Da Ressurreição a uma Vida de Entrega

 A ressurreição de Jesus não pode ser reduzida ao acontecimento extraordinário de uma manhã de domingo. Ela é o centro da fé cristã e inaugura uma nova realidade para aqueles que estão em Cristo. O túmulo vazio não anuncia apenas que Jesus voltou à vida; anuncia que a morte foi vencida, que a obra da redenção foi consumada e que aqueles que pertencem a Cristo são chamados a viver uma nova vida.

João 20 nos conduz a um jardim. Maria Madalena chega ao sepulcro ainda escuro e encontra a pedra removida. Ela não compreende imediatamente o que aconteceu. Ao ver Jesus, não o reconhece e pensa estar diante do jardineiro. Então Jesus pronuncia uma única palavra: “Maria!” (João 20:16, NVI). Ao ouvir seu nome, ela reconhece o Ressuscitado.

Essa cena possui uma profundidade que vai além da emoção do encontro. O primeiro grande drama da humanidade também aconteceu em um jardim. No Éden, a desobediência rompeu a comunhão entre Deus e o ser humano. No jardim da ressurreição, o Cristo vitorioso se apresenta como aquele que inaugura a restauração.

Paulo desenvolve essa compreensão ao apresentar Cristo como o “último Adão” (1 Coríntios 15:45, NVI). O primeiro Adão está associado à entrada do pecado e da morte; Cristo, o último Adão, inaugura a vida. Aquilo que foi desfigurado pela queda começa a ser restaurado na obra do Redentor.

Mas existe algo especialmente importante na narrativa de João. Maria não permanece apenas com a experiência de ter encontrado Jesus. O Ressuscitado a envia para anunciar aquilo que viu. O encontro produz missão.

Esse princípio continua válido para a vida cristã: a verdadeira experiência da ressurreição sempre produz uma resposta.

Não fomos alcançados pela graça para permanecer como espectadores daquilo que Cristo fez. A ressurreição nos chama para uma nova existência. Paulo afirma:

“Portanto, irmãos, rogo pelas misericórdias de Deus que se ofereçam em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto racional de vocês.” (Romanos 12:1, NVI)

A palavra “portanto” é fundamental. Paulo primeiro apresenta as misericórdias de Deus e, depois, apresenta a resposta humana. A entrega não compra a salvação; ela nasce da salvação recebida. Não nos oferecemos para convencer Deus a nos amar. Nós nos oferecemos porque, em Cristo, descobrimos que já fomos amados.

É aqui que a ressurreição nos conduz ao altar.

O altar, no contexto cristão, não é uma tentativa de repetir o sacrifício de Cristo. O sacrifício de Jesus foi único, perfeito e suficiente. O Novo Testamento não chama o cristão a acrescentar alguma coisa à cruz, mas a responder à cruz com a própria vida.

Por isso Paulo fala em “sacrifício vivo”. Aquele que foi alcançado pela morte e ressurreição de Cristo continua vivendo, mas já não vive como seu próprio senhor.

Paulo expressa isso de maneira profunda:

“Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim.” (Gálatas 2:20, NVI)

Uma vida de entrega não significa perder a personalidade, os sonhos ou a identidade. Significa submetê-los ao senhorio de Cristo. O altar não destrói aquilo que Deus deseja preservar; ele coloca cada coisa no seu devido lugar.

É possível receber uma bênção e transformar a bênção em um ídolo. É possível amar uma pessoa e colocá-la acima de Deus. É possível receber uma promessa e passar a viver mais para a promessa do que para o Prometedor.

Por isso, a pergunta do altar não é simplesmente: “O que existe de errado em minha vida?”

Às vezes a pergunta é mais profunda:

“O que existe de bom na minha vida que precisa continuar debaixo do governo de Deus?”

Abraão descobriu isso quando colocou Isaque sobre o altar. Isaque era o filho da promessa. Deus não estava simplesmente tratando de uma coisa que Abraão possuía; estava tratando do lugar que aquela coisa ocupava em seu coração.

Uma vida de altar é uma vida em que tudo permanece nas mãos de Deus: nossa história, nossa família, nossos sonhos, nossos relacionamentos, nosso futuro e até aquilo que mais amamos.

A ressurreição, portanto, não nos conduz de volta à antiga vida. Ela nos conduz a uma nova maneira de viver.

O Cristo que saiu do sepulcro é o mesmo Cristo que chama seus discípulos para segui-lo. E seguir Cristo significa aprender diariamente a negar a si mesmo, tomar a cruz e caminhar com Ele (Lucas 9:23, NVI).

O jardim da ressurreição nos mostra que Cristo venceu. O altar nos pergunta como responderemos à vitória de Cristo.

A cruz foi a entrega de Cristo por nós.

O altar é a nossa resposta a Ele.

E talvez essa seja a pergunta que precisamos levar conosco depois de contemplar o túmulo vazio:

O que ainda estou segurando que precisa ser colocado nas mãos do Ressuscitado?

Porque a ressurreição não apenas mudou o destino de Jesus.

Ela muda o destino de todos aqueles que, pela fé, decidem entregar a Ele a própria vida.

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