O Reino de Deus: O "Já" e o "Ainda Não"
Falar sobre o Reino de Deus é entrar no centro da mensagem de Jesus. Desde o início de seu ministério, Jesus anunciou: “O tempo está cumprido, e o Reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho” (Marcos 1:15, ARA). Essa declaração revela que algo decisivo havia acontecido na história. O governo de Deus não era mais apenas uma expectativa distante. Em Jesus Cristo, o Reino havia começado a se manifestar.
Entretanto, ao mesmo tempo em que o Novo Testamento afirma que o Reino já chegou, também aponta para uma realidade que ainda será plenamente estabelecida. Jesus ensina seus discípulos a orar: “Venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mateus 6:10, ARA). Como podemos, então, afirmar que o Reino já chegou e, ao mesmo tempo, pedir que ele venha?
É justamente nessa tensão que encontramos uma das mais importantes categorias da teologia do Novo Testamento: o “já e ainda não” do Reino de Deus.
Uma ideia bíblica que recebeu uma formulação teológica posterior
É importante fazer uma distinção histórica. A expressão “já e ainda não” não aparece como uma fórmula no texto bíblico. Ela é uma maneira posterior de organizar uma realidade que está presente em diversos textos do Novo Testamento.
No século XX, alguns teólogos passaram a desenvolver diferentes compreensões sobre a natureza da escatologia ensinada por Jesus.
Um dos nomes importantes nesse debate foi Albert Schweitzer (1875–1965). Em sua interpretação da vida e da mensagem de Jesus, Schweitzer deu grande ênfase à dimensão futura e iminente da expectativa escatológica. Para ele, a proclamação de Jesus estava profundamente relacionada à expectativa da intervenção decisiva de Deus no fim da história.
Posteriormente, o teólogo britânico C. H. Dodd (1884–1973) desenvolveu aquilo que ficou conhecido como “escatologia realizada”. Dodd enfatizou que as promessas escatológicas não deveriam ser compreendidas apenas como acontecimentos futuros. Em Jesus, a realidade esperada já havia irrompido na história. O Reino de Deus estava presente na pessoa e na obra de Cristo.
A contribuição de Dodd foi extremamente importante porque chamou atenção para uma verdade frequentemente esquecida: o futuro de Deus começou a se manifestar no presente por meio de Jesus.
Entretanto, havia uma dificuldade. Se o Reino já havia chegado, como explicar as numerosas passagens do Novo Testamento que ainda apontam para sua consumação futura?
É nesse cenário que surge uma das contribuições mais importantes de Oscar Cullmann (1902–1999).
Oscar Cullmann e a formulação do “já e ainda não”
O teólogo suíço Oscar Cullmann tornou-se uma das figuras mais importantes na formulação da chamada escatologia inaugurada. Em sua obra Christ and Time, publicada originalmente em 1946, Cullmann procurou compreender a história da salvação a partir da relação entre aquilo que Deus já realizou em Cristo e aquilo que ainda será realizado no futuro.
Para Cullmann, a obra decisiva da salvação já aconteceu. A morte e a ressurreição de Jesus constituem o acontecimento central da história da redenção. Entretanto, a vitória conquistada por Cristo ainda aguarda sua manifestação e consumação final.
Cullmann utilizou uma analogia histórica muito conhecida: o Dia D e o Dia da Vitória durante a Segunda Guerra Mundial.
O Dia D representou o momento decisivo que marcou a derrota inevitável da Alemanha nazista, embora a guerra ainda não tivesse terminado. Entre o Dia D e a vitória final existia um período de combate no qual o resultado fundamental já estava determinado, mas a guerra continuava.
Para Cullmann, algo semelhante acontece na história da salvação.
A cruz e a ressurreição são o grande “Dia D” da história.
Cristo venceu o pecado, a morte e os poderes das trevas. Entretanto, ainda aguardamos o momento em que essa vitória será manifestada em sua plenitude.
Essa perspectiva ajuda a compreender uma das características mais fascinantes da fé cristã: vivemos entre uma vitória já conquistada e uma vitória que ainda será plenamente revelada.
O “já”: o Reino chegou
Quando Jesus expulsa demônios, cura enfermos, perdoa pecados e restaura pessoas, ele não está simplesmente realizando milagres isolados. Esses acontecimentos são sinais de que o governo de Deus está invadindo a história.
Jesus declara:
“Se, porém, eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado a vós o Reino de Deus.”
Mateus 12:28 (ARA)
O Reino chegou porque o Rei chegou.
Essa é uma afirmação fundamental. O Reino de Deus não deve ser entendido apenas como um lugar para onde iremos depois da morte. Na linguagem bíblica, Reino está relacionado ao governo, autoridade e reinado de Deus.
Quando Jesus começa a reinar, o Reino começa a se manifestar.
Por isso, o cristão não vive apenas aguardando alguma coisa que Deus fará no futuro. Existe uma realidade do Reino disponível no presente.
O pecado pode ser confrontado.
Pessoas podem ser reconciliadas com Deus.
Vidas podem ser transformadas.
O Espírito Santo pode habitar no ser humano.
A Igreja pode testemunhar o governo de Cristo.
A oração pode produzir frutos.
A graça pode restaurar aquilo que estava destruído.
Tudo isso pertence ao “já”.
O “ainda não”: a história ainda não terminou
Mas o Novo Testamento não permite que transformemos o “já” em “tudo”.
Ainda existe morte.
Ainda existe sofrimento.
Ainda existe pecado.
Ainda existe injustiça.
Ainda existem lágrimas.
Ainda esperamos a ressurreição dos mortos.
Ainda aguardamos a volta de Cristo.
Ainda esperamos novos céus e nova terra.
Paulo afirma que Cristo deve reinar:
“até que haja posto todos os inimigos debaixo de seus pés.”
1 Coríntios 15:25 (ARA)
E então declara:
“O último inimigo a ser destruído é a morte.”
1 Coríntios 15:26 (ARA)
Portanto, a vitória foi conquistada, mas a consumação ainda está por vir.
É por isso que o cristão consegue olhar para a realidade presente sem negar sua dureza e, ao mesmo tempo, permanecer cheio de esperança.
A morte existe, mas não terá a palavra final.
O sofrimento existe, mas não será eterno.
O pecado ainda atua, mas já foi derrotado na cruz.
O Reino já está presente, mas ainda será plenamente revelado.
George Eldon Ladd e a escatologia inaugurada
Essa compreensão recebeu grande desenvolvimento no meio evangélico através do teólogo americano George Eldon Ladd (1911–1982).
Ladd destacou que o Reino de Deus não deveria ser colocado exclusivamente no futuro. Para ele, Jesus inaugurou o Reino no presente, mas sua consumação pertence ao futuro.
Essa perspectiva tornou-se conhecida como “escatologia inaugurada”.
A palavra “inaugurada” é particularmente importante porque descreve algo que começou, mas ainda não alcançou sua forma definitiva.
Podemos pensar em uma construção cuja fundação já foi estabelecida, embora a obra ainda não esteja concluída.
Cristo lançou os fundamentos da nova criação por meio de sua morte e ressurreição. O Espírito Santo é a presença antecipada dessa realidade futura. A Igreja vive nesse intervalo, testemunhando aquilo que Deus já iniciou enquanto aguarda aquilo que Deus ainda fará.
O Espírito Santo: a garantia do que ainda virá
Talvez uma das evidências mais bonitas dessa tensão esteja na maneira como Paulo fala sobre o Espírito Santo.
Ele chama o Espírito de “penhor da nossa herança” (Efésios 1:14, ARA).
A palavra grega é arrabōn, termo utilizado para indicar uma garantia, um sinal ou uma primeira parcela de algo que será recebido posteriormente em sua totalidade.
Isso significa que o cristão já experimenta algo da realidade futura.
Temos o Espírito, mas ainda esperamos a redenção completa.
Temos a salvação, mas ainda aguardamos a glorificação.
Temos a vida eterna, mas ainda enfrentamos a morte.
Temos comunhão com Deus, mas ainda aguardamos o dia em que o veremos face a face.
Paulo expressa essa tensão em Romanos 8. A criação geme, os filhos de Deus gemem e nós também gememos enquanto aguardamos a redenção do nosso corpo.
A vida cristã, portanto, não é uma existência em que tudo já foi consumado. É uma vida vivida entre a promessa cumprida e a promessa que ainda será plenamente cumprida.
O perigo do triunfalismo
Compreender o “já e ainda não” também nos protege de uma teologia triunfalista.
Existe uma tendência de transformar o poder presente do Reino em uma promessa de que todo sofrimento será necessariamente eliminado nesta vida.
Mas o próprio Novo Testamento não ensina isso.
Jesus realizou milagres, mas nem todos os enfermos de sua geração foram curados.
Lázaro foi ressuscitado, mas voltou a morrer.
Os apóstolos experimentaram milagres extraordinários e também sofreram perseguições, prisões, doenças e morte.
Paulo conheceu o poder da ressurreição e, simultaneamente, participou dos sofrimentos de Cristo.
Isso não significa ausência de fé.
Significa que a consumação do Reino ainda não aconteceu.
O milagre é uma manifestação do Reino, mas não é ainda a consumação do Reino.
A cura aponta para a realidade futura em que não haverá mais morte nem sofrimento. A libertação aponta para o dia em que todo poder contrário a Deus será definitivamente destruído.
O perigo do outro extremo
Por outro lado, também seria um erro afirmar que tudo pertence ao futuro.
Jesus não anunciou simplesmente:
“Um dia o Reino virá.”
Ele anunciou:
“O tempo está cumprido, e o Reino de Deus está próximo.”
Marcos 1:15 (ARA)
O Reino já começou.
A Igreja, portanto, não é chamada a viver passivamente esperando o fim. Ela deve testemunhar no presente os valores do governo de Cristo.
Isso inclui justiça, misericórdia, santidade, reconciliação, perdão, verdade, serviço e amor.
A Igreja deve ser uma comunidade que demonstra antecipadamente aquilo que Deus fará plenamente na nova criação.
Vivendo entre o “já” e o “ainda não”
Essa perspectiva muda a maneira como compreendemos a vida cristã.
Não precisamos negar o sofrimento para afirmar que Deus reina.
Não precisamos negar os problemas para afirmar que Cristo venceu.
Não precisamos transformar cada dificuldade em sinal de falta de fé.
Também não precisamos aceitar passivamente o pecado, a injustiça ou a destruição como se Deus não estivesse agindo.
Vivemos entre duas realidades.
O Reino já chegou, mas ainda esperamos sua plenitude.
Cristo já venceu, mas ainda aguardamos a destruição definitiva de seus inimigos.
A nova criação já começou, mas ainda esperamos sua manifestação completa.
O Espírito já habita em nós, mas ainda aguardamos a redenção do corpo.
A salvação já foi inaugurada, mas ainda aguardamos a glorificação.
Essa tensão não é uma contradição. É precisamente a estrutura da esperança cristã.
O Reino e a esperança cristã
A teologia do “já e ainda não” nos ensina a viver com os pés no presente e os olhos voltados para o futuro de Deus.
Não somos pessoas tentando construir sozinhas um Reino que ainda não existe. O Rei já chegou.
Também não somos pessoas esperando passivamente que Deus faça tudo no futuro. O Rei já nos chamou para viver debaixo de seu governo hoje.
Nossa missão acontece nesse intervalo.
É nesse período entre a ressurreição e a segunda vinda de Cristo que a Igreja anuncia o evangelho, discipula pessoas, cuida dos necessitados, proclama a verdade, pratica misericórdia e testemunha que existe um Rei.
A história ainda não terminou.
Mas também não está sem direção.
O Reino já começou.
A vitória decisiva já foi conquistada.
E aquilo que Deus iniciou em Cristo será levado à sua plenitude.
Por isso, a esperança cristã não é um otimismo ingênuo diante de um mundo quebrado. É a confiança de que o futuro de Deus já entrou na história e, um dia, aquilo que hoje experimentamos parcialmente será plenamente revelado.
O cristão vive, portanto, entre a memória de uma vitória já conquistada e a expectativa de uma vitória que ainda será plenamente manifestada.
Vivemos no “já”, mas caminhamos para o “ainda não”.
E entre esses dois momentos está a Igreja, sustentada pelo Espírito Santo, aguardando o dia em que o Rei voltará e o Reino será consumado.
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