2. Vivendo o casamento debaixo do governo de Deus
AULA 2. DOIS REINOS, DUAS MENTALIDADES
Discernindo os valores que estão governando nossa casa
Na primeira aula, começamos a compreender que o Reino de
Deus não é simplesmente um lugar para onde iremos depois da morte. O Reino está
relacionado ao governo de Deus, à autoridade do Rei e à realidade que foi
inaugurada por Cristo. Quando essa verdade deixa de ser apenas um conceito
teológico e passa a alcançar nossa vida, somos conduzidas a uma pergunta
inevitável: se Cristo é Rei, quais valores estão governando a maneira como
pensamos, decidimos e nos relacionamos?
Essa pergunta se torna especialmente importante quando
pensamos no casamento. Nenhuma mulher chega ao matrimônio completamente vazia
de referências. Antes da aliança conjugal, já fomos formadas por nossa família,
nossa história, nossa cultura, nossas experiências, nossos relacionamentos e
pelas ideias que ouvimos repetidamente ao longo da vida. Algumas dessas
influências são facilmente identificadas, mas outras se tornam tão familiares
que passamos a considerá-las naturais. Muitas vezes, não percebemos que determinada
reação, expectativa ou comportamento foi aprendido e que, portanto, precisa ser
avaliado à luz da Palavra de Deus.
É possível amar sinceramente a Cristo e, ainda assim,
carregar dentro de si uma mentalidade que não pertence ao Reino. É possível
conhecer as Escrituras, frequentar a igreja, orar pela família e desejar
profundamente a restauração do casamento, mas continuar reagindo aos conflitos
a partir de padrões aprendidos em nossa história. É possível inclusive pedir
que Deus transforme o relacionamento enquanto, sem perceber, alimentamos
comportamentos que contribuem para sua deterioração.
Por isso, esta aula não pretende apenas explicar a diferença
entre duas palavras gregas utilizadas no Novo Testamento para falar de “mundo”.
A distinção entre kosmos e aion nos ajudará a compreender uma
questão muito mais ampla: existe uma diferença entre a criação de Deus e os
sistemas de pensamento construídos por uma humanidade afastada de Deus. Quando
essa compreensão chega ao casamento, somos levadas a examinar não apenas aquilo
que o nosso marido está fazendo, mas também aquilo que está formando nossa
própria maneira de pensar e reagir.
A DISTINÇÃO BÍBLICA DA PALAVRA “MUNDO”
No Novo Testamento, a palavra “mundo” pode traduzir
diferentes termos gregos. Entre eles, kosmos e aion possuem
importância especial para a compreensão do Reino de Deus. Em determinados
contextos, kosmos aponta para a criação, para a realidade que Deus fez.
João afirma: “O Verbo estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele,
mas o mundo não o conheceu” (João 1:10). Nesse texto, o termo utilizado é kosmos,
indicando a realidade criada por Deus.
É também nessa perspectiva que podemos compreender João
3:16, quando lemos que Deus amou o mundo de tal maneira que entregou o seu
Filho. A criação não é apresentada como algo que Deus despreza ou do qual
deseja simplesmente se livrar. Pelo contrário, o amor de Deus pelo mundo está
relacionado à obra redentora de Cristo. A criação pertence a Deus e está
incluída em seu propósito de redenção.
Entretanto, existem textos em que “mundo” traduz aion.
Nesse caso, a palavra não está apontando principalmente para a criação física,
mas para uma era, um tempo, um século ou o sistema que caracteriza determinada
época. Mateus 12:32 fala do presente mundo e do mundo vindouro, enquanto
Efésios 1:21 menciona o presente século e o vindouro.
Essa distinção esclarece uma afirmação de Jesus que poderia
ser mal compreendida quando retirada de seu contexto. Em João 15:19, Jesus diz
aos discípulos que eles não são do mundo e que, por isso, o mundo os odeia.
Evidentemente, Jesus não está afirmando que a criação física, os animais, as
árvores, os rios ou os elementos da natureza são inimigos dos seus discípulos.
A referência está relacionada ao sistema de pensamento e à realidade humana que
se opõe ao governo de Deus.
Essa compreensão é fundamental para a vida cristã. Não fomos
chamadas a rejeitar a criação de Deus, nem a fugir da vida cotidiana. Fomos
chamadas a discernir os valores que estão organizando essa realidade. O
problema não é simplesmente viver dentro de uma cultura. O problema acontece
quando a cultura entra em nós, começa a determinar nossas escolhas e passa a
governar nossa maneira de interpretar a vida sem que percebamos sua influência.
AION E A MENTALIDADE DE UMA ERA
O conceito de aion nos ajuda a perceber que cada
época possui determinadas estruturas de pensamento. Uma era não é formada
somente por acontecimentos históricos. Ela também possui valores, prioridades,
expectativas e critérios que influenciam a maneira como as pessoas compreendem
a realidade. Paulo afirma que “o deus desta era cegou o entendimento dos
descrentes” (2 Coríntios 4:4), relacionando a era presente a uma realidade
espiritual que se opõe à revelação de Deus.
Isso significa que precisamos aprender a discernir aquilo
que a cultura está ensinando antes de simplesmente reproduzi-lo. Muitas ideias
tornam-se tão comuns que deixam de ser questionadas. Passamos a considerar
determinadas atitudes normais simplesmente porque foram repetidas durante muito
tempo.
Esse processo também acontece dentro do casamento. Uma
pessoa pode aprender que gritar é uma maneira legítima de ser ouvida. Outra
pode aprender que, quando está magoada, deve punir o outro com silêncio. Outra
pode crescer acreditando que o marido precisa ser controlado para que as coisas
funcionem. Outra pode aprender que expor as falhas do cônjuge para familiares e
amigos é uma forma normal de buscar apoio. Outra pode entender que pedir perdão
significa reconhecer fraqueza. Outra pode acreditar que, quando o outro erra, é
legítimo fazê-lo sofrer até que reconheça sua culpa.
Quando essas atitudes são repetidas durante anos, elas podem
deixar de ser percebidas como problemas. Tornam-se parte da dinâmica do casal.
O que começou como uma reação pontual passa a ser um padrão. O padrão
transforma-se em hábito, e o hábito começa a definir o ambiente da casa.
É nesse momento que precisamos compreender o que significa
um casamento destrutivo. Nem sempre estamos diante de grandes acontecimentos.
Existem casamentos que vão sendo desgastados lentamente por pequenas atitudes
repetidas, por palavras que diminuem, por desconfiança constante, por
competição, por manipulação, por exposição e por uma incapacidade crescente de
lidar com as diferenças sem transformar o outro em adversário.
QUANDO A MENTALIDADE DA ERA PRESENTE ENTRA NO CASAMENTO
Um dos problemas mais difíceis de identificar é aquele que
se tornou normal. Quando determinada atitude é repetida por muitos anos,
podemos deixar de enxergar sua natureza destrutiva. É possível que uma esposa
diga constantemente ao marido que ele nunca faz nada direito e considere isso
apenas uma maneira de “fazê-lo melhorar”. Pode fazer comentários depreciativos
diante dos filhos e chamar aquilo de brincadeira. Pode comparar o marido com
outros homens e acreditar que está apenas mostrando aquilo que gostaria que ele
fosse. Pode utilizar informações pessoais que ele compartilhou em confiança
para vencê-lo durante uma discussão. Pode contar aos familiares todos os seus
erros e, quando questionada, responder que apenas precisava desabafar.
Cada uma dessas atitudes pode parecer pequena quando
observada isoladamente. O problema aparece quando elas se transformam em uma
cultura dentro da casa. Aos poucos, o marido deixa de sentir que existe
segurança na relação, a esposa passa a enxergar o marido através de uma lente
cada vez mais negativa e os dois começam a interpretar praticamente tudo o que
o outro faz à luz das experiências ruins anteriores.
O mesmo pode acontecer quando o silêncio é utilizado como
punição. Precisamos distinguir o silêncio necessário para interromper uma
discussão e recuperar o equilíbrio emocional do silêncio utilizado
deliberadamente para castigar, provocar insegurança ou obrigar o outro a ceder.
Em um caso, existe uma tentativa responsável de evitar que o conflito se torne
ainda pior. No outro, existe uma utilização da ausência de comunicação como
instrumento de controle.
Também precisamos olhar com cuidado para a maneira como os
filhos são envolvidos nos conflitos conjugais. Uma esposa pode procurar o filho
para contar o quanto está decepcionada com o pai, pode fazer comentários que
diminuem a imagem dele, pode utilizar a criança como mensageira ou pode buscar
nela a validação que deveria procurar em uma conversa adulta e responsável.
Talvez não exista a intenção consciente de destruir a relação entre pai e
filho, mas o efeito de repetidas exposições pode ser profundamente prejudicial.
Da mesma maneira, a utilização constante de familiares como
árbitros do casamento pode transformar um conflito conjugal em um problema
familiar muito maior. Quando cada discussão é contada para a mãe, para a irmã,
para uma amiga ou para pessoas da igreja, aquilo que deveria ser tratado com
discrição passa a envolver uma rede de pessoas que não conhecem toda a
história. Mesmo quando o casal se reconcilia posteriormente, as pessoas que
ouviram apenas um lado continuam carregando aquela percepção negativa.
Existe ainda a comparação constante. Quando uma mulher diz
repetidamente que outro marido é mais atencioso, mais espiritual, mais
organizado, mais trabalhador ou mais romântico, ela pode acreditar que está
estimulando o crescimento do marido. Entretanto, a comparação contínua tende a
produzir vergonha, ressentimento e sensação de inadequação. Em vez de construir
uma conversa sobre necessidades reais, estabelece-se uma atmosfera na qual o
outro sente que está permanentemente sendo avaliado diante de um padrão que
nunca consegue alcançar.
Esses comportamentos não devem ser tratados como simples
detalhes porque relacionamentos são construídos por repetição. Uma palavra pode
ser pequena, mas centenas de palavras semelhantes podem construir uma
atmosfera. Uma atitude pode parecer insignificante, mas uma sequência de
atitudes pode formar um padrão. É por isso que precisamos aprender a olhar não
apenas para acontecimentos isolados, mas para aquilo que estamos construindo
diariamente.
QUANDO A DOR COMEÇA A JUSTIFICAR TUDO
Existe uma dificuldade ainda maior nesse processo: muitas
vezes, os comportamentos destrutivos surgem em meio a dores legítimas. Uma
esposa pode realmente ter sido ferida. Pode ter experimentado rejeição,
negligência, decepção, abandono emocional ou injustiça. Pode estar cansada de
tentar conversar e não ser ouvida. Pode ter passado por situações que deixaram
marcas profundas.
O problema é que uma dor legítima não transforma
automaticamente qualquer reação em uma reação correta.
Podemos ter razão sobre aquilo que aconteceu e, ainda assim,
responder de uma maneira que não corresponde ao caráter de Cristo. Podemos ter
sido feridas e começar a ferir. Podemos ter recebido palavras duras e passar a
utilizar palavras igualmente duras. Podemos ter sido controladas e desenvolver
uma necessidade de controlar. Podemos ter sido humilhadas e começar a humilhar.
Podemos ter sido expostas e passar a expor.
Nesse ponto, surge um ciclo no qual cada pessoa passa a
justificar seu comportamento pelo comportamento do outro. “Eu fiz isso porque
ele fez primeiro.” “Eu falei assim porque ele me tratou assim.” “Eu parei de
conversar porque ele não me ouve.” “Eu contei para minha família porque
precisava que alguém soubesse.” O problema passa a ser tratado como uma
sequência interminável de causas e reações.
O Evangelho interrompe essa lógica porque nos chama a
assumir responsabilidade diante de Deus pela maneira como respondemos. Isso não
significa assumir a culpa pelo pecado do outro. Se existe violência, abuso,
ameaça, coerção ou qualquer outra forma grave de violência, a responsabilidade
pertence àquele que pratica tais atos, e buscar proteção e ajuda é necessário.
O governo de Deus jamais deve ser utilizado para exigir que uma pessoa
permaneça em uma situação de violência.
Entretanto, em meio às situações que precisam ser
enfrentadas com verdade e responsabilidade, cada uma de nós continua sendo
responsável diante de Deus pela própria conduta. A pergunta não pode ser apenas
“o que ele fez comigo?”, mas também “o que essa situação está produzindo em mim
e como estou respondendo a ela?”.
QUANDO O CASAMENTO SE TRANSFORMA EM UMA DISPUTA
Quando Cristo deixa de ocupar o centro, o casamento pode
gradualmente se transformar em uma disputa por território. Quem decide? Quem
tem razão? Quem vai ceder primeiro? Quem será reconhecido como vencedor? Quem
fará o outro pagar pelo que aconteceu?
Talvez nenhum dos dois diga essas coisas explicitamente.
Elas podem aparecer de maneira muito mais sutil. Um cônjuge deixa de ajudar
porque está ressentido. O outro começa a esconder informações. Um provoca. O
outro responde. Um utiliza os filhos. O outro utiliza o dinheiro. Um expõe. O
outro ameaça expor também. Cada um passa a construir mecanismos de defesa e
ataque.
Nesse ambiente, o casal deixa de enxergar o outro como
alguém com quem está construindo uma aliança e passa a enxergá-lo como alguém
contra quem precisa se proteger.
É possível que, depois de algum tempo, ambos se considerem
vítimas. Cada um possui uma lista de acontecimentos que justifica suas
atitudes. Cada um consegue explicar por que chegou ao ponto em que chegou. E,
enquanto procuram demonstrar quem está mais ferido, a própria aliança vai sendo
corroída.
É aqui que precisamos compreender que um casamento pode
estar sofrendo não apenas por aquilo que acontece fora dele, mas também pela
cultura que os próprios cônjuges estão estabelecendo dentro dele.
DUAS ERAS E UMA NOVA MANEIRA DE VIVER
Jesus e os apóstolos apresentam uma realidade formada por
duas eras: a presente e a vindoura. A era presente é marcada pelo pecado, pela
injustiça, pela rebelião e pela oposição a Deus. A era vindoura aponta para a
realidade que foi inaugurada com Cristo e que será plenamente consumada no
futuro.
Essa verdade nos ajuda a compreender a tensão presente na
experiência cristã. Cristo já veio, o Reino já foi inaugurado e o Espírito
Santo já foi dado, mas ainda aguardamos a consumação de todas as coisas. O
Reino já está atuando, mas ainda não experimentamos sua manifestação plena.
Essa realidade também nos ajuda a compreender nossos
processos pessoais. Uma mulher pode ter sido verdadeiramente transformada por
Cristo e ainda possuir áreas que precisam amadurecer. O novo nascimento não
significa que todos os padrões antigos desaparecerão instantaneamente. Existe
uma caminhada de transformação, santificação e renovação da mente.
O mesmo princípio precisa ser aplicado ao casamento. Um
casamento cristão não é um casamento no qual nunca existem conflitos. É um
casamento no qual os conflitos começam a ser tratados sob um governo diferente.
A discordância pode existir sem que o desprezo seja
necessário. A frustração pode existir sem que a vingança seja escolhida. A dor
pode existir sem que a manipulação se torne resposta. O limite pode ser
estabelecido sem que a crueldade seja utilizada. O arrependimento pode ser
praticado sem que a pessoa precise perder sua dignidade.
A presença do Reino não significa ausência de problemas.
Significa que os problemas já não precisam ser governados pela mesma
mentalidade que os produziu.
O REINO JÁ CHEGOU
Jesus declarou que o Reino de Deus já havia chegado. Em
Mateus 12:28, depois de falar sobre a atuação do Espírito de Deus, Ele afirma:
“chegou a vocês o Reino de Deus”. O Reino estava presente na pessoa e na obra
de Cristo.
Essa afirmação possui consequências práticas para a mulher
cristã. Não precisamos esperar que o marido mude, que o ambiente fique perfeito
ou que todas as circunstâncias se organizem para começarmos a viver segundo os
valores do Reino.
Podemos interromper um padrão destrutivo quando reconhecemos
que estamos participando dele. Podemos pedir perdão por uma palavra. Podemos
deixar de expor aquilo que deveria ser tratado com responsabilidade. Podemos
parar de utilizar os filhos como mensageiros. Podemos reconhecer uma atitude de
controle. Podemos abandonar uma comparação constante. Podemos buscar ajuda
quando percebemos que não conseguimos mais conversar sem destruir um ao outro.
Isso não significa que uma única mudança resolverá
imediatamente todos os problemas. A nova era já foi inaugurada, mas ainda
aguardamos sua consumação. A transformação pode ser um processo. Entretanto, o
fato de ser um processo não significa que devemos permanecer deliberadamente
nos mesmos padrões.
O REINO É ESPIRITUAL, MAS ALCANÇA A VIDA COTIDIANA
Paulo afirma que o Reino de Deus não é comida nem bebida,
mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo. Essa afirmação demonstra que o
Reino possui uma dimensão espiritual e redentora, mas não significa que seja
uma realidade desconectada da vida concreta.
Nossa espiritualidade precisa alcançar aquilo que acontece
dentro de casa. Não podemos separar aquilo que fazemos na igreja da maneira
como tratamos nosso marido quando estamos frustradas. Não podemos falar sobre
amor cristão enquanto cultivamos desprezo dentro do lar. Não podemos ensinar
nossos filhos sobre honra enquanto os fazemos assistir constantemente à desonra
entre os pais.
O Reino não é apenas aquilo que cantamos, estudamos ou
declaramos. Ele precisa alcançar a maneira como vivemos.
É por isso que o casamento pode revelar aspectos da nossa
espiritualidade que talvez não apareçam em outros ambientes. Dentro da igreja,
conseguimos controlar melhor nossas palavras. Em casa, diante das pessoas que
conhecem nossas fragilidades, nossas respostas podem revelar o que realmente
está governando nosso coração.
Isso não significa que o casamento seja um teste de
perfeição. Significa que ele é um dos lugares onde nossa formação espiritual se
torna visível.
A REDENÇÃO DA CRIAÇÃO E A TRANSFORMAÇÃO DO LAR
A apostila destaca que o propósito de Deus não é
simplesmente destruir o kosmos, a criação, mas redimi-lo, transformá-lo,
purificá-lo e restaurá-lo. Atos 3:21 fala da “restauração de todas as coisas”.
Essa compreensão é importante porque o Reino de Deus não
trabalha pela fuga da realidade. Ele entra na realidade para redimi-la.
Da mesma maneira, não devemos usar nossa fé para negar
aquilo que está acontecendo em um casamento. Não é espiritual fingir que tudo
está bem quando existe um problema sério. Não é espiritual chamar violência de
submissão. Não é espiritual chamar manipulação de sabedoria. Não é espiritual
utilizar a Bíblia para silenciar uma pessoa que precisa de ajuda.
A verdade bíblica nos conduz em direção à redenção, e
redenção pressupõe que reconheçamos aquilo que precisa ser transformado.
Em alguns casamentos, a primeira expressão dessa
transformação será o arrependimento. Em outros, será uma conversa que foi
adiada durante anos. Em outros, será a busca de aconselhamento. Em situações
graves, será a busca por proteção e intervenção adequada. O Reino não elimina a
responsabilidade humana; ele coloca nossa responsabilidade debaixo da
autoridade de Deus.
QUANDO NÃO PERCEBEMOS QUE ESTAMOS COLABORANDO COM UM CICLO
DESTRUTIVO
Uma das partes mais difíceis da maturidade espiritual é
reconhecer que podemos estar participando de algo que desejamos ver destruído.
Isso acontece especialmente quando estamos convencidas de que somos apenas
vítimas das circunstâncias.
Uma esposa pode desejar profundamente a restauração do
casamento e, ao mesmo tempo, continuar utilizando palavras que diminuem o
marido. Pode orar pela unidade da família e continuar colocando os filhos no
meio dos conflitos. Pode pedir que Deus cure a relação e continuar trazendo
para cada nova discussão todos os erros cometidos pelo marido no passado. Pode
desejar confiança, mas manter mecanismos de vigilância e controle. Pode querer
proximidade emocional e, ao mesmo tempo, utilizar frieza e silêncio como formas
de punição.
Em muitos casos, essas atitudes não são realizadas com a
intenção consciente de destruir o casamento. É justamente por isso que podem
ser tão difíceis de identificar. A pessoa acredita estar se defendendo,
ensinando, corrigindo, protegendo ou simplesmente expressando sua frustração.
Entretanto, precisamos aprender a avaliar não somente a
intenção, mas também o fruto.
Se determinada maneira de falar produz constantemente medo,
humilhação, afastamento e ressentimento, precisamos examiná-la.
Se determinada forma de resolver conflitos faz com que
marido e mulher se afastem cada vez mais, precisamos examiná-la.
Se a maneira como conversamos sobre nosso marido diante dos
filhos está destruindo a honra dentro da família, precisamos examiná-la.
Se o modo como reagimos aos erros do outro está formando um
ambiente no qual ninguém consegue admitir que falhou, precisamos examiná-lo.
A maturidade espiritual não consiste em encontrar
justificativas cada vez melhores para nossas atitudes. Consiste em permitir que
a verdade de Deus seja mais importante do que a necessidade de provar que
estamos certas.
O PERIGO DE UMA ESPIRITUALIDADE DE FUGA
A apostila também apresenta uma advertência sobre a
influência do dualismo platônico na compreensão do Reino. Essa visão divide a
realidade entre uma esfera espiritual considerada superior e uma realidade
material considerada inferior. Segundo o material, essa influência pode
produzir uma compreensão equivocada do Reino de Deus, reduzindo-o ao futuro e
ao céu, desprezando a realidade física e cotidiana e produzindo uma fuga da
responsabilidade no presente.
Essa advertência é extremamente relevante para nossa vida
familiar. Podemos desenvolver uma espiritualidade que fala muito sobre o que
Deus fará um dia, mas não permite que Ele transforme aquilo que estamos fazendo
hoje.
Podemos orar muito pelo casamento e pouco examinar nossas
atitudes.
Podemos pedir que Deus mude o coração do marido e resistir à
transformação do nosso próprio coração.
Podemos falar sobre guerra espiritual e não reconhecer que
algumas das maiores dificuldades do relacionamento estão sendo alimentadas por
comportamentos humanos que precisam de arrependimento e maturidade.
Podemos desejar uma intervenção sobrenatural enquanto
continuamos repetindo os mesmos padrões.
A espiritualidade do Reino não nos permite fugir da
realidade. Ela nos conduz para dentro dela com uma nova maneira de viver.
QUEM ESTÁ GOVERNANDO MINHAS REAÇÕES?
A pergunta central desta aula, portanto, não é apenas quais
valores estão presentes na sociedade. Precisamos perguntar quais valores estão
presentes em nós.
Quando somos contrariadas, o que governa nossa reação?
Quando nosso marido não corresponde às nossas expectativas, o que determina
nossa resposta? Quando somos feridas, buscamos a verdade e a restauração ou
imediatamente procuramos fazer o outro sentir aquilo que sentimos? Quando
percebemos um erro, buscamos conversar ou começamos a construir uma acusação?
Quando precisamos esperar, confiamos no governo de Deus ou tentamos controlar
todos os envolvidos?
Essas perguntas não devem ser respondidas com condenação,
mas com honestidade. O objetivo não é produzir culpa, e sim discernimento. A
culpa que apenas acusa pode nos paralisar, mas o arrependimento conduz à
transformação.
Uma mulher debaixo do governo de Cristo não é uma mulher que
nunca erra. É uma mulher que não considera seu erro intocável. Quando o
Espírito Santo revela uma atitude que não corresponde ao Reino, ela pode
reconhecer, arrepender-se e mudar.
Isso exige humildade porque, algumas vezes, será mais
confortável continuar apontando para aquilo que o outro fez. Entretanto, o
Reino começa a ser percebido de maneira concreta quando deixamos de utilizar o
pecado do outro como justificativa para o nosso.
UMA CASA SOB O GOVERNO DO REI
O Reino de Deus é apresentado nas Escrituras em diferentes
dimensões: presente e futuro, espiritual e redentor, governamental e cósmico,
pessoal e universal.
Essa amplitude nos impede de separar nossa fé da vida
cotidiana. O governo de Cristo precisa alcançar também a maneira como
construímos nossa família.
Uma casa sob o governo de Deus não é uma casa onde todos
concordam o tempo inteiro. Também não é uma casa onde nunca existem feridas,
decepções ou conflitos. É uma casa na qual esses conflitos não recebem
autoridade para estabelecer uma cultura permanente de desonra.
O casal pode discordar e continuar preservando a dignidade
um do outro. Pode enfrentar problemas sem transformar os filhos em aliados.
Pode estabelecer limites sem utilizar vingança. Pode buscar ajuda sem
transformar o aconselhamento em tribunal contra o outro. Pode reconhecer erros
sem transformar o passado em uma arma permanente.
Isso não acontece automaticamente. Exige formação,
maturidade e disposição para permitir que a Palavra de Deus confronte os
padrões que aprendemos.
O Reino precisa começar em nós antes de exigirmos que ele
seja percebido no outro.
CONCLUSÃO
A distinção entre kosmos e aion nos ajuda a
compreender que existe uma diferença entre a criação de Deus e os sistemas de
pensamento que se desenvolveram em uma humanidade afastada do Criador. Deus não
despreza sua criação. Pelo contrário, seu propósito envolve redenção,
restauração e reconciliação. Ao mesmo tempo, o Evangelho confronta a
mentalidade de uma era marcada pelo pecado e inaugura uma nova realidade em
Cristo.
Essa verdade precisa chegar ao casamento. Não fomos chamadas
a fugir da realidade da vida conjugal, mas a permitir que o governo de Cristo
alcance essa realidade. O Reino já chegou, embora ainda aguardemos sua plena
consumação. Por isso, não vivemos esperando que tudo seja perfeito para então
começar a obedecer. Vivemos hoje segundo os valores daquele Reino que Cristo já
inaugurou.
Precisamos também reconhecer que alguns casamentos não são
destruídos apenas por grandes acontecimentos. Existem relacionamentos que vão
sendo deteriorados por atitudes repetidas durante anos. A crítica constante, o
desprezo, a comparação, o silêncio punitivo, a manipulação, a exposição, o
controle, o envolvimento inadequado dos filhos, a competição e a incapacidade
de reconhecer a própria responsabilidade podem formar uma cultura doméstica
profundamente destrutiva.
Nem sempre percebemos nossa participação nesses processos
porque, muitas vezes, nossas atitudes surgem de feridas reais. Entretanto, uma
ferida não pode se tornar um governo. Se permitirmos que a dor determine
continuamente nossas respostas, poderemos reproduzir dentro de nossa casa
justamente aquilo que desejamos que Deus remova.
Precisamos fazer uma distinção teológica importante: nós não
destruímos o Reino de Deus. O Reino pertence ao Rei e não depende da nossa
capacidade de sustentá-lo. O que podemos fazer é resistir ao governo de Deus e
comprometer a maneira como os valores desse Reino são expressos em nossa casa.
Podemos construir uma cultura doméstica que contradiz aquilo que professamos
crer.
Por isso, a questão desta aula não é simplesmente perguntar
se nosso marido está vivendo debaixo do governo de Deus. Antes disso,
precisamos permitir que o Espírito Santo examine nosso próprio coração.
Que mentalidade está formando nossas reações? Quais valores
estão orientando nossa maneira de tratar nosso marido? Existem comportamentos
que estamos justificando porque fomos feridas? Estamos colaborando, ainda que
sem perceber, para a manutenção de um ciclo destrutivo? Estamos tentando
controlar aquilo que deveria ser entregue ao Rei?
A mulher que compreende o Reino aprende a viver entre o “já”
e o “ainda não”. Ela sabe que Cristo já inaugurou uma nova realidade, mas
também reconhece que ainda existem processos de transformação. Por isso, ela
não perde a esperança diante daquilo que ainda não foi concluído e também não
utiliza a esperança como desculpa para permanecer nos mesmos padrões.
O Reino já chegou. Cristo já é Rei. E, quando reconhecemos
Seu governo, a primeira transformação necessária não acontece necessariamente
na pessoa que está ao nosso lado. Ela começa quando permitimos que o Rei
governe aquilo que acontece dentro de nós.
PARA REFLETIR
Ao estudar esta aula, reserve um tempo para olhar
honestamente para sua própria maneira de agir dentro do casamento. Não comece
pensando no que seu marido precisa mudar. Comece perguntando quais
comportamentos seus podem estar contribuindo para manter conflitos,
distanciamento ou ressentimentos.
Observe especialmente aquelas atitudes que você costuma
justificar dizendo que são consequência daquilo que ele fez. Pergunte ao Senhor
se existe alguma diferença entre colocar limites necessários e utilizar esses
limites como forma de punição, controle ou vingança.
Também examine a maneira como você fala sobre seu marido
diante dos filhos, familiares e amigos. Considere se alguma informação que
deveria permanecer dentro da esfera conjugal está sendo compartilhada de
maneira que enfraquece a honra e a confiança.
Por fim, pergunte a si mesma se você está tentando fazer o
marido mudar para então conseguir viver em paz. Talvez Deus esteja mostrando
que existe uma parte dessa situação que não está sob seu controle, mas existe
também uma parte que está. É nessa parte que começa sua responsabilidade diante
do Rei.
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