Quando a Bíblia é lida a partir de uma cultura: o que a Igreja da Etiópia pode nos ensinar


Estamos acostumados a pensar que simplesmente abrimos a Bíblia, lemos um texto e descobrimos o seu significado. Parece algo objetivo e direto. Afinal, se a Palavra de Deus é a mesma, não deveria sua interpretação ser sempre exatamente igual?

O livro An Ethiopian Reading of the Bible, de Keon-Sang An, nos conduz a uma reflexão muito mais profunda. Ao estudar a maneira como a Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo interpreta as Escrituras, o autor demonstra que a leitura da Bíblia nunca acontece no vazio. Todo leitor está inserido em uma história, uma comunidade, uma tradição e uma realidade cultural que influenciam a maneira como ele compreende o texto bíblico.

Isso não significa que a Bíblia seja relativa ou que cada pessoa possa fazer dela o que quiser. Muito pelo contrário. A questão levantada pelo estudo é mais séria: precisamos reconhecer que nós também lemos a Bíblia a partir de algum lugar.

A Bíblia atravessa culturas

A Igreja Etíope possui uma história cristã extraordinariamente antiga. Segundo o estudo apresentado por An, sua tradição interpretativa foi formada ao longo de muitos séculos dentro do contexto histórico e cultural da Etiópia.

Essa realidade produziu uma maneira particular de ler as Escrituras. A Bíblia não foi simplesmente recebida como um texto estrangeiro ao qual os etíopes precisassem acrescentar posteriormente sua cultura. Ao longo dos séculos, a comunidade cristã etíope desenvolveu uma tradição própria de interpretação, transmitida de geração em geração.

Um dos exemplos mais importantes dessa tradição é o chamado comentário Andemta.

O termo andemta está relacionado à expressão utilizada para apresentar uma interpretação alternativa, algo semelhante a "outro diz". O comentário pode apresentar diferentes interpretações de uma mesma passagem sem necessariamente escolher uma única delas como a única possibilidade legítima.

Isso é particularmente interessante porque revela uma tradição interpretativa que reconhece a profundidade e a dimensão misteriosa das Escrituras. O objetivo não é simplesmente explicar palavras difíceis, mas iluminar significados espirituais e instruir a comunidade de fé.

A tradição também ensina a ler

Um dos pontos mais provocadores do livro é perceber que a tradição não está apenas ao redor da interpretação bíblica. Ela participa dela.

Na Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo, a interpretação das Escrituras está profundamente relacionada à tradição teológica da própria Igreja. O conhecimento bíblico era transmitido dentro de uma estrutura comunitária de ensino. O intérprete não era visto simplesmente como alguém que possuía liberdade para produzir uma interpretação completamente nova, mas como alguém que recebia, preservava e transmitia aquilo que havia aprendido.

Aqui encontramos uma questão extremamente importante para a Igreja contemporânea.

Vivemos em uma época que valoriza muito a interpretação individual. É comum ouvir: "Para mim, esse versículo significa..." ou "Eu entendi que Deus está dizendo..." Entretanto, a tradição cristã histórica sempre teve maior cautela diante da ideia de que qualquer indivíduo possa simplesmente estabelecer sozinho o significado das Escrituras.

A Bíblia foi entregue à comunidade da fé, e a comunidade cristã possui uma história de leitura.

Isso não significa colocar a tradição acima das Escrituras. Significa reconhecer que ninguém começa sua leitura da Bíblia do zero.

Quando abrimos uma Bíblia, já carregamos conosco aquilo que aprendemos na família, na igreja, na escola bíblica, nos sermões, nos livros que lemos e nas tradições teológicas que recebemos.

O curioso método de partir do símbolo

Uma das características mais interessantes identificadas por An na interpretação etíope é o uso intenso de símbolos.

Em determinados sermões da Igreja Etíope, objetos e personagens bíblicos são interpretados simbolicamente e relacionados à realidade espiritual da comunidade.

O exemplo da Arca da Aliança é particularmente significativo. A arca não é vista somente como um objeto pertencente à história de Israel. Ela possui uma dimensão simbólica e teológica que se projeta para a realidade cristã.

Em determinada pregação analisada pelo autor, a Arca é relacionada à presença de Deus, à obra de Cristo e à própria vida da Igreja.

Outro exemplo aparece na interpretação da história de Noé. A arca pode ser relacionada à cruz, ao batismo, à Igreja e à ressurreição. Dessa maneira, acontecimentos e objetos do Antigo Testamento são compreendidos à luz de Cristo.

Para o leitor protestante acostumado a começar pela reconstrução histórica do texto e somente depois procurar uma aplicação, essa abordagem pode parecer bastante diferente.

E justamente por isso ela é tão interessante.

Ela nos lembra de algo que muitas vezes esquecemos: durante grande parte da história cristã, a leitura das Escrituras foi profundamente teológica, simbólica e cristocêntrica.

Cristo continua sendo o centro

Apesar das diferenças entre a tradição etíope e outras tradições cristãs, há um elemento que chama particularmente a atenção: a interpretação apresentada no estudo possui forte orientação cristocêntrica.

O Antigo Testamento é lido em relação à pessoa e à obra de Jesus Cristo. Profecia e cumprimento formam uma espécie de estrutura através da qual muitos textos são compreendidos.

Isso nos leva novamente à própria Bíblia.

Jesus, depois de sua ressurreição, encontrou dois discípulos no caminho de Emaús e, começando por Moisés e passando pelos Profetas, explicou-lhes "o que a seu respeito constava em todas as Escrituras" (Lucas 24:27, ARA).

Essa afirmação é fundamental para qualquer hermenêutica cristã.

Não basta perguntar: "O que este texto significa para mim?"

Precisamos perguntar também: "Como este texto participa da grande história da redenção que encontra seu centro em Cristo?"

A leitura cristã da Bíblia não pode perder Jesus de vista.

Quando nossa cultura se torna invisível

Talvez uma das maiores contribuições desse estudo para nós não seja nos ensinar a interpretar a Bíblia exatamente como os etíopes interpretam. A contribuição mais importante talvez seja nos ajudar a perceber nossos próprios óculos.

Nós conseguimos enxergar com facilidade a influência da cultura de outra pessoa. Quando observamos uma tradição cristã africana, asiática ou latino-americana, rapidamente percebemos seus costumes, símbolos e pressupostos.

Entretanto, temos muito mais dificuldade para enxergar os pressupostos da nossa própria tradição.

Um cristão ocidental também lê a Bíblia a partir de uma história.

Carregamos categorias filosóficas, modelos educacionais, conceitos psicológicos, estruturas familiares, ideias políticas, experiências denominacionais e pressupostos culturais que influenciam nossas perguntas e nossas respostas.

Por isso, estudar como outros cristãos leem a Bíblia pode ser uma experiência de humildade.

Às vezes, precisamos olhar para outra tradição não para copiar suas conclusões, mas para descobrir os pressupostos que nós mesmos nunca percebemos que carregávamos.

Contexto não significa relativismo

Aqui existe uma distinção que precisa ser preservada.

Reconhecer o contexto da interpretação não significa afirmar que não existe verdade.

O fato de pessoas diferentes lerem um texto a partir de contextos diferentes não significa que todas as interpretações sejam igualmente corretas.

A própria existência da interpretação contextual nos obriga a ser mais cuidadosos.

Precisamos perguntar: qual é o contexto do texto? Qual é o contexto do intérprete? Qual é a tradição teológica envolvida? Quais pressupostos estão sendo utilizados? Que lugar a comunidade de fé ocupa nessa interpretação?

Essas perguntas não diminuem a autoridade das Escrituras. Elas podem nos ajudar a perceber com maior honestidade aquilo que estamos fazendo quando interpretamos a Palavra.

O perigo de transformar nossa tradição em sinônimo de Bíblia

Existe um perigo silencioso em toda tradição cristã: confundir aquilo que recebemos historicamente com aquilo que a Escritura necessariamente ensina.

A tradição pode preservar verdades preciosas. Ela pode guardar a memória da Igreja, transmitir doutrina, formar gerações e impedir que cada geração comece tudo novamente.

Mas a tradição também precisa ser examinada à luz das Escrituras.

Jesus enfrentou esse problema quando disse aos líderes religiosos de seu tempo: "Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens" (Marcos 7:8, ARA).

O problema, portanto, não é simplesmente ter tradição.

O problema é quando a tradição deixa de ser uma serva da verdade e passa a ocupar o lugar da própria verdade.

Por outro lado, existe um erro igualmente perigoso: imaginar que somente aquilo que eu descobri individualmente é bíblico.

A maturidade cristã precisa caminhar entre esses dois extremos.

O que podemos aprender com a leitura etíope?

A primeira lição é que precisamos ter humildade diante das Escrituras. A Bíblia é suficientemente clara para revelar Deus e sua vontade, mas é também profunda o suficiente para continuar nos conduzindo a novas descobertas ao longo da vida.

A segunda é que precisamos conhecer nossa própria tradição. Antes de criticar a maneira como outros cristãos interpretam a Bíblia, seria sábio perguntar: "De onde veio a maneira como eu aprendi a interpretar?"

A terceira é que a Bíblia deve continuar sendo lida dentro da comunidade da fé. A fé cristã nunca foi concebida como um projeto puramente individual. Existe uma Igreja, existe uma história, existem mestres, existem testemunhas e existe uma herança que recebemos.

A quarta é que precisamos manter Cristo no centro. Existem muitas maneiras legítimas de estudar a Bíblia, mas a leitura cristã não pode perder de vista aquele para quem apontam as Escrituras.

E, finalmente, precisamos aprender a distinguir entre a Palavra de Deus e os óculos através dos quais a enxergamos.

Talvez essa seja uma das perguntas mais necessárias para o nosso tempo: não apenas "O que a Bíblia diz?", mas também "O que estou trazendo comigo quando leio aquilo que a Bíblia diz?"

A leitura etíope da Bíblia nos oferece uma oportunidade extraordinária para olhar novamente para nossas próprias Escrituras. Não necessariamente para abandonar aquilo que recebemos, mas para examiná-lo com maior consciência, humildade e fidelidade.

Porque estudar como outros cristãos leem a Bíblia pode, paradoxalmente, nos ajudar a perceber pela primeira vez como nós mesmos a lemos.

E talvez seja justamente aí que começa uma interpretação mais madura: quando deixamos de imaginar que somos leitores neutros e passamos a buscar, com temor de Deus, que nossa tradição, nossa cultura e nossas próprias expectativas sejam continuamente submetidas à autoridade da Palavra.

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