempre apresentou múltiplas maneiras de interpretar Gênesis.
4. A Idade Média: criação como ordem
Durante a Idade Média, a questão da criação passou a ser fortemente integrada à visão cristã do cosmos.
A criação era entendida como uma realidade ordenada, hierárquica e providencial.
Deus era o Criador, o mundo era sua obra e todas as criaturas possuíam um lugar dentro de uma ordem maior.
A teologia medieval não separava radicalmente:
criação → natureza → humanidade → propósito → Deus.
Tudo fazia parte de uma mesma estrutura.
Em Tomás de Aquino, por exemplo, encontramos uma reflexão sofisticada sobre a relação entre criação, causalidade, natureza e providência.
A natureza não era vista necessariamente como concorrente de Deus.
Deus era a causa primeira; as criaturas podiam ser causas secundárias.
Essa distinção posteriormente se tornaria extremamente importante para a relação entre fé e ciência.
5. Reforma Protestante: retorno ao texto
Com a Reforma, especialmente nos séculos XVI e XVII, houve uma valorização muito grande da Escritura.
A pergunta passou a ser cada vez mais:
“O que o texto realmente diz?”
Isso fortaleceu leituras mais próximas da literalidade de Gênesis em determinados círculos protestantes.
Entretanto, mesmo nesse período, não existia uma única interpretação universal.
A criação continuava sendo discutida dentro de diferentes tradições de interpretação.
6. A revolução científica
Aqui acontece uma mudança decisiva.
Com Nicolau Copérnico, Galileu Galilei, Isaac Newton e outros, o ser humano começou a compreender a natureza de maneira diferente.
A pergunta deixou de ser apenas:
“O que a criação significa?”
e passou também a ser:
“Como a criação funciona?”
Isso produziu uma diferenciação progressiva entre duas perguntas:
Teologia: Quem criou? Por quê? Qual é o propósito?
Ciência: Como o universo funciona? Quais processos ocorreram?
Essa distinção é fundamental.
7. Darwin e a grande ruptura
No século XIX, Charles Darwin provocou uma transformação profunda com a teoria da evolução por seleção natural.
A questão deixou de ser apenas a idade da Terra.
Agora surgia uma pergunta muito mais perturbadora:
Se as espécies podem surgir e se modificar por processos naturais, qual é o papel de Deus na criação?
A partir daí, o cristianismo desenvolveu várias respostas.
1. Criacionismo de Terra Jovem
Defende uma leitura cronológica de Gênesis segundo a qual a Terra teria alguns milhares de anos.
2. Criacionismo de Terra Antiga
Aceita uma Terra muito antiga, mas mantém uma ação criadora divina específica.
3. Teoria do Design Inteligente
Procura identificar características do universo e da vida que seriam melhor explicadas por uma inteligência.
4. Evolução teísta
Aceita a evolução como processo natural, entendendo-a dentro da providência divina.
5. Criação como narrativa teológica
Entende Gênesis principalmente como uma afirmação teológica sobre Deus, humanidade, pecado, ordem, vocação e criação, sem pretender oferecer uma descrição científica moderna da origem do cosmos.
8. Século XX: criação como teologia da vocação humana
Durante o século XX, muitos estudiosos começaram a enfatizar algo que às vezes se perde na discussão sobre “seis dias”:
Gênesis não está interessado somente em explicar como o universo começou.
Ele está interessado em explicar:
quem Deus é, quem somos nós e qual é nossa responsabilidade dentro da criação.
Gênesis 1:26-28 coloca o ser humano como portador da imagem de Deus — צֶלֶם אֱלֹהִים (tselem ʾelohim).
Assim, a criação passa a ser estudada também através de temas como:
- dignidade humana;
- responsabilidade ecológica;
- trabalho;
- sexualidade;
- família;
- cultura;
- governo;
- vocação;
- descanso;
- justiça;
- relação entre humanidade e natureza.
A criação deixa de ser somente uma questão de origens e passa a ser também uma questão de identidade e missão.
9. A criação no pensamento contemporâneo
Hoje encontramos uma pluralidade ainda maior.
A discussão contemporânea frequentemente procura superar a falsa dicotomia:
“ou Bíblia ou ciência”.
Uma pergunta mais sofisticada é:
“Que tipo de afirmação Gênesis está fazendo?”
Um texto pode ser verdadeiro sem funcionar como um tratado científico moderno.
Por exemplo, quando Gênesis afirma que o ser humano foi criado à imagem de Deus, não está fornecendo uma explicação bioquímica sobre o surgimento da espécie humana.
Está fazendo uma afirmação ontológica e teológica:
O ser humano possui uma dignidade que deriva de seu relacionamento com o Criador.
Essa leitura permite que criação seja simultaneamente uma doutrina sobre origem, significado, identidade e destino.
10. E aqui entra algo ainda mais interessante: as fases da vida
A compreensão da criação também pode mudar profundamente ao longo da existência humana.
Infância: “Deus fez tudo”
Para a criança, criação significa principalmente segurança e maravilhamento.
“Deus criou o céu, os animais, as plantas, eu e minha família.”
A criação responde à pergunta:
“De onde veio tudo?”
É uma teologia da confiança.
Adolescência: “Onde eu me encaixo?”
Na adolescência, a questão muda.
O jovem começa a perguntar:
“Quem sou eu?”
“Por que sou diferente?”
“Qual é meu propósito?”
A criação passa a dialogar com identidade e pertencimento.
Gênesis 1:27 ganha uma dimensão muito mais profunda:
“Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.”
A doutrina da criação passa a responder à crise da identidade.
Juventude: “O que vou fazer com minha vida?”
Na vida adulta jovem, a criação passa a se relacionar com vocação.
A pergunta deixa de ser apenas:
“Quem sou?”
e se transforma em:
“Para que fui criado?”
Trabalho, casamento, família, profissão, ministério, criatividade e responsabilidade passam a ser compreendidos dentro da ideia de vocação.
Maturidade: “O que estou construindo?”
Na maturidade, a criação pode ser compreendida através da responsabilidade.
A pessoa começa a perceber que não está apenas recebendo uma vida.
Está construindo algo que será deixado para outros.
A criação passa então a dialogar com:
legado, família, gerações, trabalho, discipulado e transmissão de valores.
É interessante observar que Gênesis termina apresentando não somente a origem do mundo, mas também uma humanidade chamada a cultivar e guardar.
Velhice: “O que permanece?”
Na velhice, a doutrina da criação pode adquirir uma profundidade completamente diferente.
A pessoa começa a perceber seus próprios limites.
O corpo muda.
As forças diminuem.
Pessoas importantes partem.
A vida passa.
E surge uma pergunta que não era tão urgente anteriormente:
“O que permanece quando minha própria vida está chegando ao fim?”
Aqui a criação precisa ser lida juntamente com a nova criação.
Paulo escreve:
“Assim também é a ressurreição dos mortos.”
1 Coríntios 15:42
E Apocalipse termina não com o desaparecimento da criação, mas com a visão de “novo céu e nova terra” (Apocalipse 21:1).
Assim, a Bíblia apresenta uma espécie de grande arco:
Criação → Queda → Redenção → Nova Criação.
11. A grande transformação da interpretação
Se colocarmos tudo em perspectiva, podemos visualizar uma trajetória muito interessante:
| Período | Pergunta predominante |
|---|---|
| Antigo Israel | Quem criou? |
| Judaísmo antigo | Como compreender a criação diante das outras cosmologias? |
| Igreja antiga | Como interpretar Gênesis? |
| Idade Média | Como Deus sustenta a ordem criada? |
| Reforma | O que realmente diz a Escritura? |
| Revolução científica | Como funciona a natureza? |
| Darwin | Como relacionar evolução e criação? |
| Século XX | Qual é o significado teológico da criação? |
| Século XXI | Como criação, ciência, humanidade e responsabilidade se relacionam? |
E, paralelamente, na existência individual:
Infância → origem
Adolescência → identidade
Juventude → propósito
Maturidade → responsabilidade
Velhice → legado
Eternidade → nova criação
Essa perspectiva permite uma leitura muito mais rica de Gênesis. A criação deixa de ser apenas uma discussão sobre “quanto tempo Deus levou para criar o mundo” e volta a ocupar seu lugar dentro da grande narrativa bíblica.
A pergunta mais profunda talvez não seja simplesmente “Como Deus criou?”, mas:
“O que significa viver como criatura diante do Criador?”
E essa pergunta acompanha o ser humano do primeiro dia da vida até a esperança da nova criação.
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