4. Vivendo o Casamento Debaixo do Governo de Deus

 

JESUS É O REI DO MEU CASAMENTO

Submissão ao Rei antes de querer governar o reino doméstico

Nas aulas anteriores, vimos que o Reino de Deus não pode ser compreendido apenas como uma realidade futura. Cristo inaugurou o Reino na história, mas sua consumação ainda está por vir. Também aprendemos que existe uma diferença entre a criação de Deus e os sistemas de pensamento de uma era que se opõe ao governo divino. Agora precisamos avançar um passo: se o Reino de Deus já chegou e se ele representa o governo de Deus em ação, quem é o Rei que ocupa o centro desse Reino?

A resposta das Escrituras é inseparável da pessoa de Jesus Cristo. O Reino não pode ser compreendido corretamente sem compreender quem é o Rei. Jesus não veio apenas trazer ensinamentos sobre uma vida melhor, oferecer princípios éticos ou anunciar uma esperança futura. Sua proclamação estava relacionada à chegada do governo de Deus e à sua própria identidade como aquele por meio de quem esse governo se manifesta.

Essa compreensão possui uma importância muito grande para o casamento. Quando falamos que queremos uma casa debaixo do governo de Deus, precisamos entender o que isso significa. Não estamos simplesmente pedindo que Deus faça nosso casamento funcionar melhor. Não estamos procurando uma fórmula para convencer o marido a mudar. Não estamos colocando sobre nós mesmas a responsabilidade de controlar o ambiente da casa. Estamos reconhecendo que existe um Rei e que nossa primeira responsabilidade é submeter a nossa própria vida ao seu governo.

Essa mudança de perspectiva é fundamental. Enquanto estivermos preocupadas apenas em fazer o outro mudar, ainda estaremos pensando em termos de controle. Quando compreendemos o Reino, começamos a perguntar como podemos viver debaixo do governo do Rei, inclusive quando o comportamento das pessoas ao nosso redor não corresponde àquilo que gostaríamos.

GERHARDUS VOS E A ESSÊNCIA DO REINO DE DEUS

A aula-base apresenta Gerhardus Vos como uma figura importante na construção de uma compreensão equilibrada do Reino de Deus. Sua contribuição ajuda a estabelecer uma ponte entre interpretações anteriores e aquilo que posteriormente seria desenvolvido por George Eldon Ladd na compreensão do “já e ainda não”.

Ao estudar os Evangelhos Sinóticos, Vos chama atenção para a maneira como Jesus utilizou a expressão “Reino de Deus”. Essa escolha não deve ser tratada como uma simples preferência de linguagem. Existe uma intenção teológica nessa proclamação. Jesus estava anunciando a manifestação do governo de Deus e deslocando o centro da expectativa humana para a soberania divina.

Isso é particularmente importante porque o povo judeu daquele período possuía uma forte expectativa messiânica. As promessas proféticas alimentavam a esperança da chegada do Filho de Davi, aquele que restauraria o reino e cumpriria as promessas feitas por Deus a Israel. Entretanto, a expressão “Reino de Deus” não era simplesmente a maneira mais habitual pela qual essa expectativa era expressa naquele contexto. Jesus utiliza essa linguagem para anunciar que a realidade esperada estava chegando e que o próprio Deus estava intervindo na história.

A mensagem de Jesus, portanto, não dizia apenas que um novo período estava chegando. Ela apresentava uma reivindicação muito mais profunda: Deus é quem reina.

Essa afirmação muda tudo.

QUANDO O REI ENTRA NA HISTÓRIA

Israel carregava uma longa memória de dominação estrangeira. Assírios, babilônios, gregos e romanos haviam exercido domínio sobre o povo em diferentes períodos. Mesmo depois do retorno do exílio babilônico, permanecia a percepção de que a restauração prometida ainda não havia alcançado sua plenitude. O templo havia sido reconstruído, a identidade religiosa permanecia, mas Israel continuava sob domínio estrangeiro.

É nesse contexto que a proclamação de Jesus adquire uma força extraordinária. Quando Ele anuncia a chegada do Reino de Deus, não está apresentando simplesmente uma ideia religiosa abstrata. Está afirmando que o governo de Deus está entrando na história de maneira concreta.

Lucas registra o momento em que Jesus entra na sinagoga e lê a profecia de Isaías sobre o Espírito do Senhor, a libertação dos cativos, a restauração da vista aos cegos, a liberdade dos oprimidos e o ano aceitável do Senhor. Em seguida, Jesus declara que aquela Escritura havia se cumprido naquele dia. A aula-base apresenta esse episódio como uma demonstração de que a libertação anunciada pelos profetas estava sendo inaugurada na própria pessoa de Cristo.

Isso nos ajuda a perceber que Jesus não veio simplesmente ensinar as pessoas a suportarem melhor a realidade. Ele veio anunciar e manifestar uma nova realidade: o governo de Deus havia entrado na história.

O REI QUE CONFRONTA OUTROS GOVERNOS

A identificação de Jesus como “Rei dos Judeus” na crucificação também precisa ser compreendida dentro desse contexto. A mensagem do Reino possuía implicações que alcançavam as estruturas religiosas e políticas daquele período. O Império Romano apresentava César como autoridade suprema, enquanto Jesus anunciava a soberania de Deus.

A aula-base ressalta que Roma exercia seu domínio por meio da força militar, da autoridade imperial e da estrutura política. Jesus, por outro lado, proclamava um governo de natureza diferente. A chegada do Reino não significava uma revolução armada para substituir César por outro governante humano. Significava a proclamação de que a soberania definitiva pertence a Deus.

Essa distinção é importante porque nos impede de transformar o Reino de Deus em qualquer estrutura humana. A aula também apresenta a advertência histórica de que, em diferentes momentos, a Igreja foi confundida com o próprio Reino, inclusive quando se uniu a estruturas estatais ou políticas. Essa confusão produziu consequências sérias, pois o governo de Deus passou a ser associado ao poder institucional e à coerção humana.

A aplicação desse princípio para nós é muito relevante. O Reino de Deus não se estabelece dentro de uma casa simplesmente porque temos uma família cristã, frequentamos uma igreja ou possuímos uma determinada posição religiosa. O Reino se manifesta quando a autoridade de Deus começa a governar concretamente nossa maneira de viver.

SOBERANIA E REINO NÃO SÃO EXATAMENTE A MESMA COISA

A aula apresenta uma distinção teológica essencial entre soberania e Reino. A soberania diz respeito ao direito eterno de Deus de governar. Deus é soberano independentemente do reconhecimento humano. Seu direito de governar não depende da nossa aprovação.

O Reino, por sua vez, diz respeito à manifestação concreta dessa soberania dentro da história. Em outras palavras, a soberania é o direito de Deus de governar, enquanto o Reino evidencia essa soberania em ação. A aula resume essa compreensão ao apresentar o Reino como a soberania divina manifestada concretamente na realidade.

Essa distinção é extremamente importante para o casamento.

Deus continua sendo soberano mesmo quando uma pessoa não reconhece seu governo. Um marido pode resistir à vontade de Deus. Uma esposa pode resistir à vontade de Deus. Uma família inteira pode viver distante dos princípios do Reino. Isso não significa que Deus tenha deixado de ser Rei.

Entretanto, quando uma mulher decide submeter sua própria vida a Cristo, o governo de Deus começa a encontrar expressão concreta em suas escolhas.

É nesse sentido que precisamos compreender o que significa dizer que Jesus é o Rei do nosso casamento.

JESUS É O REI, NÃO O MARIDO, NÃO A ESPOSA E NÃO O CASAMENTO

Quando falamos de governo dentro do casamento, existe o risco de interpretar essa linguagem como uma disputa de autoridade entre marido e mulher. Entretanto, a lógica do Reino começa antes dessa discussão. O primeiro reconhecimento não é “quem manda mais?”, mas “quem é o Rei?”.

Jesus é o Rei.

Isso significa que nem o marido nem a esposa ocupam o lugar de autoridade absoluta. Ambos estão debaixo de uma autoridade superior. O casamento cristão não é um pequeno reino independente no qual cada cônjuge tenta conquistar território. Existe uma autoridade acima dos dois.

Essa compreensão também impede que textos bíblicos sobre casamento sejam utilizados como instrumentos de dominação. A autoridade do marido não pode ser interpretada como autorização para controlar, humilhar, intimidar ou violentar sua esposa. Da mesma maneira, a esposa não pode transformar submissão cristã em submissão ao pecado do marido.

Cristo permanece acima de ambos.

Quando o marido precisa tomar uma decisão, ele precisa responder diante de Cristo. Quando a esposa precisa tomar uma decisão, ela também precisa responder diante de Cristo. Quando existe um conflito, os dois precisam se lembrar de que estão diante de um Rei.

Isso muda a dinâmica do casamento porque desloca o centro da pergunta. Em vez de perguntarmos apenas “quem está certo?”, aprendemos a perguntar: “o que honra o Rei nesta situação?”.

O PROBLEMA DE QUERER GOVERNAR O OUTRO

Uma das manifestações mais sutis da dificuldade de viver sob o governo de Cristo aparece quando tentamos governar o outro.

Isso pode acontecer de muitas maneiras. Uma esposa pode tentar controlar a maneira como o marido fala, pensa, administra o dinheiro, se relaciona com os filhos, toma decisões ou conduz sua vida espiritual. Pode acreditar que, se conseguir organizar todas as coisas corretamente, conseguirá produzir o casamento que deseja.

Entretanto, existe uma diferença entre influência e controle.

Influenciar significa oferecer conselho, exemplo, diálogo e orientação. Controlar significa tentar dominar as escolhas do outro para produzir o resultado que desejamos.

Essa diferença precisa ser reconhecida porque, algumas vezes, o controle se apresenta com uma linguagem espiritual. Podemos dizer que estamos “ajudando nosso marido a crescer”, quando, na realidade, estamos tentando conduzir cada movimento dele. Podemos dizer que estamos “lutando pelo casamento”, quando estamos utilizando pressão constante. Podemos afirmar que estamos “cobrando responsabilidade”, quando estamos assumindo o papel de fiscal da vida do outro.

O governo de Cristo nos chama primeiro à submissão da nossa própria vontade.

Antes de perguntar como fazer o marido obedecer a Deus, precisamos perguntar se estamos dispostas a obedecer a Deus quando ele não faz aquilo que esperamos.

A SUBMISSÃO AO REI COMEÇA NO CORAÇÃO

A palavra submissão pode provocar diferentes reações porque, ao longo da história, ela já foi utilizada de maneira inadequada para justificar abusos. Por isso, precisamos tratá-la biblicamente.

Submeter-se ao governo de Cristo não significa perder a dignidade, abandonar a capacidade de pensar ou aceitar qualquer comportamento. Significa reconhecer que Jesus possui autoridade sobre nossa vida e que nossa vontade não é a autoridade final.

Isso alcança nossas emoções, nossos desejos, nossas palavras, nossas decisões e nossas reações.

É fácil dizer que Jesus é Senhor quando estamos de acordo com aquilo que Ele deseja. A dificuldade aparece quando obedecer significa abrir mão de uma reação que consideramos justa, abandonar uma forma de vingança, reconhecer nossa parcela de responsabilidade ou esperar quando gostaríamos de controlar.

É justamente nessas situações que o senhorio de Cristo se torna concreto.

A esposa que vive sob o governo do Rei não deixa de sentir raiva, tristeza ou frustração. Ela aprende, porém, a não permitir que essas emoções assumam o governo de suas decisões.

O REINO NÃO É UMA EXPERIÊNCIA APENAS INTERIOR

A aula apresenta também a contribuição de Adolf von Harnack e mostra como sua compreensão do Reino enfatizava a dimensão ética e interior da transformação. Essa ênfase reconhecia corretamente que o Reino produz mudanças na vida das pessoas, mas, segundo o material, tornava-se limitada quando reduzia o Reino a uma experiência interior e moral.

Essa discussão é importante para nós porque existe uma tendência de pensar que o governo de Deus acontece apenas dentro do coração. Entretanto, se Cristo governa nosso coração, esse governo precisa alcançar nossas ações.

Não adianta dizer que amamos o marido interiormente enquanto o tratamos com desprezo. Não adianta afirmar que desejamos a paz enquanto alimentamos deliberadamente conflitos. Não adianta dizer que perdoamos enquanto utilizamos constantemente o passado como arma. Não adianta falar que queremos uma família debaixo do governo de Deus enquanto construímos dentro de casa uma cultura de medo, competição e desonra.

O Reino interior precisa produzir consequências exteriores.

QUANDO O REINO ENTRA NA MANEIRA DE RESOLVER CONFLITOS

Uma das maiores evidências de que Cristo está governando uma casa aparece na maneira como os conflitos são tratados.

O conflito, por si só, não significa ausência do Reino. Duas pessoas diferentes inevitavelmente terão expectativas diferentes, opiniões diferentes e momentos de frustração. O problema está na maneira como lidamos com essas diferenças.

Quando o Reino governa, o conflito não precisa se transformar em uma guerra por poder. A verdade pode ser apresentada sem humilhação. O limite pode ser estabelecido sem vingança. A discordância pode existir sem desprezo. O arrependimento pode acontecer sem que a pessoa seja destruída emocionalmente por seu erro.

Isso não significa que todo conflito será resolvido rapidamente. Algumas situações exigem tempo, aconselhamento, mudanças concretas e, em casos graves, intervenção externa. O governo de Cristo não elimina a necessidade de sabedoria.

O que muda é a autoridade sob a qual enfrentamos o problema.

QUANDO O REINO ENTRA NA MANEIRA DE EDUCAR OS FILHOS

A presença do Reino também pode ser percebida na maneira como os filhos são formados.

Uma casa não transmite apenas aquilo que os pais ensinam verbalmente. Ela transmite aquilo que os filhos observam. Se uma mãe ensina sobre respeito, mas constantemente ridiculariza o pai diante das crianças, existe uma contradição entre discurso e prática. Se um pai fala sobre amor, mas utiliza intimidação, também existe uma contradição.

Os filhos aprendem quem governa uma casa observando como os adultos lidam com autoridade, conflitos, dinheiro, frustrações, perdão e responsabilidade.

Por isso, a formação dos filhos não pode ser separada da formação dos pais. Se desejamos criar uma geração que conheça o Rei, precisamos permitir que o governo desse Rei alcance também nossa maneira de viver diante deles.

O REINO NÃO PODE SER CONFUNDIDO COM UMA ESTRUTURA HUMANA

A aula-base percorre diferentes momentos históricos nos quais houve confusão entre Igreja e Reino de Deus. O material menciona a cristandade ligada ao Estado, interpretações posteriores associadas à estrutura institucional da Igreja, a eclesiologia sacramental medieval e as igrejas estatais surgidas em alguns contextos após a Reforma. Em todos esses casos, o problema central apresentado é a redução do Reino a uma estrutura humana.

Essa advertência também pode ser aplicada ao casamento de uma maneira diferente. Podemos construir uma estrutura familiar aparentemente cristã sem necessariamente permitir que Cristo governe nosso coração.

Podemos ter regras cristãs, costumes cristãos, linguagem cristã e uma rotina religiosa, mas ainda viver debaixo de controle, orgulho, ressentimento e competição.

Uma casa pode ter uma Bíblia aberta sobre a mesa e, ainda assim, possuir relações marcadas por desonra.

Por isso, não basta construir uma aparência de Reino. Precisamos permitir que o Rei governe.

A EXPECTATIVA MESSIÂNICA E A ESPERA PELO REI

A expectativa de Israel ajuda-nos a compreender a dimensão da esperança. O povo aguardava aquele que restauraria o reino prometido. Quando Jesus aparece e anuncia a chegada do Reino, Ele está se colocando dentro dessa história e vinculando o Reino à sua própria pessoa. A aula destaca que essa conexão aparece de maneira especialmente significativa na identificação de Jesus como Rei dos Judeus.

Para nós, isso significa que a esperança cristã não está fundamentada em uma ideia abstrata de futuro. Ela está fundamentada em uma pessoa.

Esperamos porque Cristo é o Rei.

Confiamos porque Cristo é o Rei.

Permanecemos porque Cristo é o Rei.

Essa verdade também precisa sustentar a mulher quando o casamento atravessa períodos difíceis. Nossa esperança não deve estar fundamentada exclusivamente na capacidade do marido de mudar, na nossa capacidade de manter tudo sob controle ou na previsão de como determinada situação terminará.

Nossa esperança está no Rei.

A TRANSIÇÃO PARA O “JÁ E AINDA NÃO”

A contribuição de Gerhardus Vos prepara o caminho para a compreensão desenvolvida por George Eldon Ladd. A aula apresenta Ladd como aquele que formulará uma compreensão mais equilibrada, conhecida como escatologia inaugurada, preservando tanto a presença real do Reino inaugurado por Cristo quanto sua consumação futura.

Essa compreensão é importante porque nos impede de cair novamente nos extremos estudados na aula anterior. Não podemos dizer que tudo pertence exclusivamente ao futuro, como se Cristo ainda não tivesse inaugurado seu Reino. Também não podemos afirmar que tudo já está plenamente consumado, como se não houvesse mais nada a esperar.

Vivemos no intervalo entre a inauguração e a consumação.

Cristo já reina.

Ainda aguardamos a manifestação plena desse Reino.

Essa tensão também acompanha nossa experiência no casamento. Podemos viver hoje sob o governo de Cristo mesmo quando ainda existem aspectos do relacionamento que precisam de transformação. Podemos experimentar a presença de Deus sem acreditar que todas as dificuldades desaparecerão imediatamente.

QUANDO O REI GOVERNA, A ESPOSA NÃO PRECISA SER A RAINHA DO CONTROLE

Existe uma aplicação especialmente importante para nós.

Quando compreendemos que Cristo é Rei, não precisamos assumir o controle absoluto do casamento para garantir que tudo dará certo. Isso não significa abandonar responsabilidades. Significa compreender os limites da nossa autoridade.

Podemos cuidar da casa, educar os filhos, administrar recursos, conversar sobre decisões, expressar necessidades, estabelecer limites e contribuir ativamente para a saúde do casamento. Entretanto, não fomos chamadas a ocupar o lugar de Deus na consciência do nosso marido.

Não somos responsáveis por produzir a transformação espiritual de outra pessoa.

Essa verdade pode ser libertadora, mas também confrontadora. Algumas vezes, nosso desejo de ver o casamento restaurado é tão intenso que começamos a acreditar que precisamos fazer alguma coisa o tempo inteiro. Procuramos a palavra certa, a oração certa, a estratégia certa, a conversa certa e, quando nada parece funcionar, aumentamos a pressão.

Mas o Reino nos ensina outra coisa.

Existe um Rei.

E nós não somos Ele.

A MULHER QUE VIVE DEBAIXO DO GOVERNO DE CRISTO

Uma mulher que vive debaixo do governo de Cristo não é uma mulher fraca, passiva ou sem voz. Ela é uma mulher que reconhece que sua força não precisa ser utilizada para dominar o outro. Sua autoridade não precisa nascer do controle. Sua segurança não depende de vencer todas as discussões.

Ela pode dizer aquilo que precisa ser dito sem transformar a verdade em arma. Pode discordar sem desrespeitar. Pode estabelecer limites sem vingança. Pode reconhecer o próprio erro sem perder dignidade. Pode pedir ajuda sem considerar isso fracasso. Pode esperar sem abandonar sua responsabilidade.

Ela também pode reconhecer quando uma situação ultrapassa aquilo que pode ser resolvido apenas com diálogo conjugal. Se existe violência, abuso, ameaça ou coerção, buscar proteção e ajuda não contradiz o governo de Cristo. Pelo contrário, agir com verdade e sabedoria também faz parte de uma vida submetida ao Rei.

O governo de Jesus não transforma a mulher em alguém incapaz de agir. Ele transforma a fonte a partir da qual ela age.

CONCLUSÃO

A compreensão do Reino de Deus nos conduz inevitavelmente à pessoa de Jesus. Gerhardus Vos contribui para essa compreensão ao destacar a importância da escolha feita por Cristo ao proclamar a chegada do Reino de Deus. Jesus não estava simplesmente anunciando uma experiência interior ou uma realidade distante. Ele estava declarando que o governo de Deus havia entrado na história e que a expectativa messiânica estava encontrando seu cumprimento em sua própria pessoa.

A distinção entre soberania e Reino também nos ajuda a compreender essa realidade. Deus sempre foi soberano, mas o Reino diz respeito à manifestação concreta dessa soberania na história. Cristo é aquele por meio de quem essa realidade é inaugurada.

Para o casamento, essa verdade possui uma consequência direta: antes de desejarmos que Deus governe nossa casa, precisamos permitir que Ele governe nossa vida.

Jesus não pode ser apenas o Senhor a quem pedimos para restaurar nosso casamento. Ele precisa ser o Rei diante de quem submetemos nossas escolhas, nossas reações, nossas palavras e nossos desejos.

Isso significa que não precisamos transformar nosso casamento em uma disputa pelo poder. Marido e esposa estão debaixo de uma autoridade superior. Cristo não é um terceiro elemento acrescentado ao casamento como alguém que apenas ajuda o casal a resolver seus problemas. Ele é o Rei diante de quem ambos vivem.

Quando essa verdade começa a ser compreendida, também muda nossa maneira de enfrentar os processos. Não precisamos controlar o outro para provar que confiamos em Deus. Não precisamos usar manipulação para produzir mudanças. Não precisamos transformar a espiritualidade em instrumento de pressão.

Podemos assumir nossa responsabilidade e entregar a Deus aquilo que não podemos governar.

A teologia do “já e ainda não”, que será aprofundada a partir da contribuição de George Eldon Ladd, nos ajudará a compreender como viver nessa realidade. O Reino já foi inaugurado em Cristo, mas ainda aguardamos sua plena consumação.

Enquanto esperamos, porém, existe uma coisa que não precisa esperar: nossa submissão ao Rei.

Cristo já é Rei.

E o primeiro território sobre o qual seu governo precisa ser reconhecido é o nosso próprio coração.

 

PARA REFLETIR

Ao estudar esta aula, reflita sobre a diferença entre desejar que Deus governe sua casa e permitir que Ele governe você. Muitas vezes, queremos que o Senhor transforme o comportamento do nosso marido, mas resistimos quando o Espírito Santo aponta algo em nossa própria maneira de pensar, falar ou reagir.

Observe também se existe alguma área do casamento na qual você tem tentado exercer um controle que pertence somente a Deus. Considere se sua preocupação com a transformação do outro tem feito você assumir uma responsabilidade que não lhe pertence.

Pense ainda na maneira como você reage quando seu marido não faz aquilo que você considera correto. Sua resposta revela submissão ao governo de Cristo ou uma tentativa de fazer prevalecer sua própria vontade?

Por fim, examine o ambiente que está sendo construído dentro de sua casa. Se seus filhos observassem apenas a maneira como você e seu marido lidam com autoridade, conflitos, perdão, dinheiro e diferenças, que imagem do governo de Cristo eles estariam aprendendo?

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